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Acordar num outro mundo

O mundo está cada vez mais confuso. Aliás, como sempre esteve, desde que Adão descobriu a vagina de Eva e a mordeu como se fosse uma maçã. Cada geração tem a particularidade de ser o umbigo do mundo e o olho do cosmos, centrando no seu tempo todas as desgraças da humanidade. Há quem já anuncie um regresso a uma nova idade média, anúncio que me parece manifestamente exagerado. No entanto, é fácil reconhecer que são cada vez mais os indícios de que há um padrão civilizacional a desmoronar-se.

Por cá, este desmoronamento não tem só a ver com o estertor final do regime em que vivemos nos últimos quarenta anos, ilustrado com o trambolhão de Ricardo Salgado, o banqueiro entre os banqueiros, e o desaparecimento, numa noite de Agosto, do que foi o maior banco privado português ou com a detenção de um ex-primeiro-ministro, facto inédito entre nós e raro na Europa, depois da detenção de altos quadros do Estado supostamente envolvidos numa teia dourada de vistos de residência a estrangeiros endinheirados.

Os sinais da decadência surgem todos os dias, aos magotes, desaparecendo na espuma do turbilhão de informação que nos afoga. Um administrador do hospital Amadora-Sintra perguntou a um médico qual o procedimento que saía mais barato: o tratamento para salvar a perna a um doente ou amputá-la e colocar uma prótese. Nesta pergunta está todo um programa do futuro “serviço nacional de saúde”. A opinião médica vai ceder, mais dia, menos dia, às pressões de gestores incumbidos de poupar dinheiro. O médico diz: vamos operar o doente. O administrador questiona: qual a percentagem de êxito da operação? O médico responde: 50%. O administrador dirá: não opere, o risco financeiro é muito elevado.

Já que estamos em maré de hospitais, nas entrevistas em concursos para admissão em hospitais e centros de saúde de jovens médicas, os entrevistadores perguntam, à laia de critério decisivo de admissão: tenciona engravidar nos próximos anos? Numa só pergunta vai na enxurrada um rol de direitos: da privacidade à natalidade, passando por uma clara descriminação. Talvez, exercendo o direito de resistência ao espezinhar de direitos, as candidatas tenham respondido à insolente pergunta: nem pensar! Enquanto pensavam, para celebrar, engravidar no dia da admissão.

O deboche vai mais longe. Duas grandes empresas, a REN e a Galp, decidiram não pagar um imposto extraordinário previsto na lei porque, juízes em causa própria, decidiram que o tal imposto não “é legítimo”. O cidadão comum paga e, se acha que não está certo, depois reclama. As grandes empresas não pagam e o Estado, se quiser que reclame.

Estes exemplos da decadência da democracia e do estertor do regime foram todos noticiados na mesma semana. Cada semana que passa mais exemplos iguais ou semelhantes são noticiados. Desfazem-se na voragem da informação sem deixar rasto. Entram na “normalidade”. Até ao dia em que, distraídos, acordamos num outro mundo.

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Tomás Vasques

Advogado de profissão, não se deixou enclausurar em códigos e barras. Arrumado na prateleira da esquerda pela natureza das coisas, desenvolveu na juventude – ainda as mil águas de Abril não tinham chegado – gostos exóticos, onde se incluíam chineses, albaneses e charros alimados. Navegou por vários territórios: da pintura à América Latina, da escrita à actividade política. Gosta de rir, de cozinhar, de Roberto Bolaño, de honestidade, cerveja, conquilhas e peixe fresco. Irrita-se com a intolerância, o autoritarismo e vendedores de banha da cobra. É agnóstico. Apesar da idade, ainda não perdeu o medo do escuro, do sobrenatural e das ditaduras.

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