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Acabou o Verão

“Vamos comprar o material, Afonso.”

Foi assim que a mãe lhe anunciou que o Verão tinha acabado e iam voltar à escola. Ele sentiu muitas coisas dentro dele, ao mesmo tempo. Duvidava se queria ou não voltar. Estava a gostar das férias, de acordar mais tarde e ver desenhos, de jogar PlayStation, de passear com os pais. Mas se voltasse à escola ia voltar a ver a Rosarito, a namorada dele. Gostava tanto da Rosarito! Às vezes falavam por telemóvel, quando a mãe e o pai deixavam. Contavam o que faziam nesses dias longos e quentes de Verão – para o Afonso, as actividades de destaque eram a natação, os jogos da PlayStation, os passeios; para a Rosarito as novidades eram os bolos da avó, os primos e a praia.

“Vá, Afonso, levanta-te do sofá para irmos” a mãe de mala ao ombro, a olhar para ele. Ele continuava a olhar para os desenhos animados. “Podes escolher o caderno que mais gostares.” A voz era suave e tinha um meio sorriso nos lábios. Ele levantou-se rápido. Gostava muito de cadernos, principalmente para desenhar. Na escola eles não desenhavam muito, nem escreviam muito. O que faziam mais era cavar na terra e misturar ingredientes para um bolo. Era uma escola diferente da outra onde ele tinha andado. Na outra, às vezes os professores chateavam-se com ele ou não lhe ligavam, e os meninos não queriam brincar. Ele gostava mais desta escola, os meninos eram diferentes e mais parecidos a ele. Os professores ensinavam outras coisas, coisas que ele gostava mais e que percebia melhor.

E nesta escola tinha conhecido a Rosarito.

“A Rosarito também vem?” perguntou à mãe.

“A Rosarito deve ir com os pais dela, amor.”

Ficou a pensar nela. Gostava muito da Rosarito. Ia comprar um caderno também para ela, cor-de-rosa como os vestidos que ela mais adorava. E uma bola! Será que a mãe lhe comprava uma bola para ele jogar com os outros meninos?

Sentiu uns olhos nele. Havia um menino a observá-lo, agarrado à perna do pai. Muito sério. E também curioso, talvez. Ele olhou também para o menino e aproximou-se. O menino escondeu-se atrás do pai. O pai olhou para o Afonso e sorriu. Disse ao filho “queres brincar com este menino?” O filho não respondeu, não deixava de olhar para o Afonso escondido atrás da perna do pai.

“Vai brincar com o menino, filho, enquanto o pai vê as coisas para os manos” mas o menino não se mexeu.

A mãe do Afonso chegou, deu-lhe a mão e puxou-o para o lado dela. “Ai, Afonso, pensei que estavas perdido outra vez!” E para o senhor: “Obrigada. Às vezes os pais não entendem e os meninos são cruéis… ou, neste caso, ficam com medo porque não conhecem…” desabafou. Olhou para o menino escondido atrás do pai e encheu-se de mágoa.

O senhor sorriu-lhe “não, não, nada disso! A irmã mais velha dele também tem Trissomia 21. É muito especial e eles dão-se muito bem. Ele é que… pronto, é tímido com quem não conhece. É sempre assim, com todos. Há-de mudar, mais tarde” e encolheu os ombros.

A mãe surpreendeu-se. Olhou para o menino, que agora tinha desviado a atenção do Afonso e olhava para ela, com curiosidade e espanto. A mãe do Afonso sorriu. O coração acalmou. Sentiu, até, que algo nela mudava. Sentiu-se estúpida ao dar um preconceito a quem não o tinha. Sentiu-se, ela própria, preconceituosa. Teve vergonha.

O pai do menino compreendeu e leu-lhe o pensamento: “é normal assumirmos isso, temos sempre medo pelos nossos filhos, principalmente pelos mais frágeis.” Ela confirmou. Despediu-se com um agradecimento nos olhos e com o coração cheio.

E o Afonso continuou à procura do melhor caderno para oferecer à Rosarito.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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