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A voz de João Aguiar (e dos Deuses)

Pela primeira vez trago-vos, caros leitores sombra, um livro que não é actual. Pelo menos, no que diz respeito ao seu ano de edição. A minha escolha sustenta-se em dois factores: na qualidade da obra e no tributo que, pessoalmente, me sinto na obrigação de fazer a um dos autores nacionais que mais li, durante o meu percurso académico.

A Voz dos Deuses é a primeira obra do conhecido e afamado autor português, João Aguiar. Iniciada em 1982 e publicada 2 anos mais tarde, este livro é não só um valioso documento histórico, como também uma celebração a Viriato, ilustre líder lusitano no combate contra os romanos.

João Casimiro Namorado de Aguiar – nascido em Lisboa a 28 de Outubro de 1943 – licenciou-se em Jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas. É relevante salientar que, em várias entrevistas que deu ao longo do tempo, o autor revelou que teria provavelmente seguido a profissão de historiador, como alternativa à profissão que desempenhou nos primeiros anos da sua carreira. João Aguiar, falecido em 2010, foi um dos nomes da “nova vaga” da escrita portuguesa e tem parte da sua obra traduzida em Espanha, Itália, França, Alemanha e Bulgária. Entre as várias obras e colecções que escreveu, encontram-se A Hora de Sertório e O Trono do Altíssimo, dois romances cuja contextualização histórica é análoga à obra que aqui me proponho a dar a conhecer.

A obra conta-nos uma história narrada por Tongio, um antigo companheiro de Viriato, como forma de abranger as principais proezas deste último no combate que desenvolveu contra as tropas romanas, como forma de defender o território lusitano da opressão oriunda de Roma. Tongio inicia a narração com eventos contextualizantes da sua infância e de encadeamento familiar que se deram ainda antes do seu próprio nascimento e durante os seus primeiros anos de vida. Descobrindo as suas origens pela mão do seu tio Camalo, Tongio desde cedo ganha uma vontade inesperada por aprender as técnicas de combate necessárias para se tornar um guerreiro como o seu pai. A partir daí inicia-se uma jornada na qual Tongio vive as naturais aventuras da idade, os amores com Lobessa – uma escrava da família –, a aprendizagem de diversas línguas e a campanha para se tornar um guerreiro, na qual é incentivado por Camalo e treinado pelo seu leal servo, Beduno. Ao longo da sua juventude, Tongio fomenta uma relação imprevista com o seu tio, o que fez com que presenciar a morte de Camalo, numa emboscada romana, despoletasse o seu sentimento hostil perante o povo responsável. Desesperado, Tongio procura vingar Camalo, sabendo que ao fazê-lo terá que partir com a sua família para terras distantes. Consumada a vingança, assim o fez.

No entanto, são, talvez, as longas campanhas e batalhas de Viriato que prendem a atenção do leitor. Com ele, os lusitanos conseguiram inúmeras vitórias, na sua ausência, nunca mais lograram conquistar qualquer triunfo no campo de batalha. Tongio aproveitou assim os últimos anos da sua vida para conhecer outros países, cumprindo por fim o destino que lhe estava reservado. Esta é também uma das razões pelas quais o título da obra é A Voz dos Deuses, precisamente porque o destino final de Tongio é a divindade, tal como este tinha vislumbrado na sua visão, aquando do episódio do Oráculo. Nessa altura, foi-lhe explicado pelo sacerdote responsável pelo templo, que ele viria a encontrar-se com o deus Endovélico num futuro distante. Outra das razões que provavelmente terá originado o nome do livro, consiste no facto de todas as suas personagens serem fiéis devotos às várias figuras divinas, tendo estas um rol preponderante nos seus quotidianos.

No que diz respeito à estrutura do livro, este divide-se em cinco partes – servindo a primeira e última de Prólogo e Epílogo, respectivamente – entre as quais se encontram intercalados os 3 capítulos que compõem a acção principal da obra. Assim, o primeiro capítulo designa-se por O Oráculo, o segundo intitula-se A Insígnia do Touro e, por fim, o terceiro denomina-se Endovélico.

João Aguiar emprega ao longo de toda a obra um estilo de linguagem contemporâneo, com vocábulos simples e acessíveis a todos, um estilo que lhe é característico, pois confessa não gostar “de aborrecer o leitor”. Apesar disso, apresenta nesta obra alguns termos que ajudam o leitor a transportar-se para a altura histórica em que a acção se desenrola, utilizando como exemplos os nomes que eram dados às diversas referências geográficas neste contexto histórico. Porém, se, por um lado, a utilização destes pontos de referência ao longo da obra são um ponto positivo para o enquadramento com a narrativa, por outro, a forma como tal é executado deixa no leitor uma sistemática dúvida que nem sempre é extinta com a consulta do mapa que está anexado na obra. É que, durante as viagens de Tongio, João Aguiar falha muitas vezes em conseguir incutir no leitor um real sentido de aproximação – ou distância – entre as várias localizações, muito devido a uma falta de descrição referente às viagens. Ademais, existe ainda, uma falsa noção temporal, pois o leitor nem sempre fica com a ideia dos longos caminhos e morosos tempos necessários para a realização das viagens.

Contudo, é importante realçar que a obra apresenta um bom retrato social da altura então vivida, no sentido em que descreve eficazmente os hábitos sociais das populações da época. Não é de mais acrescentar que esta obra dá um excelente contributo histórico acerca da personalidade de Viriato, que até ao momento tem sido escassamente retratada na literatura portuguesa. Escassa é também a informação fidedigna acerca de como terá sido realmente a vida de Viriato, como é exemplo o desconhecimento sobre o seu local e data de nascimento, assim como da sua família. Pelo que se sabe, Viriato terá sido um pastor na sua juventude – um pouco à imagem de como é descrito em Os Lusíadas –, facto esse que na obra foi completamente descurado. João Aguiar opta antes por apresentar um Viriato à imagem de um verdadeiro general e de um político hábil. Para além disso, terá sido o primeiro homem a chefiar um corpo de tropas formadas por gente oriunda de várias tribos naquela que foi a primeira resistência organizada contra o império romano. Em suma, João Aguiar renega qualquer outra perspectiva que não seja a de um Viriato escrupulosamente justo. Para além de Viriato, o autor incluiu na obra outras personalidades que constam nos relatos históricos, como são exemplos os casos de Cúrio e Apuleio e, eventualmente, de Táutalo, acrescentando ainda várias outras personagens fictícias.

A Voz dos Deuses tem o mérito de nos conseguir entregar uma cativante história alicerçada numa época histórica pouco explorada pela literatura portuguesa. Aliando personalidades autênticas a personagens fictícias, a obra demonstra-nos a versão de João Aguiar do que terá sido a vida do chefe dos lusitanos, contada na perspectiva da personagem principal, Tongio. Desta forma, o livro torna-se não só num bom retrato de Viriato, mas também numa interessante forma de representar a intensa luta entre o povo da Lusitânia e o Império Romano. Posto isto, quem ganha é o leitor que aqui tem acesso a uma aventura que ganha tanto pelo carácter documentativo, como pelo entretenimento que esta lhe fornece num dinamismo louvável.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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