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A vida que ninguém vê

Entrou e sentou-se. Todos estavam ainda a falar, a conviver. Tinham nos olhos um medo e uma insegurança gigantes, e no sorriso o alívio de quem sabe que não está sozinho no mundo. Falavam de trivialidades que a ele não lhe interessavam. Por isso, assim que chegou sentou-se à espera que todos acalmassem e que a reunião começasse.

Pensou que não queria estar ali, mas que precisava. Pensou que era superior a todos dali, mas sabia que era mentira. Pensou nos filhos que não via há alguns anos e no dinheiro que tinha deixado de cair na conta do banco; pensou nos poucos telefonemas que chegavam para trabalhar naquilo que sempre tinha feito e que sempre o tinham elogiado. Nada mais vinha, tudo lhe tinha sido tirado. Não, não era assim. Ele não queria admitir, mas sabia que ele é que tinha perdido tudo.

Não ouviu as primeiras palavras. Só voltou a si quando ouviu “Olá, Pedro!” em coro.

Observou o rapaz que contava as suas experiências, ouviu-as, mas não conseguiu empatizar. Ou pensou que não; na realidade, talvez não quisesse ou tivesse medo. Temeu ainda não estar preparado, tentou mascarar-se na raiva e no ridículo que achava tudo aquilo. Até acalmar. Teve de se lembrar dos filhos e acalmar-se, sentir-se humilde, olhar verdadeiramente para a pessoa que partilhava uma experiência dolorosa sobre o seu vício em álcool.

Álcool.

Quase que sentia o sabor do whisky nos lábios, passou a língua mas só lhe soube ao suor, aos nervos, ao calor. Tentou odiar o whisky, tentou rejeitar a vontade que sentia de beber um copo. Não bebia há três dias, e parecia cada vez pior. Álcool. Whisky. Álcool, que a ele lhe tinha tirado tudo – não, mentira; o álcool, que ele tinha permitido que o controlasse e que o ajudou a perder tudo.

Todos aplaudiram. Ele imitou, apercebendo-se que tinha perdido uma parte da história. Uma senhora bonita, talvez com os seus cinquenta anos, levantou-se.

“O meu nome é Teresa, e sou alcoólica”, olhou a todos nos olhos.

Ouviu o coro e ouviu mais uma história. Talvez fosse a vez dele partilhar. Partilhar não seria fácil, mas talvez tornasse tudo mais real, natural, humano. Não hoje, mas da próxima vez. Sim, teria de voltar mais uma vez, quantas fossem preciso para ter os filhos de novo na sua vida.

Ao sair, o telefone tocou. Um trabalho, menos mal. Concordou. Olhou para o relógio: duas da tarde de Sábado. Tinha tido sorte, o colega não tinha conseguido ir e alguém se lembrara dele. Foi o mais rápido que pôde até casa e tomou um duche de água fria para afastar os pensamentos mais negros – tinha de esquecer o sabor do whisky, a dormência confortável da bebedeira, não podia pensar em matar-se nem em desistir. Vestiu o fato com alguma dificuldade e sentou-se em frente ao espelho. Pintou a cara de branco. Pintou os olhos e os lábios de forma colorida, as bochechas com bolas cor-de-rosa, e colocou o nariz grande vermelho. Olhou tristemente para ele próprio. Ajeitou o cabelo para conseguir pôr a peruca e o chapéu brilhante, e ensaiou uma cara alegre e entusiasmada no espelho.

O palhaço Pipoquinha estava pronto para ir trabalhar.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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