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A vida de Amelia Earhart

Assinala-se a 24 de Julho o nascimento de Amelia Earhart, norte-americana, pioneira na aviação, galardoada com inúmeros prémios e condecorações pelos seus feitos, numa época em que os céus estavam reservados para muito poucos e, sobretudo, para o sexo masculino.

Amélia Mary Earhart (1897- c. 1937) nasceu em Atchison, no estado do Kansas, em casa do avô materno, um ilustre cidadão americano, juiz e presidente de um banco. Era filha de Samuel Staton Earhart (1868-1930) e Amélia Otis Earhart (1869-1962). Em 1909, os pais mudam-se por razões profissionais para Des Moines, a capital do estado de Iowa, com Amelia e sua irmã Grace. Nos anos seguintes, o casal mudar-se-ia outras vezes: St. Paul (Minnesota), Springfield (Missouri) e finalmente Chicago, onde Amelia termina a escola secundária, em 1916. No ano seguinte, visita a irmã em Toronto (Ontário) torna-se enfermeira da Cruz Vermelha, ainda durante a guerra.

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Em 1920, na companhia do pai e em visita a um trem de aterragem, Amelia tem a sua primeira experiência de voo, que durou dez minutos, percebendo que era essa a sua profissão de sonho. Consegue juntar, então, dinheiro, exercendo diversas actividades, desde fotografa a estenógrafa, para pagar cerca de mil dólares em lições de voo. Assim, a 3 de Janeiro de 1921, em Kinner Field, perto de Long Beach iniciou as suas lições de voo. A sua professora foi Anita Snook (1896-1991), outra pioneira da aviação.

Seis meses depois, comprou um biplano Kinner em segunda mão. Em Outubro de 1922, atinge uma altitude de 14 mil pés, batendo o recorde mundial para aviadoras. No ano seguinte, torna-se a décima sexta mulher a obter a licença de voo da Fédération Aéronautique Internationale.

Entre 1924 e 1925, afastou-se da aviação. O divórcio dos seus pais, motivado em parte pelo alcoolismo do pai, os maus investimentos financeiros familiares e problemas de saúde, relacionados com as sequelas da pneumónica que contraíra, durante os tempos em que fora enfermeira, foram alguns dos principais motivos deste afastamento. Todavia, manteve sempre viva a ligação à aviação, tornando-se membro da American Aeronautical Society de Boston, da qual foi vice-presidente.

Em 1928, é contactada pela milionária Amy Phipps Guest (1873-1959), para atravessar o oceano Atlântico, na sequência da travessia efectuada por Charles Lindbergh (1902-1974), um ano antes. Amy pretendia ser ela própria a fazê-lo, mas considerava a viagem demasiado arriscada. Assim, juntamente com o piloto Wilmer Stultz (1900-1929) e do co-piloto Louis Gordon, Amélia parte de Trepassey Harbor, na Terra Nova, a 17 de Junho de 1928, aterrando em Burry Port, perto de Llanelli, País de Gales, 20 horas e 40 minutos depois. O regresso aos Estados Unidos da América trouxe-lhe a fama, através de uma intensa campanha de promoção da sua imagem, da publicação de livros, de palestras e da utilização da sua imagem em diversos produtos, desde cigarros a roupas.

A 20 de Maio de 1932, estabeleceu outro recorde. Partindo de Harbour Grace, Terra Nova, com destino a Paris, acaba por aterrar, após quase quinze horas de voo em Culmore, na Irlanda do Norte. Tornava-se, assim, a primeira mulher a efectuar um voo solo sem escalas pelo Atlântico. Recebe a Distinguished Flying Cross do Governo Americano, a Croix de Chevalier da Légion d’honneur francesa e a Medalha de Ouro da National Geographic Society. É neste período que conhece Eleanor Roosevelt, (1884-1962), primeira-dama dos EUA entre 1933-1962. Conta-se que num banquete oficial oferecido pelo casal presidencial, em Abril de 1933, Amelia e Eleonor passaram-no a conversa. No final da noite, Amélia ter-se-ia oferecido para levar Eleanor num voo privado naquela mesma noite, ao que a primeira-dama anuiu. Saindo ambas da Casa Branca ainda em vestidos de noite, partiram de Washington para Baltimore.

Amelia e Eleanor Roosevelt
Amelia e Eleanor Roosevelt

Nos anos seguintes, Amelia procurou ser a pioneira de voos solo feminino: Honolulu (Hawai) a Oakland (Califórnia); Los Angeles à Cidade do México e Cidade do México- Nova Iorque.

Em 1936, recebe um novo avião, financiado pela Purdue University, destinado para uma viagem em redor do globo. Como seu co-piloto, foi escolhido Fred Noonan. A 17 de Março de 1937, efectuaram a primeira parte do voo, de Oakland, Califórnia até Honolulu, Hawai. Todavia e apesar de três dias de manutenção, o avião sofre um pequeno acidente na nova descolagem. O voo foi cancelado.

Enquanto o avião era reparado, Amelia decide uma segunda tentativa de voo, de Oakland para Miami, Florida, e daí em redor do globo. Acompanhada novamente por Fred Noonan (1893-1937), seguiram de Miami para a América do Sul, África, Índia e Sudoeste de Junho. Após 29 dias de voo, chegaram a Lae, Nova Guiné, com 22 mil milhas (35 mil km) percorridas, restando apenas sete mil milhas (11 mil km) sobre o Pacífico.

Partindo de Lae a 2 de Julho e com destino à Ilha de Howland, o avião foi dado como desaparecido pouco tempo depois. A última posição conhecida do avião foi próximo às Ilhas Nukumanu, 1300 km distantes de Lae. Apesar das buscas efectuadas nas horas e dias seguintes, naquelas que ficaram conhecidas como as buscas mais demoradas e dispendiosas da História dos Estados Unidos da América, os destroços do avião e dos corpos nunca foram encontrados, sendo declarada oficialmente morta em 1939.

Durante anos, muito se especulou sobre o que teria acontecido a Amelia. Todavia, recentemente foram descobertos no atol de Nikumaroro, a 300 milhas da ilha de Howland, alguns artefactos que indiciam a presença humana, nomeadamente um sapato de mulher, uma garrafa vazia, restos de maquilhagem e alguns instrumentos. A sustentar esta teoria, está o facto de, em 1940, um oficial do Serviço Colonial Britânico, Gerald Gallagher, ter recolhido um esqueleto parcial do que se pensou ser um náufrago, em Nikumaroro. Estes vestígios encontram-se actualmente desaparecidos e dos que foram recentemente recolhidos não se consegue retirar nenhum dado de ADN que permita a sua identificação. Se a sua morte continua envolta em mistério, não há dúvidas da sua dedicação e paixão à aviação.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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