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CulturaMúsica

A Vida Atrás do Pano

Chegamos a um teatro como o São Carlos e aquilo que vemos é apenas a beleza e a exuberância dos tempos dos reis, de tempos idos. Folha de ouro por toda a parte, bustos, portas envidraçadas, homens e mulheres que se prostram para o nosso conforto, enquanto assistimos a um espetáculo. Tudo o que fazemos é sentarmo-nos nos nossos lugares e esperarmos que o pano abra. Enchemos a sala de aplausos e bravo, suspiros de paixão e dor e sorrisos de maravilhas musicais, mas nunca vemos o que está lá para trás, o que é que dá vida a tudo aquilo que vemos no palco.

É em Junho que se pensa no que fazer em Setembro, em Outubro já se pensa em Janeiro e em Março em Junho. O dia-a-dia de quem trabalha para o espetáculo não pára. O arquivo musical num corrupio de partituras por preparar, pastas para fazer e outras tantas para distribuir. A grande maioria das partituras está já no arquivo, é património do Teatro, o que se faz é tirar cópias para os músicos poderem estudar em casa e pôr em pastas as originais para seguirem para o palco. Quando há alguma obra em falta, é alugada a editoras que têm parcerias com o Teatro e o procedimento é o mesmo, claro, que no final das produções operísticas e concertos e depois de arrumadas as pastas, as partituras voltam todas para os seus devidos lugares. Graças à equipa que trabalha no arquivo e na assistência ao Coro e à Orquestra, tudo parece ter acontecido por magia.

Ensaios de manhã e à tarde, Coro lá no alto, Orquestra no salão. Todos fechados e há silêncio nos corredores, intervalos e horas de almoço, fofocas aqui e ali, cumprimentos, mimos e solfejos. Misturam-se os dois grandes grupos musicais, juntam-se os operários, maquinistas, costureiras, cabeleireiras e maquilhadoras, aderecistas e electricistas. Tudo para que o público possa disfrutar da mais bela produção. Sabe-se que, por exemplo, uma cabeleireira faz o que hoje em dia se acha normal, arranjar cabelos e preparar as senhoras, mas as cabeleireiras do São Carlos muitas vezes dão por si a pentear cabeleiras de séculos passados, a preparar novas cabeleiras e a transmitirem entre si conhecimentos de novas cabeleiras para inventar. Por seu turno, os cantores e músicos, contrariamente ao que se pensa, não têm na música só o seu hobby, é, sobretudo, a sua profissão, cada nota que fazem soar e cada palavra que sai pelas suas vozes é trabalho, é esforço e vontade de viver da música e para a música e mostrar a todos o que sentem através das melodias e harmonias que fazem.

No palco, aparecem todos de bom humor, bem vestidos e de sorriso na cara, mas não fazem ideia do cansaço que eles sentem, que aquele músico é hippie, o outro usa cabelo comprido, aquela senhora está sempre de mau humor. Que todos têm dias menos bons.

Dar música ao público é dar-se a si mesmo ao público, são as horas de vocalizos, de estudo e de ensaios conjuntos. São os desatinos com os maestros, as alegrias e as fúrias. Uma partitura que caiu, um laço que falta e a casaca onde está? Vestidos, maquilhagem, cabelos, Divas ao palco! “Por favor divas ao palco…” ouve-se por todo o edifício.

Nem sempre é fácil mostrar o amor incondicional à música e àquilo que se faz, mas lá estão eles todos os dias, a fazer o que mais gostam e mais querem. A curarem os maus humores, a sorrirem mais um pouco, a massajarem os corações. No entanto, tenha-se cuidado com as vedetas!

Nem tudo é um mar de rosas, há os espinhos, os ódios e as rivalidades. Há a competitividade ao mais alto nível e as amizades para a vida inteira. Como referi, a competitividade é imensa e onde se respira música e alegria, também se sente os olhares de inveja, porque nem todas as vozes são iguais e porque nem todos são virtuosos de igual maneira. As fofocas, quando não são ditas em voz alta, são sussurradas e correm mais depressa que os elogios e as notícias boas. No entanto, também há as fofocas boas: “já sabes quem vem cá fazer a próxima ópera”, ou “contaram-me o que vamos fazer na próxima temporada, vai ser tão boa”. Claro, aquelas fofocas dignas de revistas cor-de-rosa, que são as que qualquer ser humano mais gosta. “Aquele é que é o teu namorado? Eu vi-vos a dar um abraço e a falarem muito íntimos”, ou “aqueles foram viver juntos”, ou ainda “aquele separou-se para ficar com a outra!”

Atrás do pano tudo é possível, atrás do pano caem as máscaras de profissionais robóticos da música e vêem-se os humanos que dão corpo, voz e movimento a tudo o que o público vê. Porque eles são mais que nomes num programa de sala, porque eles são mais do que aqueles que vos entretêm, são, também, aqueles que compõem o País das Maravilhas Musicais, no outro lado do pano.

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Inês Faro

Estudante de Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade. Vivo para a música e grande parte dos meus interesses está nessa arte, nesse mundo tão vasto e com tanto ainda por descobrir.

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