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A Viagem Turbulenta de Agents of S.H.I.E.L.D

Íamos no início de Maio, Captain America – The Winter Soldier estreava nas salas de cinema e o mundo dos Agentes da S.H.I.E.L.D. ficou completamente irreconhecível, com a organização a que pertenciam, a S.H.I.E.L.D (the Strategic Homeland Intervention Enforcement and Logistics Division), deixou de existir de um momento para o outro. É desta incerteza que nasce um caminho verdadeiramente interessante para a série conhecida como Agents of S.H.I.E.L.D., que deixa, de um momento para o outro, de ser os “Agentes do Nada”, como Skye os apelidou, e passa a ser aquilo que o Agente Phil Coulson declarou veemente: “Nós somos os Agentes da S.H.I.E.L.D. e, depois de tudo pelo que passámos, isso tem de significar algo. Isso carrega algum peso.”

Durante meses, no entanto, o grande peso de Agents of S.H.I.E.L.D. foi o facto da equipa e da série não terem a capacidade de sustentar uma linha dramática. As expectativas, aquando da estreia, estavam elevadas, já que, depois da criação de um universo cinematográfico bem sucedido, a expansão do imaginário Marvel para a televisão acarretava uma responsabilidade que poucas séries estreantes têm. Com um episódio-piloto escrito e dirigido por Joss Whedon (a mente brilhante responsável pela bem sucedida Buffy, na televisão, e o extraordinário The Avengers), a série parecia destinada a replicar o sucesso que a Marvel havia conquistado na sétima arte. Contrariamente ao que o primeiro episódio prometia, a partir do segundo episódio, esta aparentava ser o primo pobre de todos os filmes estreados até então, sem brilho, com efeitos especiais que de especiais nada tinham, personagens unidimensionais (e, em alguns casos, interpretadas por actores unidimensionais) e sem demonstrar qualquer capacidade de entretenimento. Porém, à boa maneira dos comics, quando tudo parecia estar perdido e a um mês de terminar a sua temporada de estreia, a série conseguiu descobrir o seu caminho.

Em nome da boa verdade, Agents of S.H.I.E.L.D. teve, desde o início, as probabilidades contra si, uma vez que se tratava de uma série sobre super-seres, mas que não tinha como protagonistas personagens com poderes. Ao qual se deve juntar o facto de que toda a história se desenvolve no mesmo universo que os filmes e de personagens como ThorCapitão América e Homem de Ferro, o que levou a um problema relacionado com a criação de uma narrativa que apelasse aos fãs da Marvel e obrigou ao desenvolvimento de uma hierarquia de importância: as grandes ameaças à humanidade teriam de ser resolvidas pelos Vingadores, enquanto os perigos ligeiramente menos urgentes seriam tratados por um, ou dois membros da equipa nos seus filmes a solo, sendo que os despojos destes inimigos todos seriam da responsabilidade dos mortais sem poderes de Agents of S.H.I.E.L.D. Como consequência, as repercussões das missões desta equipa nunca poderiam ser muito elevadas, porque, caso fossem, estas seriam feitas por um super-herói. Apesar destas constatações, os produtores da série comportavam-se como se estivessem no mesmo patamar dos filmes e tentarem recriar cenas de acção ao mesmo nível de um blockbuster de Verão, mas com um orçamento de televisão. Com esta postura, os episódios acabaram por ser compostos por sequências demasiado ambiciosas, acompanhadas por efeitos especiais pouco abonatórios.

No que toca ao casting, o que outrora foi um dos fortes de Joss Whedon, acabou por se transformar no calcanhar de Aquiles da série. Com a excepção de Fitz e de Simmons, a equipa sofria de uma crónica de falta de química. Por exemplo, o Agente Coulson, ressuscitado após a sua morte em The Avengers e posto a liderar a equipa, não demonstrava o charme e o carisma pelo qual era reconhecido, e Melinda May conseguia apresentar a mesma expressão facial independentemente da situação em que se encontrava. Se as personagens de Agents of S.H.I.E.L.D. não podiam ser as mais impactantes que compõem o universo Marvel, então, as suas personalidades têm de ser maiores e mais cativantes do que as situações que vivem.

O resultado de todas estas situações levou a que a série não tivesse noção do que pretendia ser, ou que tipo de personagens deveria construir. O grande enigma da série (como Coulson foi ressuscitado) começou a perder, gradualmente, o interesse e os arcos narrativos que envolviam vilões como o The Clairvoyant não conseguiam tornar-se interessantes. Os produtores tentaram criar uma relação amorosa entre Skye e o Agente Grant Ward, apesar de não haver qualquer química entre os dois actores. Os responsáveis afirmavam estar a resolver todos os problemas criados, mas as melhorias tardavam em se fazer notar, principalmente se fosse feita uma comparação com Arrow, que todas as semanas ensinava a quem a visse como é que uma série inspirada em banda desenhada deve ser feita. Todos os desenvolvimentos estão centrados nas personagens, as cenas de acção são hipnotizantes, as consequências têm reais repercussões no universo criado e a série nunca aparenta fazer algo que não consegue executar devidamente. Quando chega à altura de colocar as duas séries numa balança, Agents of S.H.I.E.L.D. não fica em boa posição.

A viver estas situações todas, chega um momento na vida em que temos de deitar pela janela tudo o que havia sido feito até então e recomeçar do zero. Foi o que aconteceu em Abril, quando a série foi forçada a iniciar um novo caminho, graças aos acontecimentos ocorridos em Captain America: The Winter Soldier. O filme revelou que a S.H.I.E.L.D. havia sido infiltrada, quase na sua totalidade, pela organização nazi HYDRA, que se pensava extinta, após a Segunda Guerra Mundial. Com o fim do segundo filme do Capitão América, a organização de defesa mundial havia sido dissolvida e o destino dos agentes “bons” manteve-se numa incógnita. Uma semana depois, Agents of S.H.I.E.L.D., que fazem parte deste mesmo universo, não teve alternativa a não ser lidar com o novo paradigma que havia sido estabelecido e delinear um novo caminho para a si.

O resultado destas alterações foi reflectido em “Turn, Turn, Turn“, o melhor episódio de toda a temporada, porque, pela primeira vez, foram criadas situações de genuína tensão e as repercussões podiam ser verdadeiramente avassaladoras. A S.H.I.E.L.D. era agora considerada uma organização terrorista e ninguém sabia em quem é que poderia confiar. O melhor amigo de Coulson, John Garrett, revela ser o The Clairvoyant e Ward é descoberto como sendo um agente infiltrado da HYDRA. Os episódios seguintes demonstraram que os produtores estavam, aos poucos, a sair do seu marasmo criativo e, à medida que se iam adaptando ao seu novo status quo, Skye, May e Coulson foram-se tornando em personagens que mereciam a preocupação do espectador. Um caminho que levou ao refrescante episódio “Ragtag“, onde a série abraçou um registo que deveria ter tido desde o início: acompanhar um grupo de agentes que aceita fazer as tarefas que ninguém quer (incluindo os super-heróis), sem grande supervisão superior e com poucos recursos disponíveis. Despidos das habituais mordomias que tinham no seu avião, a equipa teve de se encontrar num hotel para poderem criar o seu plano de ataque, recorrendo a um gráfico desenhado à mão, e embarcar numa missão em que foi possível acompanhar May e Coulson a descontraírem, depois de terem passado grande parte da temporada num registo demasiado sério, e a terem momentos divertidos. Foi um episódio hipnotizante e, pela primeira vez, parecia que se estava a assistir a uma série que merecia ter a chancela Marvel.

O episódio final, “The Beginning of the End“, continuou a mesma linha desenvolvida nos anteriores episódios, em que as cenas mais marcantes envolveram os diálogos ácidos e o combate electrificante entre os ex-amantes May e Ward e entre os ex-amigos Coulson e Garrett, deixando os momentos de impacto emocional para Fitz e Simmons, que tentavam libertar-se da sua prisão no fundo do mar. Contudo, o momento mais notável do episódio foi a excelente forma com que os produtores usaram a aparição especial do director da S.H.I.E.L.D.Nick Fury, que anteriormente havia aparecido apenas para dar uma reprimenda a Coulson por ter destruído o seu primeiro avião. Desta vez, havia um motivo pertinente para a presença de Fury e ainda conseguiram dar-lhe falas bem construídas. No fim, os produtores não cederam à tentação de permitir que Ward tivesse o seu momento de redenção e corrigisse os erros que tinha cometido, condenaram-no a uma prisão e permitiram que a equipa perdesse o seu elo mais fraco no que toca a representação e desenvolvimento de personagens.

Ao mesmo tempo que soube construir algumas linhas narrativas para a temporada seguinte (o pai de Skye, que a abandonou em criança e que se pensava estar morto, está vivo e aparentemente com uns problemas genéticos e o organismo alienígena que está dentro de Coulson, que, aparentemente, começou a alterar a sua personalidade), o último episódio conseguiu responder a uma das perguntas mais importantes que existia desde a sua estreia: No que se tornaria Agents of S.H.I.E.L.D. sem a presença da S.H.I.E.L.D.? Pelos vistos isso não será um problema, já que Nick Fury, depois de ter fingido a sua morte em Captain America: The Winter Soldier, decide afastar-se um pouco do centro das atenções e nomeia Coulson o novo director da S.H.I.E.L.D., estando responsável pela reconstrução da agência. Só espero que na segunda temporada, Agents of S.H.I.E.L.D. seja capaz de seguir o conselho que Fury dá ao seu novo director: “Leva o tempo que precisares, mas faz tudo bem…”

As Crónicas de um Viciado em Séries vai a mergulhos por umas semanas e está de volta a 2 de Setembro, para uma nova temporada de análise das minhas séries favoritas. Até lá.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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