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A Verdadeira Tragédia do Meco

A tragédia aconteceu no Meco. Sim, de facto. Foi lamentável. Mas, a verdadeira tragédia, aquela de que padecem os nossos filhos, passa-se todos os dias nas Universidades por este país fora. São verdadeiramente impressionantes os rios de tinta que se escreveram e que, ainda se escrevem sobre a tragédia das praxes no Meco. Quanto a este facto só tenho a dizer que, há 15 anos as praxes não eram o que são hoje, nem teria qualquer cabimento serem. Não existiam nomes de código, nem reuniões secretas, nem projectos mirabolantes em cadernos de percursos secretos, ou actividades que se fossem fazer, muito menos fora de portas, nem maus-tratos premeditados a alunos. Tudo era feito num espírito completamente distinto, espontâneo, capaz de tornar até incompreensível o que tem sido relatado nas notícias, que estes jovens perpetram todos os anos uns contra os outros. Não era permitido este tipo de “funcionamento” da praxe e muito menos seria tolerado qualquer abuso a outros seres humanos. A praxe há 15 anos era gerida de boa fé e não era mais que estar com outros seres humanos, resumindo-se em alegre convívio à volta de uns canecos. Pois, mas parece que já não é assim. Costuma-se dizer que os jovens e as crianças são o espelho da sociedade que temos. Pois, que estes jovens espelham uma sociedade doente, medíocre nos seus valores, deseducada, demasiado mimada e plena de interesses egoístas e hierárquicos, que, para quem já se amadurou na vida, não fazem qualquer sentido.

No entanto, uma coisa é certa, todo o mediatismo dado às praxes relevou para o obscurantismo questões importantíssimas do mundo académico e problemas gravíssimos, com que se depara a massa estudantil e investigadora universitária deste país. Muitas vezes, muitas mais do que aquelas que desejamos ter consciência, os Meios de Comunicação Social desempenham um papel mercantil de venda de produtos. Alguns não são mais que lixo, que nos impedem de ver as verdadeiras questões importantes da actualidade, e a praxe vendeu e vendeu bem. E continuará a vender. Tal qual os Big Brothers.

Esta crónica não pretende agradar a Gregos e a Troianos, é universal que nunca se consegue agradar a todos. Respeito os estudantes anti-praxe, como respeitarei a praxe, se o conceito reflectir boas acções e espontaneamente ajudar os estudantes, enquanto seres humanos, a respeitar, na sua individualidade e liberdade, de dizer não. No entanto, creio ser de elevada importância pôr-vos a par dos problemas graves e reais da actualidade académica e, por consequência, científica, que não aparecem nas notícias, porque não convém que se saiba.

A história já vem de longe. Este e outros governos (o que não desculpa nem uns, nem outros) têm tido constantemente uma atitude de arrogância sem limites perante os Investigadores, Professores e todos os que estão ligados ao ensino e à investigação. Desde Mariano Gago, dado que, a meu ver, este foi o último Ministro, que lutou a bem da comunidade escolar, da científica e da académica, nenhum outro Ministro mais defendeu uma escolaridade gratuita e de qualidade e uma escola pública universitária de excelência. Todos os Ministros da Ciência e da Educação, a partir de Mariano Gago, têm consecutivamente destruído mais e mais estas duas áreas tão importantes para o crescimento e desenvolvimento de um país.

Há uns anos, o anterior governo procedeu com a alteração da Gramática da Língua Portuguesa, através dos técnicos do Ministério da Educação e não de Linguistas ou, Gramáticos, obrigando os Professores a ensinarem erros crassos. Este facto espelha-se em todas as camadas sociais e atrasa-nos enquanto país, pois não existe um único aluno do secundário que consiga compreender esta gramática, que querem que os professores ensinem e que está cientificamente errada. A alteração da expressão escrita da língua por decreto, como se isto fosse possível, e mais uma vez a qualidade do nosso património linguístico foi destruída. Essa mesma qualidade, que tanto trabalho deu a João de Barros, Lindley Cintra, Celso Cunha e Carlos Reis, entre tantos outros estudiosos da língua, a sistematizar. A coesão e a história da língua perderam-se no fio da meada política.

O facto de não existir uma Academia Portuguesa das Letras e o facto de ninguém ter trabalhado para que se criasse uma deu no caos linguístico, em que hoje se vive diariamente. O facto da Academia das Ciências não ter qualquer peso nas decisões governamentais, destrutivas da língua por parte do Governo (deste e dos anteriores).

Cortes financeiros sucessivos na Investigação Científica, ao ponto de Universidades e Institutos terem de se fundir para que possam manter as portas abertas. Ao ponto dos investigadores para se manterem terem de recorrer a fundos quase exclusivamente Europeus.

Certificação de formações profissionais da tanga, que para nada servem, somente para encaixe de fundos comunitários e não para a evolução de habilitações académicas daqueles que as frequentam. Desadequação dos cursos ao que é realmente necessário à prática da vida real das empresas, para produzir riqueza do mercado de trabalho para o país.

Quer queiramos ver, quer não. Bolonha foi e é um grande retrocesso. A qualidade científica dos cursos foi extremamente reduzida. A não ser que sejais defensores do facilitismo e não da excelência, não faz nenhum sentido. Daí que cursos como o de Medicina não tenham aderido a Bolonha. A falta de componente prática, com a condensação de Bolonha, e a falta de experimentação resulta em menor qualidade. Como é óbvio, se um curso, que durava 4, 5 ou 6 anos, passou a durar 3, não se aprende o mesmo. Isto deveria ser óbvio, mas muita gente gostou da ideia, apesar do atraso com que esta mudança contribuiu para o desenvolvimento e no factor concorrencial do país. Esta política de Bolonha é uma política de facilitismo, de produção em massa de licenciados, mestres e mesmo doutores, sem grande qualidade, devido à condensação dos cursos.

Muito se tem falado de praxes nas Universidades, mas no que nenhum jornalista falou foi das condições precárias das infraestruturas que as Universidades têm para o seu parco funcionamento. Chove em salas de aula, há falta de material para desenvolver experiências em laboratórios, pior, as Universidades não têm dinheiro nem para a fita-cola! Isto é verídico!

Há professores catedráticos que são regentes em 5 e 6 cadeiras. Porque outros professores catedráticos se reformaram e não colocaram novos. Os outros, que já lá estão e a ganhar o mesmo que dêem 6 e amanhem-se, isto é mesmo assim neste momento! Imagine-se num mês de Frequências/Exames corrigir-se 600 exames, alguém se acha capaz? Sem limite de palavras por resposta, por aluno. Pois, é o que está a acontecer neste preciso momento. Fazendo suportar aos professores universitários uma situação humanamente insuportável de escravatura do trabalho, que não deverão aguentar por muito tempo.

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Os bolseiros deste país têm muitas vezes de pôr dinheiro do próprio bolso, ficando sem nada, para sequer conseguirem deslocar-se até às formações, para pagar essas mesmas formações e quaisquer outros custos com a investigação, porque tudo é pago contra-recibo e não segundo o orçamento, que se faz sempre com os custos reais. Já soube de histórias de bolseiros com a renda de casa em atraso, porque o Estado lhes deve dinheiro. Além disso, os mestrandos e doutorandos estão a dar aulas nas universidades à borla, porque a lei diz que assim deve ser. Isto é vergonhoso. Não é de todo o investimento de que se fala na televisão. Isto é exploração. Das lérias dos governantes está o inferno cheio.

Os bolseiros de doutoramento, por exemplo, recebem a bolsa de investigação de uma fundação (que não chega aos 1000 Euros) e, além disso, a fundação paga à faculdade as propinas de doutoramento, aproximadamente 2500 Euros por ano, destes uma parte seria o que os investigadores chamam de dinheiro de bancada. Esse dinheiro deveria servir para suportar os professores catedráticos, mas também uma parte dos custos da investigação dos bolseiros, pois os doutorandos não têm aulas durante os 4 anos de percurso académico, mas raramente (ou nunca) este dinheiro chega aos bolseiros, porque é usado para tapar os buracos financeiros das universidades. Sei de investigadores que todas as semanas se dirigem à secretaria solicitando este dinheiro justificadamente e que todas as semanas levam um redondo não para casa.

O último e mais recente retrocesso gravíssimo é a nova medida anunciada por este governo, que nos foi transmitido como investimento, mas é um brutal desinvestimento: a criação dos cursos rápidos em politécnicos. Francamente, estão a dar canudos a malta que nem o 12º conseguiu acabar em condições. Isto é não só descredibilizar os politécnicos como também enganar as pessoas, por ser impossível formar qualquer profissional académico-científico neste tempo de 2 anos anunciado.

Quanto a mim e a muita gente que pensa, felizmente, as notícias da tragédia das praxes do Meco e os programinhas de conversa sobre o assunto só tiveram um objectivo: a distracção de massas. Porém, a massa intelectual do país, a verdadeira, aquela que já cá anda há uns tempos a bater com a cabeça nas paredes, nem vê muita televisão e, quando vê, está atenta aos números de circo e aos galiformes, que constantemente nos assombram, para ver se nos distraem dos reais problemas do ensino e da investigação em Portugal. Entre outros.

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Filipa Mar

Neste sítio vindo do nada e do aqui constroem-se sonhos, distraem-se sensações mais fortes, dizem-se no som do búzio ao ouvido, as coisas jamais ditas por vós.

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