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A velhice no prato dos carapaus

No 1º andar morava uma senhora duma certa idade, desempoeirada e activa. A casa tinha sido vendida recentemente e foi num instante que ela se instalou. Mais tarde reparou-se que havia um homem que saía daquele piso e daquele apartamento. Não eram muito dados a conversas. Metidos na sua vida, faziam desfilar dias, um a um, sem nada digno de registo. Ele conduzia uma carrinha e só foi notado por uma noite ter chegado a desoras e ter feito barulho. Simples.

Um prédio grande é um autêntico organismo vivo. Funciona enquanto todos os órgãos estiverem em sintonia, enquanto houver comunicação e tudo se coordenar. As falhas levam ás doenças e um edifício também enferma. Uma noite a senhora estava deitada na escada, semi-inconsciente e numa postura delirante. Algo estava desregulado e não funcionava. De manhã já tudo estava normalizado. Teria sido uma indisposição, um eufemismo mal utilizado neste caso, como posteriormente se percebeu.

Num daqueles fins de semana prolongados, em que todos se ausentam e tratam das suas vidas, a velhota tocou-me à campainha. Com ela vinha um prato com carapaus, crus. Ela insistia que ia ter com a mãe e que o peixe seria assado na minha casa. Era notório que alguma peça estava desencaixada e fora do contexto. Que fazer? Consegui levá-la a casa e fazê-la prometer que não saía de lá antes da mãe chegar. Entretanto a cabeça andava a mil. Como a posso deixar sozinha? Ela era um perigo para os outros, mas sobretudo para si própria. Estas doenças são terríveis, tanto estabilizam como têm picos tão elevados que não as conseguimos acompanhar. Fiquei com uma cópia das chaves, que ela me entregou voluntariamente. “Leve que a mãe quando vai ao café demora-se. “Não consigo imaginar o que iria naquela cabeça.”

Passado um tempo relativo voltou a aparecer com o prato e, claro está, os carapaus. Depois de lhe dizer que a mãe ficava zangada se chegasse a casa e não a visse, acatou a ordem e foi-se. Telefonei à polícia. Existem circunstâncias que nos ultrapassam e aquela era uma delas. Para meu consolo essa instituição tinha iniciado, nessa mesma semana, um serviço social de acompanhamento de idosos que residiam sozinhos. Prontamente os agentes chegaram e fui com eles a casa da senhora. Uma confusão, tal como a sua pobre cabeça. Família? Marido? Num momento de lucidez explicou que o senhor já não morava lá, porque se queria aproveitar dela. Filhos? Netos? Não sabia dizer.

Viver assim não é fácil nem é para qualquer um. Estava bem, mas quem garantia que não voltava tudo ao mesmo? O que me assustava mais era o gaz e a facilidade com que podia ser assaltada. E voltou o prato dos carapaus, que já cheiravam mal, defuntos e viajados pelo prédio. Dos poucos vizinhos que não se tinham ausentado, estabeleceu-se uma escala para lhe “deitar” um olho. Eu estava a mudar de casa e não podia ficar com a senhora a tempo inteiro. A solidariedade ainda existe, numa margem pequena, é certo, mas funcionou naquele fim de semana. Descobri que a senhora tinha 6 netas e feliz ou infelizmente para ela, era bastante abastada.

A família veio buscá-la. Não sabiam dela ou não queriam saber. Não sei se foi o dinheiro a falar mais alto ou a relação sincera, o certo é que as netas a tratavam bem e telefonavam regularmente a dar notícias. Ela era uma pessoa muito independente, é verdade, mas precisamos sempre uns dos outros. A velhice é uma situação que ninguém gosta, mas que temos de enfrentar se quisermos viver muitos anos. Perdem-se faculdades, anos, elasticidade de pensamento, criam-se rugas e o ontem deixa de ser real, de tão longe que já se encontra.

E voltamos aos nossos velhos. Como os deixar viver com qualidade e sem os abandonar? A vida moderna não permite certas frescuras nem sentimentos tão profundos. Hoje não pode ser, nem amanhã, nem depois e o tempo cobre tudo e eles ficam esquecidos, quietos, mudos e parados no tempo. Aquela foi notada, fez-se de notada, sem saber e encontrou a sua solução, o lugar na família que era dela. E os outros, aqueles que não vemos e estão mesmo ao nosso lado? Que fazemos?

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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