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A última infância

Estavam ambos de costas por isso demorei a entender o quadro que se desenhava diante dos meus olhos. O que estava sentado recebia carícias do que estava em pé, carícias lentas, como se quisesse demorar-se em cada fio daquele cabelo cor de nuvem. Antes de dar por terminada a coreografia de ternura vergou-se em direcção à nuvem. Nesse instante pude ver-lhe o perfil, olhos cerrados, nariz pontiagudo e lábios proeminentes em forma de beijo. Findo o momento, e com vagares de quem conhece já a voracidade do tempo, ofereceu os braços para auxiliar o outro a levantar-se:

– Apoia-te em mim pai.

E ele apoiou-se. Inteiro.

Esta tela lembrou-me uma outra, radicalmente oposta e de cores desmaiadas pela poeira de aproximadamente 20 anos. Era criança quando visitei pela primeira vez um lar de idosos. Poderia ter sido qualquer outro, mas foi aquele e tenho pena. Chamava-se Casa de Repouso seguido de um nome de flor. A suavidade do letreiro não me preparou para o peso das vidas que lá descobri. Seres humanos a perder lentamente a forma humana, não pelo envelhecimento dos corpos, mas pelo amarrotado das almas. Dois pisos de uma casa remodelada e uma sala de estar em tons pastel, onde estranhamente não sabia bem-estar. Chegado o horário de visitas detive-me, expectante pelo inicio da grande encenação dos afectos com hora marcada.

A primeira aparição, literalmente, foi a de uma mulher amparada por uma muleta. Surpreendeu-me por não ser tão velha, isto é, não era mais velha do que algumas das pessoas que ali estavam na qualidade de visitantes. Soltava frases incoerentes enquanto erguia a muleta e a apontava aos demais. O desequilíbrio provocado pelos malabarismos ameaçava derrubá-la a todo o momento, isto perante a silenciosa indiferença do seu público improvisado. Rapidamente percebi que lhe habitavam outras vozes que não apenas a sua. Caminhava veloz e prematuramente para a última infância, essa que antecede o encontro com o grande segredo. Não tinha visitas, ninguém a tinha procurado desde que se instalou na casa de Repouso com nome de flor, mas aparecia sempre naquele horário na sala em tons de pastel. Queria um abraço. Repetiu vezes sem conta que queria um abraço, indiferente aos olhares ligeiramente reprovadores que a cercavam, bem como à tentativa malsucedida em contê-la por parte das funcionárias. Queria um abraço e, sem preparos, puxou-me contra o peito e apertou-me como se eu fosse a única pessoa naquela sala. Nunca me tinham abraçado assim, à queima roupa, e o meu desconforto era palpável, mas ela, munida da sua loucura de criança de rosto amarrotado, não terá percebido. Após libertar-me regressou aos malabarismos com a muleta e com as palavras, numa desconexão com o real que, naquele contexto, era tranquilizante. Não percebi uma única frase, mas à distância dos anos pareceu-me ouvir dos seus olhos “Tira-me daqui”.

Como ela outros. Tantos. A mesma nuvem na cabeça a acinzentar os dias. Chegados ao tempo em que o tempo já não chega, perdidos numa sala onde o relógio de parede dita a cronologia dos gestos, à espera dos beijos que não se demoram, rápidos e aliviados, na aflição dos minutos. Não encontrei qualquer sinal de alegria, nem daquela distraída que às vezes nos descobre nos lugares mais inóspitos. Como viver sem alegria? E de repente uma angústia sem nome que me atravessa inteira, a incompreensão do desamparo na última caminhada a desarrumar qualquer coisa em mim.

Não voltei a remexer nessa gaveta até há escassos anos, quando no palco da vida e do teatro me cruzei com Patrícia. Menina até no nome, do alto dos seus 90 anos queria ainda brincar ao faz de conta. Impecavelmente vestida e ornamentada, saltos sempre altos e maquilhagem a completar a moldura. Por detrás dos óculos os olhos de uma cor que não sei dizer. Tive a felicidade de a ter como colega em duas peças de teatro onde era sempre uma das primeiras a chegar aos ensaios, mesmo quando uma queda a levou ao uso de canadianas e as dores de que não falava nunca a obrigaram a um esforço tão maior do que aquele que lhe deveria ser permitido. Numa das cenas da última peça era necessário construir uma embarcação humana e remar durante largos minutos. Patrícia não aceitou ser poupada ao esforço físico que a cena obrigava. Indignou-se, protestou e venceu. Durante todas as noites em que estivemos no palco remou sem queixas. Sorriu sempre. Desde a última apresentação não voltei a ter notícias de Patrícia. Oxalá reme ainda.

Não tive o privilégio dos avós, que partiram antes de chegar à última estação. Por isso às vezes desperta em mim o desejo infantil de uma avó de nuvem na cabeça, xaile de malha pousado sobre os ombros e duas agulhas de tricô a dançar nas suas mãos.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação.
Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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8 thoughts on “A última infância”

  1. “Rapidamente percebi que lhe habitavam outras vozes que não apenas a sua.”

    Inspirador!

    Gosto muito expressão literária. Gostava de ler mais vezes os teus textos.

    Depois de o ler pude sentir-me grata e privilegiada por ainda ter os meus queridos avós.

  2. “Nunca tinha sido abraçada assim… à queima roupa…”
    Serão sem dúvida os abraços mais sentidos. Grata por me ter transportado para um futuro indescutivel, onde a incerteza é a única certeza que temos. Muito bem escrito. Parabéns.

  3. A ternura e o desespero.

    A presença ausente e a ausência.

    O encanto na vida e a ausência de vida.

    O desejo e os afectos e os afectos a…

    A poesia na prosa.

    Profundamente Humano.

    Gostei Muito.

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