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ContosCultura

A triagem

Nervoso, mexeu no pulso para rodar a pulseira verde e ler o próprio nome. Mexia as pernas como se estivesse a coser numa máquina de costura. Olhou à sua volta. Pessoas de todas as idades, de pijama, feridas, bem vestidas, algumas acompanhadas, outras perdidas. Todas sentadas à espera da sua vez naquela pequena sala azul. Todas observando as outras, talvez imaginando os porquês, os comos e os destinos de cada um.

Alguns nomes eram chamados no altifalante. Com curiosidade, ele acompanhava com a vista cada pessoa que se levantava e se dirigia para a sala dos fundos. Algumas pessoas pareciam estar ali há muito tempo, sentadas num canto qualquer, sem qualquer esperança no olhar. Não se preocupavam com os nomes nos altifalantes, como se fossem surdas ou soubessem que nunca chegaria a vez delas. Ficavam ali, num limbo eterno, à espera de serem tratadas a uma qualquer dor, num purgatório que mais parecia um inferno. Ele pensou que só lhes faltavam as teias de aranhas, para as ligar completamente àquela sala de espera. Sentiu-se inseguro. Tentou ver a cor da pulseira dessas pessoas, procurar um padrão, e desejou com muita força que a cor não fosse a verde, como a pulseira dele.

A sala dos fundos tinha a porta fechada, mas cada vez que se abria, ele conseguia ver a luz intensa. Leu o nome escrito a preto: “triagem”. A sala da triagem. Ali se decidia tudo, portanto. Mas tudo o quê?

Ouviu o nome dele no altifalante.

Levantou-se a medo; muitas das outras pessoas tinham chegado antes dele e não tinham sido chamadas ainda. Temeu o critério de selecção. Será que ele era um caso muito grave?

Ali ao fundo, tão perto, a sala de triagem. Deu um primeiro passo, sentindo-se tremer. Inseguro. Sem respostas, sentindo que nem sequer sabia as perguntas. Haveria motivo para estar assim, afinal? Olhou para trás, para as pessoas que deixava naquela sala de espera, naquele limbo, algumas olhando também para ele, sem expressão, à espera. Tanto tempo à espera. A porta, mesmo no fim daquele corredor. Sentia-se como se estivesse debaixo de água, todos os movimentos em câmara lenta, a suster a respiração, sem ouvir nada. A andar devagar, a olhar devagar, a sentir devagar. A pensar devagar. A pensar em tantos momentos que tinha vivido até chegar àquele preciso instante, àquele preciso segundo em que lhe custava engolir. As memórias chegavam quase com violência, agarrando-se a ele, como se naquele momento ele estivesse a ir para a forca. Será que iria? Será que o diagnóstico seria negativo?

Abriu a porta. A luz aqueceu-o mais que um sol de Agosto e sentiu como se mil borboletas vivessem na sua alma. Fechou a porta atrás de si e encarou a pessoa à sua frente. Sabia exactamente quem era.

Calou-se durante muitos instantes. Olhava para a pessoa enigmática que lhe devolvia o olhar. Não sabia o que dizer. Deveria dizer algo? Porque não falavam com ele primeiro, ele é que tinha acabado de chegar, ele é que não sabia os protocolos.

“Porque é que está aqui?” perguntou-lhe, depois de muito tempo.

“Porque morri?” arriscou.

Engoliu em seco – ou teria engolido, se fosse feito de matéria. Sabia que ali se decidia tudo – mas tudo o quê? Reencarnação? Inferno? Natureza? Valhalla? O que é que existia? Em que é que ele acreditava?

Deus sorriu “não se preocupe, é só uma formalidade”, disse-lhe calmamente, e pesou-lhe a alma.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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