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A terrível tradição das meninas Devadasi

Prostituição infantil é um assunto muito sério e custa pensar que no mundo exista uma cultura que tenha uma tradição ligada a este tema. É caso da Índia.

Neste país de tradições milenares, nascer menina pode chegar a ser um peso para muitas famílias, pois, quando chega a hora de casar, os pais devem pagar um grande dote ao futuro marido. Assim, muitas famílias pobres, acabam sempre por endividar-se.

É por isso que estas famílias pobres decidem dedicar as suas filhas à deusa Yellamma, fazendo delas umas devadasi, prostitutas de templo. Ao dedicarem as suas filhas aos templos, estas famílias, para além de se livrarem de pagar um dote a um futuro marido, livram-se de uma boca para alimentar e, ainda por cima, acreditam que a menina terá uma profissão e que poderá contribuir para a família com dinheiro e alimentação.

Outras meninas são oferecidas a esta deusa, por superstições ou crenças que levam as famílias a fazer esta oferenda, para se livrarem de males que lhes rodeiam.

MG_aterriveltradicaodasmeninasdevadasi_1Todas estas meninas oferecidas aos templos são consideras como que “casadas” com a deusa Yellamma e nunca poderão casar com um homem e são ainda consideradas de propriedade pública. Ao atingir a maturidade física (entre os 8 e 12 anos de idade), serão forçadas a iniciar o seu caminho na prostituição, onde, por vezes, receberão alguma compensação pelos seus serviços, enquanto que noutras não. Para além disso, nunca poderão rejeitar nenhum homem, pois, segundo esta crença, caso isso aconteça, a deusa fará a família inteira cair na desgraça.

Provenientes principalmente de famílias pobres pertencentes à casta dos “intocáveis” (o grau mais baixo da sociedade hindu), são rejeitadas pela sociedade, não pela sua profissão, mas por causa da sua casta.

O termo devadasi significa em sânscrito “serva de deus” e este sistema de prostituição existe na Índia há mais de 5.000 anos. Antes da chegada dos britânicos à Índia, as devadasi eram populares e tinham um certo status no sistema de castas. Contudo, atualmente, esta tradição é vivida apenas por mulheres em situação de pobreza extrema.

Em 1982, o sistema devadasi foi proibido pelo governo indiano, no entanto, programas de reabilitação e integração das vitimas não foram feitos. E assim, num círculo sem fim, estas jovens marginalizadas foram procurar o seu sustento, vendendo os seus corpos nos prostíbulos das grandes cidades indianas. Na realidade, esta lei acabou por contribuir com aquilo que se tentava erradicar: a exploração sexual infantil.

Vale a pena dizer também que, apesar da proibição, a tradição das devadasi ainda existe no sul da Índia e em outros pontos do país de forma escondida. Estima-se que existam cerca de 48.358 devadasi actualmente na Índia, todas elas meninas e jovens susceptíveis a doenças sexualmente transmissíveis como a SIDA.

Várias ONG trabalham para pôr fim a esta terrível tradição, tratando de questões como a saúde e a educação, para conseguir que estas meninas sejam capazes de abandonar a vida de devadasi.

Com tudo isto, provavelmente devem estar a questionar-se como é que as famílias destas meninas são capazes de oferecer as suas filhas a um costume tão bárbaro. Por incrível que pareça, para estas famílias fazer este culto não é algo imoral, nem terrível, é apenas tradição.

O sistema devadasi coloca em causa várias gerações de mulheres, num país como a Índia, terra de extremos, que luta por equilibrar as suas tradições milenares com o capitalismo ocidental e a modernidade.

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Maria J Gutierrez

Bióloga de profissão, amante da natureza e de todas as suas formas de vida, desde os seres mais gigantes até aos mais pequeninos. Não há nada como estar com a família, descobrir o mundo, aprender, ler um bom livro e cervejinhas com os amigos.

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