Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
SociedadeSociedade

A terra que calcas é a terra do crime

Aquele mundo que vês – nas revistas, nos jornais, na televisão – é o teu mundo. Apesar de olhares com desprezo, repulsa e ódio para todos os crimes, este é o mundo que criaste. Aquele local que perpetuaste com os teus pensamentos, os teus sonhos e os teus pesadelos.

As séries populares – aquelas que vês sempre, que segues fanaticamente – tipificadas por crimes, por assaltos violentos e por rispidez, bem chocante e vibrante, que te deixam colado ao ecrã, são aquelas que espelham a realidade. Será que não és, tu mesmo, que estás aqui a beber destas palavras – em busca de mais crimes e resoluções macabras – não és o verdadeiro Dexter?

Durante o dia, vais deixando o vizinho reclamar da fuga de óleo do teu carro. Ouves as críticas duras e intoleráveis doRS_aterraquecalcaseaterradocrime_1 teu patrão. Encolhes os ombros aos risos mesquinhos de todas as outras pessoas, que parecem demasiado contentes com a sua vida. E acumulas. Vais insultando, intimamente, todos os que te aparecem na frente. A tua cabeça aquece, o sangue corre-te mais rápido nas veias e o coração estala-te nos ouvidos. E vais enchendo, enchendo, até arrebentares. E é aí que a festa começa.

Com um pouco de álcool, uma mistura de drogas, os motivos certos e a arbitrariedade cerebral, o crime acontece. Quando reparas, estas a espancar um bêbado que se atravessou no teu caminho. Estás a bater num idiota que se quis meter contigo. Estas a explodir e, oh, como sabe bem!

Lembras-te de todos os passos certos a dar – que já decoraste de todas as vezes que viste e reviste “How to get away with a murder” – e de todos os erros a evitar. Sabes como arranjar um alibi, como não deixar marcas da tua presença e como limar todas as arestas. Claro que não te esqueces de usar luvas, comprar os materiais certos e pesquisar todas as evasões a camaras – as temporadas de CSI tinham de contribuir para algum conhecimento adequado. Estás pronto a atacar, a soltar-te, a libertar-te e a esquecer todas as convenções morais, sociais e psicológicas que te tentam incutir desde que nasceste. Está na hora de soltar o teu verdadeiro “eu”.

Já tens os conhecimentos, os instrumentos a postos, o alvo marcado e os motivos certos. Algo continua a impedir-teRS_aterraquecalcaseaterradocrime_2 de avançar. Não consegues perceber o que te para e impede de ser como todos os outros que cometem crimes. Afinal, o que seria o teu, no meio dos 11 570 delitos criminais – registados só em 2014, em Portugal?

O mais provável é que teres tudo o que te leva a ser um criminoso moral, no teu íntimo, a odiar tudo e todos, com uma ansia de pecar, de alguma forma, não te torna um verdadeiro ladrão, violador, pedófilo, assassino, etc. Porquê? Porque essa é, apenas, uma parte de ti, que consegues controlar.

Como previsto no Código Civil, para existir uma verdadeira responsabilidade civil – já para não mencionar os aspectos criminais, previstos no Código Penal – antes de qualquer pressuposto (ilicitude, culpa, danos e o nexo de causalidade entre o facto praticado e os danos ocorridos), deve existir um facto voluntário. Ou seja, o individuo deve agir de acordo com a sua vontade, sendo-lhe possível, humanamente, controlar a ocorrência desse facto. Mais do que querer ou não fazer algo, ao contrário do previsto pela Moral, é preciso que tu possas controlar-te e saibas evitar o acto, que sabes de antemão ser crime.

O que te distingue do resto do mundo que pisas é essa saudade da liberdade desmedida – que só experiencias entreRS_aterraquecalcaseaterradocrime_3 sonhos conscientes e a inconsciência do pensamento – que te impede de agir e concretizar o que tanto queres. É esse controlo da sociedade, aquilo a que muitos chamam de racionalidade, e outros tantos apelidam de humanidade.

Talvez a tua maneira de libertar esses ultrajes, que tanto recriminas nos outros – ou será que invejas a sua audácia? –, seja assistir a todos aqueles crimes macabros, momentos de desconstrução de uma vida, de um sonho, de uma edificação humana, de forma passiva. Claro que não demonstras, fingindo-te perturbado, mas aliviado por alguém ser personagem sem medo de ser vilão. Estás cansado da glória dada aos heróis, bons meninos e boas presenças. Todos se parecem esquecer que a polícia só existe, porque há ladrões e criminosos. Estes últimos são causa e motivo de toda a (des)organização social. Eles dão vida e sentido a tudo o resto.

Sabes o que mais revela esta tua identidade oculta, que queres esconder até de ti mesmo? É que apesar de nãoRS_aterraquecalcaseaterradocrime_4 acreditares ser este tipo de individuo – o mau, aquele que é capaz de não olhar a meios para atingir os seus fins, aquele que recriminas sem dó, piedade ou compaixão, mas que olhas com nojo e raiva – continuaste a ler. Continuaste a interrogar-te: “até que ponto é que posso ser isto?”. Bem, só tu o sabes.

Porém, será que a pessoa que está, todos os dias – no metro, no trânsito, no trabalho, no quarto -, a teu lado, não se identificou com tudo, o que atrás foi mencionado? Vives num mundo de crime ou perpetuas esse clima? Uma resposta que só tu podes dar e mudar.

Tags
Show More

Raquel Soares

Aluna de Direito na Universidade Do Minho com uma paixão por livros, filosofia, psicologia e o mundo. Não procuro um mundo melhor, mas esforço-me para construí-lo! Sou activista da Amnistia Internacional em Portugal e participante em projectos que visam a dinamização e a efectivação dos Direitos Humanos. Membro da Associação Universitária de debates nacional e colaboradora da ELSA UMinho.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: