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A surdez da maternidade

Ser mãe é o sonho de muitas mulheres. Para algumas é o seu projecto de vida e para outras é mais uma etapa no caminho que escolhem. Existe toda uma mentalidade de base que leva a que os papéis de género sejam assumidos sem discussão. As mulheres são mães e carregam os filhos. Os pais, durante anos, pensavam que era território proibido e nem lhes tocavam. Primeiro, porque ficavam rotulados como sendo pouco másculos e depois, porque não tinham experiência alguma sobre o assunto.

No entanto, essa postura perante a vida tem vindo a ser alterada e os homens assumem o seu papel de pais com a maior das naturalidades. De chefe da família, macho dominante, passam a seres humanos que cuidam dos filhos e de si próprios de modo simples e natural. Inclusive até alguns homens querem ser pais de forma mais ou menos independente. Quer isto dizer que assumem a paternidade sozinhos. É sinónimo de alteração de mentalidade e de mudança dos tempos.

“What about the roles that are based on the very same limited data that have been attached to us since day one? They dictate things like our place in the working world, our responsibility with our families, our relationship with our sex and sexuality.” Christen Reighter

A maternidade é o prolongamento do ser e a continuidade da espécie. Os animais respondem a estímulos, entram em períodos de reprodução e machos e fêmeas cumprem a função. Nos seres humanos, superiores a esses instintos primários e mínimos, a escolha de parceiro torna-se bem mais complexa. Se para os homens a necessidade de espalhar a semente é primordial, para as fêmeas há um maior cuidado na escolha. Querem o mais adequado à função e ao papel.

Existe uma tribo, num local remoto, que vive num regime muito especial e particular. Todos os adultos, homens e mulheres são livres de dormirem com quem entenderem sem a menor restrição. Quando as mulheres engravidam, podem escolher quem será o pai da criança. Essa decisão é feita com base na experiência que conseguem e ser escolhido para pai é uma honra entre eles. Na sociedade ocidental, tudo é bem mais complexo.

A família continua a ser a base da sociedade, mas este conceito tem vindo a sofrer várias alterações. De uma família convencional, mãe, pai e filhos, passa-se para famílias monoparentais, mães que ficam com os filhos e mais tarde alguns pais que conquistam o direito a serem pais em pleno. As novas mudanças surgem com as chamadas famílias recompostas, onde pais e mães com filhos, se juntam e criam novas famílias. Mais recentemente surgem, às claras e aceites, as famílias de pessoas do mesmo sexo que têm filhos biológicos ou adoptados.

Como evoluiu a população mundial

No regime demográfico primitivo que vai até à Revolução Industrial, a população cresceu lentamente. As taxas de natalidade eram elevadas, pois os filhos eram vistos como força de trabalho e as mulheres asseguravam o trabalho doméstico. Por outro lado, as taxas de mortalidade também eram altas, mas irregulares. Tal prendia-se com o facto de a alimentação ser deficiente, a medicina ser muito rudimentar e, maioritariamente, a falta de higiene. Assim sendo, o crescimento natural era praticamente nulo. De qualquer dos modos, a esperança média de vida era muito baixa, cerca de 30 anos.

A revolução demográfica situa-se entre a Revolução Industrial e o final da Segunda Guerra Mundial. Os progressos da medicina, os hábitos de higiene e uma substancial melhoria das condições de vida permitiram o aumento da taxa de natalidade, fomentando, assim, a subida do crescimento natural. A mortalidade infantil diminui, devido ao facto de as crianças serem criadas como seres humanos abandonando as capoeiras e as cozinhas imundas. Neste contexto, a esperança média de vida supera os 40 anos.

O último período, a explosão demográfica, acontece a seguir à II Guerra Mundial e caracteriza-se por um crescimento acelerado da população mundial. O terminar do conflito e o regresso a casa dos homens vai originar um baby boom. Aliada a esta circunstância há a considerar a melhor qualidade de vida e os avanços significativos da medicina. Esta situação permite um certo equilíbrio nas baixas verificadas com a guerra. Os países industrializados lançam campanhas de auxílio para países menos desenvolvidos, a ajuda internacional, que se pauta pela significativa descida da taxa de mortalidade e na manutenção da taxa de natalidade elevada.

Os demógrafos afirmam que o maior ritmo de crescimento demográfico aconteceu durante a década de 60 do século XX, porque a maioria dos países fez, nesta época, a sua transição demográfica. É também nesta década que surge uma outra inovação: a pílula anticoncepcional. O controlo dos nascimentos passa a ser uma realidade, apesar da desconfiança inicial. As mulheres passam a ter um poder inacreditável que é controlar o seu próprio corpo. E as decisões sobre o número de filhos passa a ser em conjunto, mulher e homem.

O século XX trouxe inovações em todos os sectores. As guerras que se deram entre 1914 e 1945 acabaram por moldar a mentalidade das mulheres. Não havendo homens para assegurar os trabalhos, eles chegaram-se à frente, arregaçaram as mangas e aprenderam todos os ofícios necessários. Se de início este trabalho foi por uma questão de sobrevivência, depois tornou-se um hábito salutar que se enraizou na pele. As mulheres descobriram algo de extraordinário: a realização profissional.

A sua luta pela profissionalização e reconhecimento tem-se mostrado uma tarefa árdua e cheia de altos e baixos, mas gratificante, de qualquer dos modos. Há ainda muito trabalho a fazer, mas o tempo se encarregará de dar o devido valor a quem o merece. Contudo, o facto de querer ser mãe pode ter-se tornado num problema que não devia ser. Vivemos num mundo com grandes discrepâncias demográficas e os países ocidentais sofrem uma crise muito grave.

Assegurar a geração seguinte não é tão fácil como possa parecer em muitos países do velho continente. Mesmo com campanhas de sensibilização e com incentivos, as taxas continuam baixas e são os imigrantes que mais filhos têm. Para eles, os países de acolhimento são favoráveis e estabelecem-se. Estas famílias encontram terreno fértil para se instalarem e começam uma nova vida. Para os naturais é tudo bem mais complexo. A decisão de ter um filho é meditada e são feitos planos a longo prazo.

Ser mãe implica uma decisão bem ponderada e estruturada. As mulheres tendem para serem mulheres, em primeiro lugar, com a realização profissional e os seus conhecimentos adquiridos como meta primordial. A maternidade passa para o seguinte, quando todas as condições estiverem atingidas. Já não existe a obrigação que, durante séculos foi o seu martírio. Ser mãe pode ser uma opção e pode nunca acontecer por variados motivos. Isso não faz das mulheres seres inferiores ou estranhos.

Opinião dos profissionais de saúde

Médicos e enfermeiros são unânimes em afirmar que a maioria das mulheres quer ser mãe, mas as condições exógenas podem ser adversas. Algumas vão deixando passar o tempo útil, que é o período fértil, sofrendo depois alguns reveses por não conseguirem engravidar. Sentem-se culpadas por não terem ouvido o relógio biológico e fazem de tudo para reverter o tempo. Tal não é possível. Tudo tem o seu tempo e os óvulos são bem mais sábios do que as pessoas.

Desde que a mulher entrou no mercado de trabalho em força, que a carreira se tornou bastante importante. Ver o seu valor reconhecido é a primeira etapa e só depois da vida organizada, que implica uma relação sólida e uma base de apoio confortável, é tomada a decisão da maternidade. O planeamento familiar foi uma enorme revolução e a possibilidade de escolher a quantidade de filhos a ter tem facilitado a vida às mulheres de hoje em dia.

Durante séculos era-lhes incutida a ideia de que seriam, obrigatoriamente, mães e que essa era a sua função. Já não existe a mesma pressão apesar da velha mentalidade persistir e ter tendência a se tornar mais comum. Muitas mulheres recorrem aos serviços especializados para aconselhamento. Apesar das inúmeras campanhas, certas dúvidas persistem e devem ser completamente esclarecidas. Os ditos populares ainda são prevalecentes e podem induzir em erro.

Na opinião das enfermeiras especializadas, o melhor período para a concepção é entre os 21 e os 29 anos, quando o corpo feminino está bastante receptivo às mudanças que a gravidez provoca. Não são só as hormonas que se estão a produzir em qualidade, mas também o útero é mais convidativo. Algumas mulheres consideram muito cedo para a primeira gravidez e vão-na adiando, o que pode resultar em nunca se concretizar.

Os médicos, depois de informarem sobre todos os detalhes, sugerem que sejam feitas análises e vários tipos de exames para saber se o corpo pode ou não estar apto a procriar. É uma questão técnica que, sendo positiva, terminará numa tarefa bem-sucedida. O novo ser deve ser saudável e capaz de sobreviver num meio novo. Este período de tempo pode ser muito desgastante.

Os psicólogos analisam de uma outra vertente, mais terra a terra. É uma nova vida que vai surgir e tudo será diferente. A mulher será responsável por um novo ser que é absolutamente dependente dela. A ligação que se estabelece é de grande intensidade e os desafios serão inúmeros e gigantes. Não existe manual de instruções para o que se avizinha. No que respeita a mulheres que não têm filhos, porque os decidiram não ter, a procura destes especialistas é nula, pois a decisão é tomada de modo bastante amadurecido. O que pode acontecer é que em consultas, motivadas por outros antecedentes, o assunto possa vir à baila. Os homens têm alguma dificuldade em aceitar, no início. O natural é querer ter filhos logo a situação transforma-se em incomum e minoritária.

Situação no século XXI

A mudança de mentalidade e todas as alterações sociais vividas nos últimos anos levam a alterações de comportamento e a novas nomenclaturas. A família, base da sociedade, deixou de ser estanque e parametrizada dando lugar a novos e múltiplos conceitos da mesma. Família convencional, família monoparental, famílias recompostas e novas famílias, com elementos do mesmo sexo. A finalidade já não é a procriação, a extensão do eu, mas sim o amor que pode ser dado ao rebento que daí possa resultar.

As mulheres ganharam autonomia e tomaram as rédeas da sua vida nas mãos experientes. São cada vez mais as que não querem ter filhos por variados motivos. Assumem sem problema algum a sua decisão mesmo que possam ser olhadas de lado por grande parte da sociedade. Ser mãe ainda é finalidade para muitas mulheres, mas outras, as diferentes, existem em todas as classes sociais e com todas as profissões.

Há uma maior consciência e as mulheres querem sentir-se completas sem pressões sociais nem obrigações. Os valores não se alteraram, simplesmente são acrescentados outros, novos, que pertencem a uma nova era de que estas mulheres fazem parte. E são cada vez mais. Não ser mãe não faz delas más pessoas e muito menos seres inferiores. São mulheres que caminham de cabeça levantada e determinadas nos seus objectivos.

Neste novo contexto, as respostas dos técnicos são quase idênticas, mudando as das enfermeiras e dos psicólogos. Para as primeiras, a maternidade é sempre um desejo de qualquer mulher, o poder deixar o seu legado, a sua marca e conseguir ter alguém de quem se sinta mesmo próxima. As circunstâncias de vida é que levam a adiar esse desejo que depois vai ficando esquecido e relegado para segundo plano.

Decidi não ter filhos – uma amostra representativa

Estas mulheres são a nova geração que se assume independente e autónoma. Grande parte delas vive sozinha, o que não significa que se sintam sós, com profissões exigentes e um grande leque de amigos. Outros valores se tornam primordiais para elas que não a maternidade. Caminhos que aparecem cheios de irregularidades, mas que são percorridos com serenidade.

“We live in a time and culture where women are faced with a world of choices, yet there still seems to be an outdated social expectation that all women are destined to be mothers. I just don’t believe that’s true.” Vicki McLeod

Tendo sido solicitado a um grupo de mulheres, sem filhos, que respondessem a um pequeno questionário, as respostas não são tão díspares como se pudesse pensar. Existe um fio condutor, uma linha que as une e nem se conhecem. Só demonstra que a personalidade de base em nada altera as decisões que cada uma tenha tomado. A sua decisão da não maternidade é ponto assente e em nada alterariam essa postura.

São mulheres de várias idades, umas saudáveis, outras que já ultrapassaram uma doença grave, desempregadas ou com profissões variadas e classes sociais bem diferenciadas. As respostas foram todas agrupadas para um melhor entendimento do todo, sendo que não haverá referência a nome algum. O anonimato facilita a verdade e solta os fantasmas acumulados.

Porque não quis ter filhos?

A ideia da rapariga que sonha com um casamento e uma casa cheia de filhos não se encaixa aqui. Algumas delas afirmaram que ter filhos nunca fez parte dos seus planos e que o relógio biológico não funcionou. Outras referem circunstâncias como antecedentes negativos na família e a ausência de vontade do companheiro. Existe um pequeno grupo que já havia decidido que queria viajar e conhecer o mundo, o que se incompatibilizava com uma gravidez. Uma dela referiu que tinha passado por uma experiência muito traumática e não a pretendia repetir até porque o pai da criança não estava consigo. Outras mencionaram que pretendiam estudar e viver fora do país, sentiam-se infantis para assumir uma decisão desse tamanho ou ainda que as condições nunca foram as favoráveis e o tempo foi passando. Claro que o amor pesou nos pratos desta balança. Para uma o amor que sentiu não foi suficiente para chegar à vontade dos filhos e outra entendeu que nunca tinha havido pai que merecesse o título. O provérbio “quem os faz que os eduque” foi ouvido bem como um desabafo sobre a má experiência com a mãe, evitando a todo o custo repetir os mesmos erros.

Não sentiu pressão por parte dos seus?

As opiniões dividem-se entre o sim e o não. O sim, porque ainda se pensa que uma mulher tem, obrigatoriamente, que ser mãe e deixar a sua continuidade e os filhos são uma segurança. A pressão pode ser imensa e incutir na mulher a ideia de que está a fazer algo de errado só porque decidiu não ter filhos. Muitas das vezes não são os familiares directos, os pais, mas os mais afastados e os amigos da família. Chegam a afirmar que não é normal e que se deve tratar. É olhada com desconfiança e com bastante desprezo. A ideia do sofrimento que os filhos acarretam tem um peso imenso na mentalidade vigente. Mulher que não queira ter filhos apresenta algum defeito e é olhada com alguma desconfiança. Sofrer é o caminho para a procriação. Chega-se a ouvir que querem é dormir a noite inteira. As vozes críticas levantam-se sempre. O não é menos frequente, mas indica que a maneira de estar, a postura, tem vindo a ser alterada e que as mudanças acabam por ser bem aceites. Não é que exista muita compreensão, mas a esperança de que assim seja é um motor poderoso.

Como se sente por não ter sido mãe?

Parece ser a ideia que as acompanha desde o início. Nenhuma delas se sente menos mulher por não o ter sido. Não são incompletas. A resposta mais ouvia é “muito bem”. Alguns experimentam um sentimento de nostalgia que passa rapidamente, pois não seria um filho que tornaria a sua vida especial. Liberdade é o sentimento que expressam, mas mencionam que frequentam as festas dos filhos das amigas, sem qualquer problema de consciência. Há quem diga que mexe na barriga e uma confessa que se sentiu vazia depois de perder um bebé. Não quer repetir, pois, para ela, nada lhe acrescentará. São claras e firmes quando afirmam que foi uma decisão acertada. Existe sempre a possibilidades de fazer outras coisas que seriam proibitivas com filhos. Quase todas contam pequenas histórias de proximidade e intimidade com os filhos dos amigos, confidências que só elas sabem, sendo muito gratificante a confiança depositada. Podem ficar com os filhos dos amigos e dos irmãos e primos, de quando em vez, mas não são os seus próprios filhos e assim a relação é mais flexível.

Como vê o futuro na velhice?

Muitas respondem que não pensam no assunto ou que não se imaginam velhas. Para elas os filhos não são um seguro de vida nem sinónimo de conforto na velhice. Assiste-se a um enorme abandono de idosos e até maus tratos a progenitores. A vida é para ser vivida dia a dia, um de cada vez. A velhice pode ser um estado de espírito e os filhos não têm que carregar o fardo dos pais. As decisões são da responsabilidade de cada um e ter filhos serão efeitos secundários. Quase todas desejam não ficar sozinhas e esperam ter força suficiente para continuar a viajar assim como poder usufruir da companhia dos amigos e da família. Também houve quem se interrogasse sobre a sua longevidade “não sei se chego lá” sendo que o presente é mais importante. A dor não é esquecida e a frase “não sei se será a dor deles maior que a minha” remete-nos para uma incerteza constante.

Não se sente só?

Todas as respostas foram idênticas. Estas mulheres foram unânimes em afirmar que a solidão não as incomoda e que estar sozinhas, consigo próprias, pode ser agradável. Contudo, alguns dias são menos simpáticos do que outros e a introspecção a que se dedicam pode resultar em estados de espírito mais delicados. Algumas referem que não gostam da sua companhia, mas aceitam-se, e outras ainda confidenciam que se sentem estranhas. Uma pequena percentagem acrescentou que a solidão acaba por ser relativa, porque muitas pessoas vivem em família e estão completamente sós. Na verdade, viver numa grande cidade pode ser sinónimo de solidão, pois as pessoas estão de costas voltadas umas para as outras.

O Natal é data que seja festejada com facilidade?

É uma época de consumismo e o sentimento fica relegado para segundo plano. Não existe amor verdadeiro, mas sim ostentação. Comprar e oferecer. O que significava na infância e adolescência deixou de fazer sentido mesmo que as saudades voltem sempre. Quase todas o tornam irrelevante. Algumas afirmam que foi penoso ver casais a comprar coisas fofinhas para bebés, mas ficou no passado, outras não gostam da data e preferem ficar sozinhas e não têm problema algum com essa atitude. Uma delas diz que não gosta do Natal por variados motivos, mas gosta das músicas. Outro grupo festeja sempre em família, com a nostalgia da infância juntamente com o bacalhau e as couves. O cinismo impera, mas a data é vivida de maneiras diferentes e é a oportunidade para o reencontro de vidas que andam separadas durante o ano.

Não se encanta com bebés e crianças pequenas?

As hormonas funcionam, mas a cabeça acaba por comandar. A realidade é sempre mais forte e, apesar de serem muitos fofos, os pais é que devem cuidar deles. Gostam de crianças, mas que não sejam suas, somente as dos outros. Um grupo grande explica que não são pessoas de bebés, não movem o seu mundo, não sentem qualquer chamamento. Algumas têm medo de lhes pegar por serem muito frágeis. Outras gostam de brincar com crianças, bem-educadas, porque ainda não estão contaminadas. Para elas são seres valiosos porque absorvem o que lhes ensinam, o pode ser muito proveitoso. O ponto comum é que este sentimento aplica-se aos bebés dos outros, que são uns queridos, porque não seus. Um bebé é sempre bonito, mas a vida ensina que crescem e deixam de o ser.

Algum arrependimento?

Neste ponto todas as respostas foram convergentes. Nenhuma delas sente arrependimento e também não se sentem menos mulheres por não terem sido mães. É curioso verificar que, apesar de serem de idades muito diferentes, todas elas estão de bem consigo pela decisão tomada. São assumidas sem qualquer problema. Encontram inúmeras vantagens nas suas decisões, nunca referindo aspectos negativos. Arrependimento somente daquilo que não fizeram, que não contempla esta tomada de decisão. A questão do sofrimento nem é mencionada, pois foi uma decisão tomada com rigor e não de ânimo leve. A ideia da mulher em profunda dor já está ultrapassada há muito.

Mães que tiveram filhos e que se arrependeram

Uma socióloga, para a sua tese, entrevistou várias mães e inquiriu-as sobre a possibilidade de reverter o tempo e conseguir alterar o que estava feito. O denominador comum é a decisão de ter tido filhos. Todas estavam arrependidas e se estivessem na posse de vários conhecimentos, na altura da pré-gravidez, nunca a teriam colocado como hipótese. O arrependimento materno é uma posição emocional que leva ao sofrimento e à inquietação. Para estas mulheres, a sua vida é uma angústia permanente e uma dor profunda, apesar do amor que sentem pelos filhos.

A ligação entre o passado e o presente pode ser dura e complicada de ser aceite. As tomadas de decisão podem ser encaradas, para algumas destas mulheres, como resultado de uma enorme pressão que a sociedade coloca nelas. Os filhos não serão o resultado de um amor infinito e incomensurável, mas sim o fruto do que é suposto a mulher fazer numa sociedade. A função biológica supera a decisão individual e leva a uma enorme inconstância de atitudes.

Se, por um lado, afirmam que amam os seus filhos, por outro não têm problema algum em dizer que abdicariam deles sem pestanejar. Reconhecem a dádiva que eles fornecem, mas os aspectos negativos, como a ausência de liberdade e preocupações constantes, levam-nas a dizer que terem filhos foi um erro. Se fosse agora, preferiam, sem a menor dúvida, não os ter tido. Vivem em constante inquietação de que lhes aconteça algo de negativo e que não consigam resolver as situações.

Que sociedade no futuro?

Um filho, uma nova vida gera sempre sentimentos controversos. Tantas mulheres que se sentem diminuídas por não conseguirem engravidar e outras que ficam grávidas sem o querer. A continuidade da espécie poderá estar ameaçada? Não parece que assim o seja. Se as pessoas mais esclarecidas e educadas optam por ter menos filhos ou até mesmo nenhuns, a maior parte da população, a de poucos ou nenhuns recursos, continua a reproduzir-se a um ritmo exagerado. A nova geração parece estar assegurada, mas a sua qualidade poderá suscitar algumas dúvidas.

De todos os depoimentos recebidos, algumas frases são bastante invulgares e merecem ser mencionadas com algum destaque. “Quem os faz que os eduque.” De facto, pensa-se sempre em ajudas externas, mas essas são temporárias e os filhos devem estar com os pais. “Escolhi uma profissão e não filhos.” Uma forma de estar que seria impensável há uns anos. “Senti-me sempre infantil para os ter.” Consciência clara da decisão. “Decidi ser eu e não os meus filhos”, “Só se salva quem não nasceu”, “Há lares tristes”, “Pelo que é dado a perceber não são os filhos que fazem o lar”, “Penso em envelhecer sem preocupações de maior”, “Não quero perder o espírito jovem mesmo sendo velha.”

Estaremos perante uma geração de mulheres que entendem o que são as chamadas dificuldades e a necessidade de colmatar as falhas? Desde o 25 de Abril de 1974, muito foi feito e ainda tanto está por fazer. A geração que o viveu com intensidade era resultado da miséria e de necessidades acumuladas. A melhoria da qualidade de vida poder ter mascarado as vias de segurança e passou-se para uma situação de demasiado facilitismo. Os educadores parecem ter esquecido ensinar como se conseguem as soluções e passaram logo ao produto final.

Estas mulheres são a prova de que a sociedade continua em mutação e que tudo o que se pensou não ser possível está a acontecer. A mulher, símbolo da beleza da maternidade, recusa-a sem qualquer problema de consciência. São cada vez mais as mulheres que vivem sós e que assim querem permanecer. Os filhos não estão incluídos nos seus planos e a vida é para ser vivida sem restrições. Não se sentem diminuídas por não terem sido mães e continuam firmes nos seus ideais.

Grande parte destas mulheres são casadas ou têm relações estáveis, mas os filhos nunca estiveram nos planos destes casais. Não são encarados como uma pobreza ou uma menor valia, mas sim como uma forma de estar e o resultado de uma decisão bem pensada. Tal não impede que se relacionem com crianças e que estabeleçam laços fortes com elas. São os tios que amparam, quando é necessário.

O mundo pode ser assustador e um local estranho, mas é o único que temos. O não querer colocar um novo ser humano num sítio que parece inóspito e muito desagradável acaba por ser uma atitude legítima. Estas mulheres não podem, de modo algum, ser consideradas egoístas, antes pelo contrário, são altruístas, porque evitam um sofrimento que poderia ser atroz. Na verdade, não recusam a maternidade, mas protegem os seus entes, os seus pedacinhos, de um outro modo mais seu, mais especial.

Das deusas Vénus da Pré-História até aos dias de hoje, muito se alterou, mas o papel das mulheres foi sempre determinante. Eram elas que carregavam os filhos e que os cuidavam o que as transformava numa preciosidade. Com a evolução dos tempos, a mulher conquistou destaque por outros feitos que não a gravidez, o seu papel biológico. Hoje são inúmeras as que se rebelam contra essa ideia instalada de que uma mulher, para ser completa, tem que ser mãe. Para estas mulheres, a maternidade simplesmente não faz parte dos seus planos e o relógio biológico não toca nem vai tocar.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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1 thought on “A surdez da maternidade”

  1. Como sempre os teus artigos encantam-me, a tua escrita conquista-me diariamente, quanto a este artigo identifico-me completamente com ele. Adorei.

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