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A sombra do fado

Ao passear pelas ruas escuras de Lisboa, podemos entender perfeitamente porque é que o Fado é a canção nacional. As ruas expiram melancolia, com os reflexos cor-de-laranja dos candeeiros ténues, a calçada irregular que parece sempre molhada, seja chuva ou seja orvalho, os prédios cinzentos tristes, abandonados. À noite, é uma sombra da cidade que costuma ser de dia, e mesmo assim contém toda a alma e verdade do que realmente é.

Lisboa era linda, e Céu adorava a cidade.

Porque também ela era a cidade, de vez em quando.

Nos dias de chuva, Céu transformava-se. Transformava-se no que queria; às vezes escolhia ser uma andorinha, se fosse primavera; outras vezes tornava-se no fado cantado que se ouvia nas tascas de Alfama. Podia ser chuva, som, toques e brisas. Podia ser a estátua do Fernando Pessoa, ou o cheiro a café da Brasileira. Podia ser o eléctrico para a Graça, ou a sombra de uma nota de guitarra portuguesa.

Nos dias de chuva, Céu era tudo e não era nada. Era a alma da cidade, era qualquer coisa na cidade, era a cidade toda, completa, triste, melancólica e viva.

a sombra do fadoDesde pequena que a mãe lhe tinha explicado a origem da família, algo sobre um espírito, ou uma sereia, ou o espírito de uma sereia, amante de Ulisses. Céu não ligava muito a essas lendas. Tinha medo dessas histórias, e achava que não acreditava muito. Como é que era possível? Mas a verdade é que não queria saber mais por medo a quebrar a magia. Por medo a encontrar explicações que fizessem desaparecer o inexplicável. Porque ela sabia que era verdade que as mulheres da família tinham um segredo, um grande e maravilhoso dom secreto, daqueles que só existem nas lendas, e embora o temesse, ela não queria que desaparecesse. Nem se atrevia a pensar nele, quanto a mais a contar a alguém!

Mas ele tinha chegado a Lisboa.

Não se lembrava de quando o conheceu. Era Céu, só ela própria, porque foi num dia de calor. Nem uma gota de chuva, nem uma nuvem à vista. Devia ser Verão, então, quando o veleiro dele tinha chegado à sua cidade. Vestido de marinheiro, com uns olhos pretos brincalhões, Céu não tardou em apaixonar-se. Se não foi amor à primeira vista, foi à segunda. Ou a terceira. Porque ela olhou infinitas vezes para ele, e quanto mais olhava mais perdida e feliz se sentia.

Ele. Bom, ele nem a viu. Mas sentiu-a. Porque nos dias seguintes choveu, e Céu foi brisa fresca e foi céu cinzento e foi cheiro a maresia. E quando parou de chover, conheceu-o. Apresentou-se, naturalmente, como a brisa do dia anterior, que o tinha obrigado a sonhar com cheiro a canções populares e com a noite densa da cidade. Dessa vez ele é que se apaixonou ao olhar para ela, para a cara frágil de menina pequena e o cabelo ao vento, solto, selvagem. Acreditou logo nela, bebendo as suas palavras com cada beijo que davam. Era a primeira vez, e seria a última, que Céu contava o seu segredo a alguém, e sentiu-se aliviada, feliz e mágica.

Quando o veleiro dele partiu, para longe – Céu não sabia para onde –, ela partiu com ele. Às vezes era as ondulações do oceano, outras a vela principal. Era tudo, ou não era nada. E quando a chuva parava e ela era ela de novo, corria para o seu abraço e ele escondia-a ao pé da mercadoria, ou debaixo das suas cobertas. E nenhum dos dois estranhou, quando chegaram ao destino do veleiro, que Céu estivesse grávida.

Ele deixou de ser marinheiro. Arranjaram uma pequena cabana na praia para viver, e procuraram trabalho nos bares e cafés locais. Cuba. Ela gostava de Cuba, tropical, quente e cheia de música. Mas nada era como a sua Lisboa, que tantas vezes recordava. As ruas frias e o vapor que sai da boca ao respirar. Sorriu, porque ela já tinha sido esse vapor. As luzes ténues que mostram as sombras estranhas, sombras e luzes que ela tantas vezes escolhia ser. O cheiro a rio e a quente das castanhas, que ela já tinha transportado como brisa para tanta gente. E o som das vozes, da guitarras, das canções, cujas sombras ela também tinha sido. As sombras dos sons e dos cheiros. Nada era como a sua Lisboa. Por isso, depois do nascimento da pequena Mar, de mais uma menina que partilharia com ela aquele magnífico dom, decidiram voltar para Lisboa. O lugar das brisas, das canções, da melancolia.

O lugar daquele dom, que não pertencia a Cuba.

O dom de Lisboa.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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