ContosCultura

A sombra de outros homens

As árvores são escuras contra o céu nublado. É quase um degradê de escuridão. A ponte exibe as luzes cor-de-laranja nos seus arcos e as cores reflectidas na água de veludo confundem-se com a realidade. Duas realidades reflectidas.

Será que sou o reflexo ou a realidade?

No meio da escuridão, ao longe, há uma luz atrás de uma porta. Amarela e quente, a cor e a luz invadem tudo o que tocam. Noto-o quando me aproximo: no chão, na carpete azul que parece um mar amarelo. De onde vem esta luminosidade à noite, numa casa quebrada, sem electricidade nem tecto?

Decido entrar. O ruído sinistro da porta a abrir. Sinto-me proibido. Piso os vidros de lâmpadas que foram luz. Lá dentro, destroços. Outra porta. Um quarto que guarda um espelho enorme. A cama é só metal, sem colchão. Escovas e fotografias no toucador, roupas rasgadas no chão. Houve vida aqui mas há muito que desapareceu. Talvez tenha desaparecido com os buracos de bala que atingiram o espelho. Tenho vontade de vomitar, neste regresso a uma guerra do passado, a um pedaço de história cruel. No espelho, entre o pó da destruição, a marca de um batom ficou para sempre. O que faz aqui um beijo? Guardo as fotografias sem as olhar. Ignoro o choro da velhota sentada na poltrona, um véu negro no luto de alguém que já não existe. É uma recordação presa naquelas paredes.

Noutra porta, a sala é uma biblioteca abandonada. Livros derramados no chão, páginas arrancadas e violentadas em cima dos sofás, palavras a cobrirem o silêncio. Ando entre os livros, com o barulho do papel amarrotado a roçar-me os sapatos, as solas a pisarem as lombadas. O som de lombadas a desfazerem-se invocam espinhas a partirem-se, sofrimento, sonhos a romperem-se. A mesa e as cadeiras partidas, reconheço os pés. As estantes de madeira conservadas porque as árvores duram para sempre. Alguns livros ficaram lá albergados, longe dos seus iguais maltratados na carpete, elitistas que não se suicidaram no infortúnio. Não me atrevo a ler os títulos dos sobreviventes. Não me atrevo a ler os títulos dos caídos.

Não percebo de onde vem tanta luz.

Ali ao lado, uma janela. Estrelas no céu sem lua, uma janela vazia e nua. Olho para baixo, para os vidros da janela caídos. Partidos, uns bocados grandes e outros pequenos – uns metem-se na pele, outros matam pessoas. Em cada um deles julgo ver o reflexo da cidade. Do que fora a cidade há muito tempo atrás. Neles, vejo-me também a mim. A minha sombra move-se quando me surpreendo. Mas esta sombra não é minha. Não sei dizer porquê. Não sei defender-me da loucura. Só sei aquilo que vejo e que sei que sei. Olho e a sombra olha também para mim, e eu consigo perceber que não sou eu. Deve ser alguma coisa nos ângulos, no tom, na velocidade com que se mexe, tão mais rápida ou mais lenta que eu.

Sento-me no chão, em cima de livros, de papéis rasgados, de letras perdidas. Ali estiveram muitos dos que me fizeram. Ali sofreram e morreram muitos dos que me fizeram. O meu sangue, o meu futuro, a minha identidade. Deito-me e quero fechar os olhos para os conhecer melhor, para conseguir escutar a vida que não existe há décadas, a vida que aconteceu por cima do choro daquela senhora que é uma solidão.

Talvez chegar a onde pertencemos tenha este efeito de loucura. Talvez visitar a família que nunca conheceremos e que ficou para trás nos transforme mais em nós próprios. A minha sombra não é minha porque é uma sombra antiga num homem novo.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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