Desporto

A Seleção Nacional Feminina – Rumo à incógnita

Portugal também já tem as suas estrelas no futebol feminino e a seleção nacional agradece. É um privilégio poder contar com jogadoras como a Solange Carvalhas, a Andreia Norton, a Andreia Veiga, a Filipa Patão ou a Joana Marchão. E agora tenho que reiniciar este artigo porque nenhuma destas jogadoras foi convocada para representar Portugal na recente Algarve Cup.

A Algarve Cup é uma competição de renome internacional habituada e contar com as melhores seleções do futebol feminino. Entre 1 e 8 de Março decorreu a 24ª edição. Portugal iniciou a competição com elevadas expectativas depois da histórica qualificação para a fase final do Europeu que vai decorrer na Holanda no próximo Verão (16 de Julho a 6 de Agosto). Resultado conseguido na Algarve Cup? Desilusão total, fiasco competitivo e muitas interrogações. Portugal foi último classificado com nenhum golo marcado em quatro jogos.

Portanto a primeira conclusão é que Portugal tem um grave défice ofensivo. Falta de talento? Não. Há talento e muito. A jogadora portuguesa nasce com talento e isso é natural nesta nossa terra de futebol, o mesmo acontece com os homens. Então se há talento, porquê os maus resultados?

Observando os comentários dos jogos da seleção nacional feminina nas redes sociais, lemos merecidas palavras de incentivo do público em geral. entre os que acompanham a realidade do futebol feminino há já algum tempo, as críticas ferozes são habituais e dirigem-se a toda a estrutura, da qual Francisco Neto como selecionador é apenas a face mais visível. É muito ouvida a crítica de que esta é uma seleção de compadrios e interesses e que as convocatórias são incompreensíveis deixando de fora algumas das melhores jogadoras nacionais.

Não pretendo de forma alguma beliscar os méritos ou o trabalho nem muito menos a qualidade de quem por norma lá está. Só que há casos gritantes que escapam à compreensão.

Solange Carvalhas é a máxima goleadora da aclamada Liga Allianz. Tem tão só 29 golos registados à 19ª jornada. E não cabe numa seleção que não marca golos. É uma jogadora rara com um killer instinct que mais ninguém tem em Portugal. Alia a técnica e a leitura de jogo a uma grande facilidade de remate. Sabe surgir no sítio certo e a frieza e confiança que lhe são inaptas, tornam-na numa jogadora que em frente à baliza raramente falha. Solange é a melhor jogadora portuguesa a finalizar mas não cabe numa seleção em que marcar golos é maior dificuldade. Não se percebe.

E isto origina um agravamento. Diana Silva é sua colega no Sporting. Detentora de grande velocidade e drible fácil, é a principal criadora dos lances que Solange concretiza. Ao contrário da colega, revela dificuldades na concretização. Pois bem, na Algarve Cup, Diana foi colocada a jogar em zona de finalização. Francisco Neto perdeu assim também uma criadora de golos porque a pôs a jogar onde revela menor eficácia.

Outra grande avançada, talvez a mais consensual a par da estrela da companhia, Cláudia Neto, Ana Borges evolui no seu clube pela extrema direita e poderia ser a grande criadora de jogo ofensivo desta seleção. Poderia mas não é. Não é porque Francisco Neto por norma coloca-a no extremo oposto do desenho táticto e assim, Ana Borges é a lateral esquerda da seleção. Imaginem que Fernando Santos não chamava Raphael Guerreiro para colocar Quaresma a lateral esquerdo. Faz sentido? Não, mas é o que faz o selecionador feminino, deixando de fora das convocatórias a melhor lateral esquerda portuguesa da actualidade, Joana Marchão. É ainda jovem mas no Sporting já provou as suas mais valias, tendo-se revelado até exímia na execução de bolas paradas. Ninguém pareceu compreender a sua ausência na Algarve Cup.

Também não jogam as setas ofensivas do Sp. Braga, Jéssica Silva e Andreia Norton, se bem que a primeira tenha sido convocada e ainda esteja a regressar ao melhor nível depois de um ano parada por gravíssima lesão. Já Andreia Norton, a heroína que marcou o golo frente à Roménia que valeu a qualificação para o europeu, é um pouco vítima da utilização irregular na equipa minhota. Cláudia Neto é a melhor e mais importante jogadora portuguesa, mas por vezes parece um pouco perdida nos jogos de quinas ao peito. Entre o ser avançada ou média a organizar o ataque, vai fazendo um pouco de tudo surgindo por todo o terreno e desgastando-se em demasia.

Dolores Silva é a única peça unânime de um meio campo também ele muito pouco consensual. Tatiana Pinto e Fátima Pinto são a força motriz do Sporting. Francisco Neto convoca-as mas pouco jogam e nunca ao mesmo tempo. Também Andreia Veiga (Futebol Benfica) já demonstrou qualidades que justificam mais oportunidades.

Na defesa, Matilde Fidalgo a lateral direito (Futebol Benfica) é outra das poucas jogadoras consensuais. Depois há o caso das defesas centrais. Em praticamente todos os jogos revelam dificuldades e lentidão mas isso pouco parece importar ao selecionador. Bruna Costa é ainda muito jovem (é internacional sub-19) mas por ventura já é melhor que a sua colega no Sporting, Matilde Figueiras, que só por si já reclama oportunidade. Ainda mais Filipa Rodrigues, pela sua qualidade evidenciada no Estoril-Praia. Filipa Patão, bicampeã pelo Futebol Benfica, terá assuntos extra a resolver com a seleção. Que os resolvam rapidamente pois é para muitos a melhor defesa central portuguesa e a seleção precisa da sua qualidade.

Esta nossa seleção feminina é pois um autêntico compêndio de erros táticos e escolhas difíceis de compreender. Conseguiu qualificar-se para o europeu com o mérito e trabalho de todos mas precisa urgentemente de uma liderança diferente, com ou sem Francisco Neto. Precisa de lançar as melhores jogadoras sem olhar a clubes ou onde jogam. Tem que se evitar cometer os erros de sempre. Os adeptos pedem o fim de compadrios e interesses pessoais. Esta seleção tem que ser de todos nós!

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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