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A Sangue Frio

Diz-nos Manuel Gusmão que “nós também somos feitos pelos livros que nos marcaram, pelos filmes que vimos e pelas músicas de que gostamos”. A ser verdade, A Sangue Frio é um dos livros que deveria constar na nossa biblioteca pessoal, já que dificilmente deixa algum leitor indiferente.

O livro da autoria do jornalista Truman Capote relata um caso real noticiado no jornal New York Times, apresentado sob a forma de literatura – um romance não ficcionado, como o próprio autor a classifica. Ao transformar um artigo de 300 palavras sobre um crime que chocou o país naquela que se tornaria na sua maior obra, Capote consegue agarrar o leitor a uma história cujo desfecho já todos conheciam.

Editado em 1966, In Cold Blood – na sua forma original – tem bem presentes características do jornalismo, que são percetíveis não só na linguagem utilizada, mas também na forma como a narrativa se apresenta. O primeiro capítulo assemelha-se a um lead, senão vejamos:

“Na aldeia de Holcomb” encontramos a resposta ao “onde?”. Uma terra no Oeste do estado norte-americano de Kansas habitada por duas centenas de pessoas, em que todos se conheciam e onde ninguém trancava a porta de casa, tal era o recato que ali se vivia. Quando? Na madrugada de dia 15 de Novembro de 1959.

A família Clutter e os dois responsáveis pelo crime servem de resposta ao “quem?”. Comecemos pela família Clutter: uma família rica, religiosa e respeitada por todos os habitantes da cidade. Herb Clutter, o patriarca de família, dono de uma quinta abastada que conquistou com o seu trabalho honesto, onde inicialmente chegou a trabalhar 18 horas por dia. Bonnie, a sua esposa, era uma mulher de saúde frágil devido a várias depressões pós-parto e, por isso, quase nunca era vista, já que vivia confinada ao próprio quarto. Nancy, a filha, uma adolescente com comportamentos de adulta, devido à debilidade da mãe. Cozinhava para a família, representava e ajudava os mais novos nas mais diversas tarefas sempre que era solicitada. Tudo isto contribuía para que fosse vista como “a menina querida da terra” e a quem a professora de economia doméstica apresentava como exemplo por a considerar “uma senhora”. Kenyon Clutter, o filho mais novo, não se parecia fisicamente nem com a mãe nem com o pai: aos quinze anos era já mais alto do que o pai, mas também magro e descoordenado. Tinha uma personalidade tímida que se assemelhava à da mãe, embora com alguns traços de rebeldia.

Os autores do crime: Perry Smith e Dick Hikcock. Dois jovens adultos, que se conheceram na prisão, onde foram companheiros de cela. As poucas características que tinham em comum eram colmatadas pelas afinidades superficiais e pelas vantagens que cada um esperava obter da convivência com o outro, ainda que não o confessassem.

O quê? A morte de uma família de quatro pessoas. Anunciada ao leitor de forma direta e crua, sem rodeios ou subterfúgios. Como de resto o faz anunciar o título do capítulo: “As últimas pessoas a vê-los”. A esta forma quase bruta com que nos é anunciado o crime, acrescentam-se os pormenores dos últimos momentos da vida quotidiana tão banal da família, que nos fazem ter consciência da fragilidade da vida humana.

Truman Capote descreve o crime com todos os pormenores, sem recurso a adjetivos ou qualquer tipo de recursos estilísticos. Uma narrativa tão factual e precisa que permite visualizar o cenário de terror vivenciado naquela madrugada de Novembro. O cálculo do crime, a compra dos objetos necessários (luvas, cordas, lanternas…), a viagem de carro até à quinta dos Clutter, a forma como entraram na casa da família e foram ao encontro de Herb Clutter, em primeiro lugar, e aos restantes elementos da família em seguida, tendo-os amarrado e amordaçado. Tudo isto é descrito, deixando perceber entre o horror alguns traços de piedade: “achei que não devia mandá-lo deitar no chão frio, por isso puxei a caixa, alisei-a e disse-lhe que se deitasse lá dentro”. Por fim, a morte com tiros de espingarda, consumando o crime.

Mal os corpos são encontrados inicia-se a investigação a cargo do detetive Alvin Dewey Jr. Aqui começam a surgir conjeturas sobre o que se teria passado. Não restavam dúvidas que se tratara de um crime, mas quem seria o culpado? E seria apenas um ou teriam entrado duas pessoas em casa dos Clutters? Quem seria a vítima por excelência, a principal visada? O namorado da filha tinha sido o último a estar na companhia da família… Seria possível o casal de trabalhadores da quinta que vivia ali tão perto não ter ouvido os tiros de espingarda? Sem nenhuma pista, qualquer um podia ser o responsável. A desconfiança e o medo instalam-se nas famílias que ali vivem, que passam agora as noites acordadas.

Contudo, é o “porquê?” que suscita a maior curiosidade. Qual o móbil de um crime “na aparência tão destituído de finalidade e tão absurdo”? Terá sido o dinheiro? Uma vingança? Nada fazia sentido. “Até o facto de Mr. Clutter ter feito um seguro de vida com dupla indemnização oito horas antes de ter sido morto parecia não passar de uma coincidência”.

Após o crime, os assassinos fogem para o México, mas a ganância e a convicção de que não poderiam ser associados ao crime, leva-os de volta ao Kansas, onde percorrem a cidade durante um dia com um carro roubado a distribuir cheques falsos – delitos que se tornam comuns ao longo da fuga. A polícia, já no seu encalço, avista-os, mas não os consegue apanhar. Ainda assim, a fuga não dura muito: já em Las Vegas, em frente aos correios e completamente desprevenidos, acabaram por ser capturados. São presos em Janeiro de 1960.

É neste ponto que começamos a conhecer com detalhe os autores do crime, a partir da descrição minuciosa das suas infâncias e início da vida adulta. Tratando-se de figuras reais, apresentam uma complexidade psicológica muito diferente das personagens tipo a que nos habituam outras obras. Dick planeara o crime, mas foi Perry o autor das quatro mortes. É este quem acaba por ter mais destaque. Perry teve uma infância marcada pelo sofrimento. Entregue a um reformatório, era desprezado pelas freiras, a quem passou a odiar. Apesar da pouca escolaridade que teve, preocupava-se em ter uma letra bem desenhada, gostava de ler e colecionava palavras para aumentar o seu vocabulário. Tinha também sensibilidade artística: compunha canções e tocava guitarra. O autor serve-se de cartas, poemas e pequenos apontamentos escritos do quotidiano de Perry para mostrar ao leitor quem era aquele homem no seu todo. E é esta narrativa exaustiva que nos faz ver um lado humano na figura que até ali se apresentava como um monstro.

Depois de julgados e de sucessivos recursos, são condenados à forca em abril de 1965. “ [Alvin] Dewey fechou os olhos; manteve-os fechados até se ouvir o estalido que faz uma corda a quebrar os ossos do pescoço. Tal como a maioria dos americanos, Dewey está certo de que a pena capital é um antídoto do crime e acha que, se alguma vez esta foi merecida, era no caso presente”.

A Sangue Frio é uma obra surpreendente e, simultaneamente, chocante, por partir de um crime real. Para reconstruir o crime, o autor teve acesso a fotografias da família morta, relatórios das autoridades, o diário de Nancy e muitas horas de conversas com os suspeitos, até porque a fonte principal do nosso conhecimento jornalístico são os outros.

Por adicionar à escrita jornalística técnicas usadas na literatura, T. Capote põe em causa a ditadura da objetividade que é encarada por alguns profissionais como um espartilho incómodo. Porém, esta liberdade põe também em causa a veracidade de alguns dados relatados.

Um século antes, Liev Tolstoi tinha já utilizado uma narrativa com a mesma forma, na obra “Sonata a Kreutzer” – cujo título se deve à composição de Beethoven com o mesmo nome -, que se inicia com o assumir do assassínio de uma mulher pela voz do responsável, o marido. A ter uma composição sonora, a de A Sangue Frio seria certamente o declamar da “Balada dos Enforcados” de François Villon, com que T. Capote preenche as primeiras páginas da obra.

Carla Sofia Maia

Olá! O meu nome é Carla, tenho 27 anos e nasci em Vila do Conde, uma pequena cidade no Norte de Portugal. Talvez por ter crescido numa cidade pequena, desde cedo tive o sonho de viajar pelo Mundo e conhecer outras pessoas e culturas. Aos 18 anos, mudei-me para Coimbra onde estudei Jornalismo e Comunicação. Ao longo dos meus estudos, tive a oportunidade de conhecer pessoas de todas as partes do Mundo, o que reforçou a minha vontade de ter uma experiência além-fronteiras. Foi em 2017 que conheci o Serviço Voluntário Europeu e tive a certeza de que era algo que fazia todo o sentido na minha vida: fazer voluntariado noutro país, tendo a oportunidade de aprender outra língua era algo que eu desejava. Actualmente estou a viver em Bordeaux, onde sou voluntária de uma instituição europeia e posso dizer que estou muito feliz por ter sido aceite neste projecto, em que sou embaixadora dos valores europeus. Escrever é uma paixão que vi reforçada com esta nova experiência, em que há tanto para contar. Boas leituras!

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