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A Ressaca de Vilar de Mouros

Não interessa se teve, ou não muita afluência, se superou, ou não as expectativas, o que interessa é que “Vilar de Mouros voltou”! Por algum motivo esse foi o slogan mais badalado. A sede do seu regresso era muita. A edição de 2014 foi sinónimo de saudosismo. Quem fez parte do seu regresso tem todos os motivos para se sentir parte da sua História. Foi exactamente isso que aconteceu durante três dias – História.

A primeira edição da nova etapa do festival só fazia sentido se honrasse algumas das bandas que pisaram o palco desta aldeia minhota, durante 35 anos. Foi isso que aconteceu. Sem esquecer os artistas portugueses. Afinal, o objectivo era renascer a mística do Woodstock português.

Dia 1

Os escolhidos para inaugurar o palco principal foram os Capitão Fausto, os Trabalhadores do Comércio, os Blind Zero, La Union e os UB40.

Os portugueses da banda Capitão Fausto, ainda que sendo os mais fracos da noite, deram logo a demostrar o ADN de Vilar de Mouros – o rock e a adrenalina.

Trabalhadores do Comércio foram iguais a si próprios, reivindicativos nas músicas, sem esquecer o “Chamem a Polícia”, mas orgulhosos por voltarem a pisar um dos locais mais emblemáticos da música portuguesa. Ainda houve tempo para Marta  Ren cantar o  tema “De manhã eu vou ao pão”.

A seguir deu-se um dos pontos altos da noite, depois de UB40 (mas já lá vamos). Os responsáveis foram os Blind Zero na voz de Miguel Guedes. Pela primeira vez, os festivaleiros que se encontravam no recinto deram sinais de vida, reagindo ao pop-rock comercial da banda portuguesa.

Os madrilenos de La Union, que se acredita terem atraído alguns espanhóis, demonstraram estarem para a idade como o vinho do Porto. A energia e a boa disposição foram contagiantes, os mais velhos não quiseram deixar passar a oportunidade para darem alguns passos de dança, já os mais novos, afastaram-se.

Regressariam para escutar os UB40. Os mais aclamados da noite. Quem achava que estes “jovens” já deviam ter pendurado as botas há muito tempo, teve uma surpresa agradável. O reggae dos UB40 tem tudo para continuar. Foi o concerto que mais marcou o primeiro dia.

Dia 2

O dia 1 de Agosto foi dedicado aos monstros da música: José Cid, Blasted Mechanism, The Stranglers e Pedro Abrunhosa.

O regresso do pai dos festivais não seria o mesmo sem a presença de José Cid. Já em 1971 este artista português tinha sido um dos pioneiros do festival e voltou a sê-lo, em 2014, no ano do renascimento de Vilar de Mouros. Com uma moldura humana mais composta, do que no dia anterior, Cid apresentou-se ao público com o álbum “Dez mil anos depois”, considerado um dos 100 melhores álbuns de rock progressivo de todos os tempos pela Billboard, como fez questão de sublinhar. Houve ainda tempo para cantarolar alguns dos seus temas mais conhecidos – “A Cabana junto à praia”, “ Chamar a música” e “Cai neve em Nova Iorque”. Na parte final do concerto, Tozé Brito foi o convidado de honra e até ajudou Cid a cantar “A lenda d’el Rei D. Sebastião”.

A noite indicava que ia ser memorável. O que se seguiu foi prova disso mesmo. Os Blasted Mechanism arrebentaram com tudo. Foi preciso chegar ao segundo dia para o público levantar a poeira do chão. Valeu a pena esperar.

A banda londrina Stranglers era a mais aguardada, especialmente pela faixa etária mais velha. Acabaram por desiludir, demonstraram já não ter o mesmo power de outros tempos. Os melhores momentos do concerto deram-se apenas quando tocaram os badalados “Golden Brown” e “Always the sun”.

A chuva já tinha dado a sua graça, mas seria com o aparecimento de Pedro Abrunhosa que esta se intensificaria. Nada que o tenha intimidado a ele e ao público. Foi o concerto mais interactivo da edição deste ano de Vilar de Mouros. Abrunhosa convidou os fotógrafos e os festivaleiros a subirem ao palco, para cantarem com ele os seus maiores sucessos.

Dia 3

2 de Agosto, o melhor dia do festival. O cardápio já indicava que seria assim – The Legendary Tigerman, Deolinda, Xutos e Pontapés, Tricky e Guano Apes.

Dificilmente poderia ter começado de melhor maneira. The Legendary Tigerman, nome artístico de Paulo Furtado, mostrou claramente estar na sua praia. No seu estilo singular, tocou muito rock’n’roll, levando muitas cabeças a abanarem o capacete. Quem não conhecia o seu trabalho, certamente que ficou fã. Os aplausos foram muitos.

Ana Bacalhau dos Deolinda não ficou intimidada com a performance do seu colega, até o convidou para um dueto. Apresentou-se cheia de garra, deixando o público rendido ao seu talento. Aliás, os festivaleiros foram o seu coro, ao longo duma hora.

Xutos e Pontapés provaram o porquê de ser a banda de rock com mais sucesso de Portugal. Vilar de Mouros quase que vinha abaixo e ainda faltava actuar os cabeça de cartaz – Guano Apes. “Minha casinha”, “Maria”, “Contentores” foram as músicas mais cantadas da noite.

Seguiram-se os Tricky. É difícil de explicar o concerto. O ambiente era no mínimo obscuro. O vocalista Adrian Thaws não parecia estar nos seus melhores dias, além de uns grunhidos pouco mais se ouviu. No recinto, um número considerável de festivaleiros aproveitaram o momento para descansar as pernas no relvado.

Por fim, Guano Apes. Uma loucura. Foi a única vez, em três dias, que se viu moches. Notou-se que o público estava ansioso por ver a banda alemã actuar. Do outro lado, no palco, a satisfação era notória nos rostos. Vilar de Mouros foi ao rubro com “Opens your eyes”, “Oh what a night” e “Big in Japan”.

Esta foi a História do tão desejado regresso do Festival Vilar de Mouros. Tudo leva a crer que no próximo ano, ainda vai ser melhor. Como se ouviu a cada canto no recinto – “Vilar de Mouros merece”. Até para o ano, lá estaremos.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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