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A Relembrar… Breaking Bad

“A Química é… bem, técnicamente, a Química é o estudo da matéria, mas eu prefiro vê-la como o estudo da mudança. (…) É o crescimento… depois a decadência… e, no fim, a transformação.”

Estas foram as palavras de Walter White (um professor de Química subvalorizado, um génio sem reconhecimento e o azarado protagonista do êxito de televisão Breaking Bad) ditas durante os primeiros sete minutos do piloto da série, mas que se tornaram num prognóstico dos eventos que se desenrolaram ao longo dos 62 episódios que a série teve. Apesar de breve, este monólogo carrega em si uma mensagem poderosa: Breaking Bad é a história da transformação de Walt de Mr. White em “Heisenberg”, de um simples homem de família num barão da droga.

Quando comecei a ver esta série, em 2008, era um programa de televisão que poucos conheciam e centrava a sua história em torno de um professor de Química do liceu, que tinha uma vida calma, mas que ecoava um silencioso desespero, até que descobre que está a morrer com cancro. É então que decide criar uma parceria com um antigo aluno seu, Jesse, para produzirem e venderem droga, para conseguirem ganhar muito dinheiro de forma muito rápida. Assim, o professor de Química espera conseguir garantir o futuro da sua família, quando ele já cá não estiver. Na altura, Breaking Bad pareceu-me uma história que podia ter saído da mente de Anton Tchekhov, com as suas tribulações para compensar uma vida de falhanços. A única razão que me fez seguir a série foi Bryan Cranston, no papel principal de Walter White.

Mal sabia eu o quão enganado estava. Esta série não era um Tchekhov nos subúrbios. Era, tal como as subsequentes temporadas mostraram, Dostoevsky no deserto. O retrato da ascensão de um homem a rei do crime e a sua queda na depravação moral. Numa extraordinária actuação, Bryan Cranston consegue envolver-nos em cada passo que dá. Só é possível compreender a escala daquilo que conseguiu alcançar comparando os posters promocionais da primeira e da última temporada da série. Na sua estreia, Walter White aparece com ar um pouco ridículo, com cuecas brancas e a segurar uma arma de uma forma que sugere que ele não sabe como usá-la. Nas promoções da última temporada, é um monstro que nos olha, uma sombra de difícil reconhecimento. É um homem diferente, mas, em simultâneo, continua a ser o mesmo homem. É o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde.

Como Breaking Bad tem a decadência moral de Walter no seu centro de foco, é importante que a história apresentada seja credível. Os argumentistas não podem mostrá-lo, num episódio, como um homem de família sem qualquer falha e, depois, coloca-lo a matar animais e pessoas. Simultaneamente, a sua queda deve ser feita de forma gradual, para conseguir manter a nossa atenção presa. Porém, a série consegue gerir estes dois desafios na perfeição. A primeira vez que mata alguém ocorre logo no primeiro episódio e é feito em legítima defesa, ficando claramente traumatizado pelo que fez. À medida que a narrativa vai avançando e o número de mortes vai aumentando, as justificações de Walt vão-se tornando, cada vez mais, débeis e as suas reacções ambivalentes. Nas últimas temporadas, chega a ordenar a morte de várias pessoas com total indiferença pelo valor da vida. Estes sinais de predileção pelo assassinato, contudo, não são as únicas indicações da sua corrupção moral.

A forma como as opções de Walt são explicadas por motivações progressivamente nobres também revelam a sua cada vez maior depravação. A ganância tem um grande peso na sua tomada de decisão, já que o grande objectivo da produção de metanfetaminas é o ganho de dinheiro. Só que este pecado, em termos comparativos, vem em segundo lugar na sua personalidade, sendo apenas vencido pelo seu maior pecado – o orgulho. É possível ver a manifestação desta característica, quando ele recusa a generosa ajuda de um amigo rico para pagar as suas despesas médicas. Nunca é fácil aceitar grandes gestos de caridade, mas, ao recusar a ajuda do seu amigo, Walt escolhe conscientemente a vida de crime em vez de engolir o seu orgulho.

As escolhas irracionais tornam-se num tema recorrente para esta personagem, ao longo da série. A pouco e pouco, começamos a ver uma preocupante alteração das suas prioridades. Enquanto os milhares que ele ganha inicialmente se transformam em milhões, os negócios de Walt vão-se tornando cada vez menos sobre o sustento da sua família e mais sobre uma forma de se manter relevante. Passa a ser apenas um jogo de números. Independentemente de ser a percentagem de pureza da droga ou do valor que ganha, o importante é que seja aquele que tem o maior número. O problema é que, possivelmente, Walt acaba por se apaixonar pela qualidade do seu trabalho com a produção de metanfetaminas, ao ponto de se tornar num meio de provar, finalmente, o seu génio na Química.

No meio desta descida aos infernos, encontra-se o espectador, que não sabe como responder a esta extraordinária metástase, em que o mal se vai espalhando pelo seu ser, tal como o cancro lhe vai conquistando o corpo. Por cada vez que Walt tem a oportunidade de sair do negócio da droga e não o faz, existem momentos em igual número em que a sua redescoberta confiança e crueldade o tornam (na falta de melhores termos) numa personagem má extremamente apelativa. Sobreviver no mundo da venda de droga ilegal requer uma grande dose de coragem e, enquanto o fraco e tímido Walter White não é capaz de o fazer, o lendário “Heisenberg” está mais do que apto para a tarefa.

Breaking Bad é excelente, mas não é perfeito. No seu início, somos apresentados a memórias intrigantes da vida de Walter, dando sinais da existência de um mistério no seu passado, mas, com o passar dos episódios, este caminho é abandonado sem cerimónias. Outro ponto um pouco negativo é o facto desta ser uma série sobre homens, sendo que as mulheres são apenas observadoras passivas e o seu desenvolvimento é apenas feito como uma consequência das acções de outros homens. Para além disso, os reis do crime importam-se assim tanto com a qualidade da metanfetamina que vendem, que pagam milhões a estes dois produtores de droga?

Enquanto esteve no ar, a série foi adjectivada como o futuro dos programas de televisão e com toda a razão, porque dá tempo aos actores para demonstrarem as suas qualidades de representação e dá espaço para que as personagens se consigam desenvolver correctamente. A bizarra trajectória da relação professor-pupilo com Jesse, o melhor companheiro da história da televisão, está no coração da história e, desde o seu início, o deserto mexicano é uma constante presença narrativa. Através desta série, também foi possível perceber a forma como as audiências procuram por bons programas de televisão: ao fim de duas temporadas, Breaking Bad quase foi cancelada, mas, graças ao passa a palavra e as boas críticas na imprensa especializada, os espectadores começaram a procura-la online, ou no seu videoclube.

Quando, em 2008, comecei a acompanhar o percurso de Walter White e de Jesse, perguntei-me a mim mesmo: O que é que Walter estava a preparar? Serão as suas escolhas um grito de desespero perante uma morte eminente? No fim, percebi que a resposta a estas questões era bastante simples, porque ele fez questão de o explicar. E, no fim, realmente tudo ganha um novo sentido.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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