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CinemaCultura

A Rapariga No Comboio

Depois de serem vendidas mais de oito milhões de cópias, A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins dá agora o salto da literatura para o cinema. O romance, apresentado como um thriller de suspense, ocupou a lista de best-sellers do jornal The New York Times e esteve mais de vinte semanas consecutivas no topo das vendas no Reino Unido, superando o recorde que pertencia a Dan Brown (o autor de O Código da Vinci, Anjos e Demónios e de Inferno, este último cuja adaptação tem estreia agendada para o próximo dia 13 de outubro). Já em Portugal, foram vendidos mais de 66 mil exemplares, e a obra continua a captar milhares de fãs em todo o mundo.

Ora, percebendo de imediato a força impetuosa do livro no mercado, os estúdios de Hollywood não descansaram enquanto não adquirissem os direitos, sendo exactamente a produtora DreamWorks Pictures, a responsável por garantir a estreia de A Rapariga no Comboio, logo no ano da sua primeira edição.

A história é muito simples: todos os dias, Rachel apanha o comboio para Nova Iorque. No caminho para o trabalho, observa sempre as mesmas casas e o mesmo casal, ao qual decide atribuir nomes e vidas completamente imaginárias. Aos olhos de Rachel o casal tem uma vida perfeita, aquilo que entretanto perdeu. Até ao dia que assiste a algo errado com o mesmo, uma imagem fugaz, mas que a deixa perturbada. A partir daqui, Rachel torna-se parte integrante de uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, afectando as vidas de todos os envolvidos.

A Rapariga no Comboio

Em muito supõe-se que esta história, tal como o livro, seja um êxito de bilheteiras e mesmo aqueles que ainda não tiveram tempo para a ler, ficarão certamente entusiasmados pela sua gigantesca mediatização, que inclusive recupera tantas outras, relativas ao meio de transporte moderno que mais suspense tem vindo criado no grande ecrã. Filmes como O Expresso de Xangai (Shanghai Express/ 1932), de Josef von Sternberg; Desaparecida! (The Lady Vanishes/ 1938), de Alfred Hitchcock; Breve Encontro (Brief Encounter/ 1945), de David Lean; O Desconhecido do Norte Expresso (Strangers on a Train/ 1951), também de Alfred Hitchcock; Um Crime no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express/ 1974), de Sidney Lumet; ou os mais recentes Comboio Nocturno para Lisboa (Night Train to Lisbon/ 2013), de Bille August ou Expresso do Amanhã (Snowpiercer/ 2013), de Joon-Ho Bong transportam a imagem do comboio na tela, de cima para baixo, da esquerda para a direita, no constante jogo de campo – fora de campo. A valer, relembre ainda que o êxtase gerado em torno d’A Rapariga no Comboio provém das comparações feitas com Em Parte Incerta, o romance de Gillian Flynn adaptado ao cinema pelo mestre David Fincher. Ambos aproximam-se na temática de ‘thriller’ e por quererem mostrar mulheres à beira de um ataque de nervos, que desaparecem sem deixar qualquer rasto – em breve o thriller Maestra, redigido pela historiadora de arte L.S. Hilton, deverá seguir o mesmo caminho.

De facto, Rachel Watson não é a mulher desaparecida, mas está envolvida no mistério. Contudo e muito lamentavelmente, A Rapariga no Comboio, em vez de seguir a herança dos projectos já citados, prova ser apenas um produto para fazer dinheiro, um inerente blockbuster. Mesmo que o quotidiano de Rachel possa gerar o interesse da audiência, a protagonista Emily Blunt (talentosa pelos seus desempenhos em Sicário – Infiltrado e No Limite do Amanhã) não está um verdadeiro caco como a Rachel do livro. Não é literalmente a mulher gorda ou feia, como a própria repete nas páginas do romance, mas a culpa não é da actriz de 33 anos. Reconhecemos, que a sua escolha de casting não foi a mais feliz, sobretudo com a situação tensa que se vive no cinema mundial (de igualdade e justiça para todos). Desde que se confirmou que Blunt seria protagonista, muitos fãs expressaram que Renée Zellweger (a intérprete de Bridget Jones) ou até mesmo Olivia Colman (da série The Night Manager) teriam sido escolhas mais adequadas.

Outro aspecto a lamentar é que o filme não repensa com a mesma seriedade alguns problemas das personagens. O alcoolismo, o divórcio, a ninfomania, a depressão e o trauma são desperdiçados em variadas situações, num argumento que tende a lançar piadas secas e a valer-se sobretudo do suspense em torno do desaparecimento de uma mulher, ser ir ao âmago das relações humanas que o espoletara – vejam-se algumas sequências, que serão familiares ao jovem público fã de As Cinquenta Sombras de Grey.

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Acresce ainda o facto de muitos elementos do livro serem modificados, sem necessidade, só para ir na onda comercial. Primeiro: o filme desenrola-se em Nova Iorque, enquanto que o livro situa-se na nebulosa cidade de Londres. Irónico é porventura descobrir que existem no elenco alguns nomes britânicos: Emily Blunt (a única que parece falar com sotaque), Rebecca Ferguson (a sueca de Missão Impossível que é filha de mãe inglesa e que estudou num colégio britânico) e Luke Evans (natural do país de Gales), três personagens chave da trama. Segundo: a bebida preferida de Rachel teve que se enquadrar nos padrões americanos, deixando de ser o gin tónico em lata e passando a ser vodka. Terceiro: uma das personagens secundárias, Kamal Abdic (interpretado pelo venezuelano Édgar Ramírez) fala espanhol numa determinada cena, quando a sua origem era asiática (ao que parece Hollywood ainda não sabe distinguir uns povos dos outros). Poderíamos juntar outros tantos elementos – como por exemplo a suavização de todo o passado negro de Megan, bem como do final deprimente e surpresa do livro.

Entretanto, no restante elenco salva-se apenas Justin Theroux, o americano casado com Jennifer Aniston que dá provas da sua versatilidade, uma vez, que além do thriller, já participou em algumas comédias como Zoolander 2 e Amor e Outras Cenas.

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Fica igualmente registado a tentativa de tornar A Rapariga no Comboio num melodrama hitchcockiano, na medida em que incorpora a fragilidade feminina, aliando-a às “brancas” de memória de Rachel e aos seus pesadelos, bem como a agressões, masoquismo e (cuidado SPOILER!!) aos maridos que tendem a ser excessivamente agressivos. Pânico, histeria são entretanto aspectos que A Rapariga no Comboio incorpora, mas faltavam-lhe algumas condições para ser um dos grandes filmes do ano, e um dos maiores da temporada de prémios que se avizinha.

Veja-se também como, numa dimensão cénica da mise-en-scène, A Rapariga no Comboio parece habitar-se num cubo fechado, onde as personagens não têm muito por onde navegar. De um ponto de vista estético o filme parece estar sob a chancela de um certo perfeccionismo. Quer isto dizer que a posição dos actores e os movimentos de câmara são muito limitados, preferindo grandes planos do rosto das personagens, e poucos planos de corpo inteiro. Algumas cenas parecem até imitar uma estética televisiva, aliás a argumentista Erin Cressida Wilson trabalha no meio do entretenimento do pequeno ecrã (foi uma das escritoras da série Vinyl), transformando-se num misto das actuais séries policiais em exibição.

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Uma opinião sobre a realização inquieta de Tate Taylor que colocar tudo simultâneo, para elucidar um ‘falso’ suspense. Mesmo assim, não pense que todas as adaptações de Hollywood são tão desapontantes. Quase impossível imaginar que Taylor foi responsável pelo brilhante As Serviçais, visto por alguns como uma obra politicamente correta, mas que também partiu de um livro de uma mulher – da americana Kathryn Stockett. Contudo, ao contrário de A Rapariga no Comboio, The Help, no originalera bastante fiel à obra. Enfim, não é este o melodrama feminino do ano, mas é um bom caso de estudo sobre que caminho as adaptações deverão escolher, tal como o espectador deverá decidir se apanha o comboio que parte num só sentido, ou aquele que o fará trocar de linha vezes sem conta.

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Virgílio Jesus

Licenciado em Ciências da Comunicação e com Mestrado em Cinema e Televisão pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou um apaixonado por cinema desde os meus 10 anos. Todos me conhecem como o 'viciado em filmes' porque na realidade estou sempre interessado em ter a sétima arte como tema de conversa.

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