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A rapariga da bicicleta

Todos os dias a rapariga passava à porta da casa de Marco. Todos os dias pedalando a sua bicicleta cor de laranja com um cesto tapado por um pano. Todos os dias fazia Marco suspirar pela sua beleza.

Chegava a mais ansiada hora do dia e ele corria para a janela e esperava pacientemente. Em pouco tempo ela aparecia e Marco via-a a passar com o seu longo cabelo solto a ondulante a tingir o ar com os perfumes da primavera e o seu sorriso a iluminar o dia com as cores da beleza. Marco apaixonou-se e viu-se a desejá-la. Pegou em todas as moedas que tinha, tirou do seu esconderijo todas as notas que conseguiu juntar nos últimos anos e foi à loja de bicicletas. Não viu nenhuma como a que a rapariga tinha, nenhuma com aquele encanto. Apenas conseguiu trazer a que podia, a mais barata, usada e apodrecida, cor de ferrugem equilibrada com um branco sujo lascado. Não se importou, a bicicleta não importava. Só pensava nela e nele com ela.

No dia seguinte, Marco esperou na rua com a sua bicicleta usada. Viu a rapariga surgir no fundo da rua, já o seu sorriso iluminava. Preparou-se e assim que ela se aproximou, ele sorriu-lhe e lançou-se na sua perseguição. Pedalaram, ele atrás dela, por ruas e vielas da vila cor de rosa com as suas casas de tijolo vivo a contrastarem com o laranja da bicicleta da rapariga. Viraram à esquerda, depois à direita, de novo esquerda, ela a ditar as regras da corrida, a escolher as ruas, a impor a distância, a limitar o que dela o deixava ver.

Marco refreou-se e cedeu ao cansaço. Parou e viu-a a distanciar-se. Ao fundo da rua, ela parou e olhou para ele. Ofereceu-lhe um ruidoso beijo atirando-o com a mão. Marco recolheu-o ainda ofegante e colocou-o junto ao coração, depois sorriu e ela desapareceu. Nos dias seguintes Marco passou os dias a pedalar pelas ruas da vila num treino incessante. Apenas parava à hora em que ela ia passar pela sua casa. Colocava-se no meio da rua e deixava-a escolher porque lado passar. Cumprimentavam-se em silêncio, apenas com sorrisos comprometedores.

Quando se sentiu preparado, esperou-a de novo na sua bicicleta. Ela ao vê-lo percebeu que por fim ele estava preparado para a ter. Parou antes de chegar a ele, baixou o rosto tapando-o com o cabelo ondulado e passou os dedos pelo interior da sua camisa. Depois olhou Marco fixamente nos olhos enquanto levantava um pouco da sua saia, como que lhe revelando o prémio que podia ter por não desistir desta vez. Pedalou e passou por Marco, ele perseguiu-a. De novo percorreram as ruas da vila, uma atrás de outra, todas elas sem importância. Não era o caminho que interessava, não eram as ruas e os jardins, as lojas, o sol, os aromas, os pássaros, as pessoas. Apenas eles interessavam e apenas eles existiam. Pedalaram a cada pulsação, a cada batida dos seus corações. Por fim ela deixou-se apanhar ao chegarem a um jardim relvado, ele tocou-lhe na mão e ambos caíram rebolando na relva fresca, amparados um pelo outro. Sorriram e beijaram-se.

Pegaram nas bicicletas e seguiram o resto do caminho a pé, de mãos dadas. Chegaram a um pequeno prédio com uma pequena mercearia vermelha, encostaram as bicicletas e subiram ao primeiro andar. Ela despiu-se e entregou-se a ele. Ele recolheu o seu prémio e recebeu-a no corpo. E amaram-se até ao fim dos seus dias.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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