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A Rainha dos nove dias

Há 461 anos, em Julho, mais propriamente ao décimo dia do mês de Julho, iniciaria um dos mais curtos reinados de sempre da história de Inglaterra e até Mundial. Trata-se do reinado de Lady Jane Grey (1537-1554), que duraria apenas 9 dias.

Jane era sobrinha-neta de Henrique VIII (1491-1547), tendo nascido em 1537, no mesmo mês que o filho deste monarca com a sua terceira mulher, Jane Seymour (c. 1508-1537) e seu sucessor, Eduardo VI (1537-1553). Era filha de Henrique Grey (1517-1554), 1º Duque de Suffolk e 3º Marquês de Dorset, e de Lady Francis Brandon (1517-1559). Lady Francis era filha de Charles Brandon (c. 1484-1545) e da irmã de Henrique VIII, Maria Tudor, (1496-1533), que fora anteriormente Rainha de França, pelo seu casamento com Luís XII (1462-1515).

Relativamente baixa, o que a obrigava a usar sapatos de plataforma, era loura e magra. Teve uma forte educação humanista, tendo estudado latim, grego e hebraico, sob a supervisão de John Aymler, da Universidade de Cambridge, também ele responsável pela educação da futura Isabel I. Considerada uma das mulheres mais cultas da sua época, mas também uma acérrima defensora do Protestantismo, provavelmente por os seus pais terem querido que um dia casasse com o seu primo, Eduardo VI, o que não viria a acontecer.

Lady Jane Grey
Lady Jane Grey

Na verdade, Jane Grey casou, contra sua vontade, em Maio de 1553, com Lord Guilford Dudley (c. 1535-1554), o filho mais novo de John Dudley, 1º Duque de Northumberland (1504-1553), regente em nome de Eduardo VI, visto este ser menor de idade. Este nomeia Jane sua sucessora no trono inglês, ignorando as reivindicações das suas meias-irmãs, Maria (1516-1558), filha da primeira mulher de Henrique VIII, Catarina de Aragão (1485-1536), conhecida por Bloody Mary pelas perseguições sangrentas a Protestantes (tal como a mãe, era uma fervorosa Católica) e Isabel (1533-1603), a rainha Virgem, filha do mesmo monarca com a sua segunda mulher, Ana Bolena (c.1501-1536).

De facto, Henrique VIII desejaria que fosse a sua filha Maria quem herdasse o trono, caso Eduardo VI morresse sem descendentes, como aconteceu, tendo deixado estas disposições escritas no Third Sucession Act, em 1543, que readmitia Maria e Isabel na linha sucessória do trono inglês, logo após Eduardo VI. Caso nenhum destes tivesse descendente, seguir-se-ia a irmã mais nova do monarca, Mary Tudor, na linha de sucessão, logo seguida de Lady Jane, não fazendo qualquer referência a sua mãe, Frances Grey.

A opção de Eduardo VI, em parte provocada pela sua entourage, da qual fazia parte o interessado John Dudley, Duque de Northumberland e sogro de Jane Grey, que tinha como objectivo manter afastado o Catolicismo de Inglaterra, pois isso implicava um retrocesso na reforma na Igreja Anglicana, cujo chefe máximo era o próprio Rei. Caso Maria, a sua herdeira presuntiva, se tornasse rainha de Inglaterra, o Catolicismo seria reinstalado, o que, de facto, viria a acontecer. Assim, redigiu um testamento declarando legítima a sucessão por via masculina que descendesse de Frances Grey, que era inexistente, nomeando, por isso, a sua prima Jane Grey como sua sucessora. O seu testamento, transformado em carta patente em 21 de Junho, foi assinada por 102 notáveis, nomeadamente todos os membros do Concelho Privado, pares, bispos e juízes. Embora o seu desejo fosse que a carta fosse sancionada pelo Parlamento, em Setembro, morreu antes disso, a 6 de Julho.

Maria I de Inglaterra
Maria I de Inglaterra

Assim, a 10 de Julho de 1553, quatro dias após a morte de Eduardo VI, Jane Grey foi proclamada Rainha de Inglaterra e Irlanda. Jane aceita a coroa, embora com relutância. Sinal disso, é o facto de ter recusado nomear o marido como Rei, preferindo nomeá-lo Duque de Clarence. John Dudley, ordena a prisão de Maria, que, no entanto, se refugia em Suffolk. Consciente do apoio da população, em grande medida consequência da popularidade que a sua mãe detinha, Maria não desiste da sua pretensão ao trono inglês. Nove dias depois, entra em Londres e o parlamento inglês declara-a Rainha de Inglaterra, revogando a sua anterior decisão e declarando Jane como usurpadora do trono. Esta e o marido são feitos prisioneiros nesse mesmo dia, sendo encarcerados na Torre de Londres. No mês seguinte, a 21 de Agosto, John Dudley é executado. Em Novembro, é condenada à morte, sendo poupada, devido às boas relações que seus pais mantinham com Maria I. Todavia, em Janeiro/Fevereiro do ano seguinte, ocorre uma rebelião, liderada por Thomas Wyatt (1521-1554), que pretendia impedir o casamento de Maria com Filipe II de Espanha, I de Portugal (1527-1598). Embora Jane não estivesse implicada na rebelião, ela e a sua família são condenadas à morte, sobretudo, por insistência de Filipe II de Espanha, por a considerar uma possível ameaça. Assim, o seu marido é executado em praça pública, no dia 12 de Fevereiro de 1554. No mesmo dia, Jane é também degolada, mas privadamente, por intercessão da sua prima, a rainha Maria I. Cinco dias depois, também o seu pai foi executado.

Os restos mortais de Jane repousam na Capela Real de S. Pedro ad Vincula, a Igreja Paroquia da Torre de Londres, jazendo ao lado de outras figuras da época, acusadas de alta traição: Ana Bolena, Catarina Howard, alguns membros do clã Seymour, entre outros.

 

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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