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À Procura de Sana, de Richard Zimler

Este foi o primeiro e único livro que li deste autor nova-iorquino, que vive no Porto. Não conhecia bem os seus livros, porque, por alguma razão, não me tinham ainda chamado a atenção. Porém, neste caso, não fui capaz de resistir a uma sinopse que fala sobre mistério, suicídio e, mais intrigante ainda, baseado em factos reais. Por isso, este ano, na Feira do Livro, decidi comprá-lo.

No ano de 2000, numa convenção de escritores na Austrália, Richard Zimler conhece uma misteriosa mulher que deixa nele uma forte impressão, talvez pelos gestos que ela faz, sendo dançarina e mimo, ou pela emoção que parece transbordar dela, quando falam. Ela declara-se sua fã e pede-lhe que autografe um dos seus livros, dedicando a Helena. Não estiveram juntos mais do que duas, ou três vezes, em dois dias seguidos, com alguns minutos de uma conversa intensa e, talvez, um pouco misteriosa, mas há algo nela que o faz sentir uma ligação qualquer. Ele sente que deve conhecê-la melhor, que gostaria de falar mais com ela, mas isso não é possível: no dia seguinte, ela suicida-se mesmo em frente dele.

Podemos imaginar o choque que faz com que Richard Zimler não a esqueça e fique, até, com uma espécie de obsessão bastante natural por suicídios e pelas razões que levam tanta gente, e em especial aquela mulher – que ele conhece como Helena –, a suicidar-se. Quando, um ano depois, encontra o livro que autografou nas mãos de uma amiga dessa mulher, que se apresenta como a verdadeira Helena – a mulher da Austrália, na realidade, é Sana –, ele cai numa espiral que o leva, durante três anos, a investigar todos os aspectos possíveis da vida e da morte de Sana.

Acompanhamos as emoções de Richard Zimler e de todas as pessoas ligadas à vida de Sana, enquanto tenta deA procura de sanascobrir a menina árabe palestiniana que ela foi, em Israel, um país com lutas constantes, e que tinha como melhor amiga uma menina judia, Helena. Acompanhamos a luta de Helena para perdoar, compreender e lidar com a perda de Sana, uma pessoa que era quase como uma irmã para ela. Acompanhamos as lutas pessoais de cada um deles, que nada têm a ver com a história de Sana, mas não podemos deixar de ver que tudo o que é humano está sempre ligado. Também acompanhamos a vida, cheia de pedras no caminho, de Sana, desde Israel até à Austrália, desde uma infância complicada em Israel, com uma juventude confusa com perdas trágicas, ao terrorismo bombista e ao 11 de Setembro. No fim, fica a pergunta: quem era realmente Sana? Terá sido suicídio, ou há alguma outra possibilidade?

Richard Zimler monta o puzzle, mas deixa que sejamos nós a descobrir a imagem e a vê-la com os nossos olhos. Com uma escrita muito bonita e aberta, simples de compreender, usa as palavras certas, as metáforas certas, sem tentar ficcionar. Escreveu as pessoas humanas como são, com defeitos, virtudes e feitios, e permitiu que fôssemos nós a decidir gostar, ou não delas. Descobriu várias contrariedades e confusões nas pessoas, mas não as embelezou: deu-nos as cartas todas, para escolhermos nós o que pensar. Disse-nos o que ele pensava, mas deu-nos o que descobriu e deixou que a história se contasse. Afinal de contas, é possível conhecer alguém completamente?

Confesso, é uma história que parece ficção. Daquelas histórias que se fossem inventadas, não imaginaríamos que pudesse realmente acontecer, pois é demasiado incrível, ou demasiado triste. No entanto, não duvido da sua realidade. Afinal, a vida já provou tantas vezes que consegue ser mais incrível e rocambolesca do que qualquer ficção que o homem possa inventar e este é um livro que nos surpreende e mostra que acontecimentos, ou pessoas diferentes da nossa vida, que nunca pensaríamos, podem estar mais ligados do que sequer imaginaríamos.

Li algures que o que nos faz mais próximos uns dos outros não são as características que temos em comum, mas sim, inexplicavelmente, a história pessoal e única de cada um, os momentos mais íntimos que cada um de nós vive, ou viveu. Sem saber explicar bem porquê, é esta a sensação que me fica depois de fechar o livro À procura de Sana.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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