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À procura da melhor explicação

O progresso, o sucesso e o conhecimento ganham o concurso das palavras mais apreciadas pelo ser humano. O que se procura são respostas satisfatórias. São respostas que o levem ao progresso, ao sucesso e que tragam mais conhecimento. No entanto, como têm sido encontradas?

O físico David Deutsch não tem dúvidas: é a ciência que releva a natureza das coisas. Para o investigador, a ciência fornece boas explicações. E o que são boas explicações? “Aquelas que não podem ser facilmente variadas”, diz.

O ser humano sempre desejou o progresso. Não é um desejo novo, mas é um desejo que, aos olhos de David Deutsch, se começou a cumprir nos últimos 40 anos. Foi rejeitada a autoridade dos homens sábios, dos sacerdotes, das tradições e dos governantes, o conhecimento dogmático, e procuraram-se novas respostas. Abriu-se caminho para novas descobertas e para o tão desejado progresso.

Os mitos dominavam a vida dos homens, agora, o raciocínio científico parece ter mudado o mundo. No passado, o que explicava a sucessão das estações? Um mito. Hoje, o que explica? A inclinação do eixo de rotação da Terra.

Hades apaixonou-se por Perséfone e raptou-a. A mãe, Deméter, ouviu os gritos de Perséfone e procurou-a, mas não a encontrou. Decidiu deixar o Olimpo e renunciou às funções divinas até que a filha lhe fosse devolvida. Era a deusa do trigo e de toda a terra cultivada e, por isso, a terra foi ficando estéril. Então, Zeus ordenou a Hades que devolvesse Perséfone, mas a jovem estava ligada ao reino do marido e, por isso, chegou-se a um acordo. Perséfone passaria metade do ano com a mãe, no Olimpo, e a outra metade com o marido, no mundo dos infernos. Assim, segundo este mito, surge a causa do ciclo das quatro estações: quando Deméter tem a filha ao pé de si é o tempo da Primavera e do Verão, quando Perséfone tem de regressar para junto de Hades, Deméter volta a ficar triste e começa, então, o Outono, vem depois o Inverno.

Contudo, se este mito realmente explicasse a sucessão das estações, seria Inverno ao mesmo tempo em todo o mundo e, “se os gregos antigos tivessem descoberto algo sobre as estações na Austrália, poderiam facilmente variar o mito deles”, refere David Deutsch. O físico explica que poderiam arranjar outra explicação que não os levaria a compreender absolutamente nada. Poderiam dizer que, quando Deméter está perturbada, expulsa o calor para o outro hemisfério. Ou seja, esta é uma explicação fácil de variar e, por isso, uma má explicação.

O progresso, de acordo com o físico, só é possível, quando se encontram boas explicações, porque, na ciência, existem duas coisas que podem impedir o progresso: teorias que não podem ser testadas e teorias sem explicações. Porém, para David Deutsch, a mais importante é a última. Por isso, “a busca por explicações difíceis de variar é a origem de todo o progresso”.

O método científico parece aproximar-nos cada vez mais da verdade e o progresso parece ser um desejo alcançado. A ciência renova-se, procura erros nas teorias e novas respostas, mas não dá uma resposta satisfatória para tudo. Os mitos continuam presentes e a busca pela verdade é contínua, porque, ainda, é pouco o que se sabe sobre o Universo.

Em tempos de crise, palavras como progresso, sucesso e conhecimento alegram, ainda, mais os ouvidos. O Homem vive com constante vontade de dominar a natureza, com o constante desejo de que o progresso seja infinito. Para cumprir este desejo, diz David Deutsch, basta encontrar sempre boas explicações, explicações cada vez melhores, mas será que existem sempre boas explicações? Será que o progresso infinito existe?

A ciência tem ganho cada vez mais importância na forma como percebemos o mundo. O raciocínio científico mudou o mundo e o Homem, mas a busca pela verdade passou de gerações para gerações. Resta, agora, saber até onde levará.

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Marisa Mourão

Estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. É apaixonada por uma boa história. Ainda é das que acredita que os media podem ajudar na construção de uma cidadania ativa.

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