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A Primeira Guerra Mundial através da Ciência

O que tornou a Primeira Guerra Mundial tão mortífera, porque os envolvidos usaram tácticas militares do século XIX, mas com recurso a tecnologia do século XX. No início do conflito, a cavalaria era a principal linha de ataque militar e as altas patentes militares acreditavam que esta guerra iria seguir os mesmos passos que a anterior grande guerra na Europa, a Guerra Franco-Prussiana. Combatida da mesma forma que as Guerras Napoleónicas de início do século XIX, a guerra entre a França e a Prússia ensinou a muitos estrategas do exército que uma boa ofensiva poderia vencer qualquer defesa. Ou dito por outras palavras, um exército que ataca consegue sempre ultrapassar um inimigo que está sempre na defensiva.

No entanto, a Guerra Civil Norte-Americana demonstrou que este pensamento não correspondia sempre à realidade. A combinação de armas mais eficazes, de artilharia mais poderosa e a mobilidade que os caminhos-de-ferro permitam ter levou a uma melhoria da capacidade de defesa das tropas. Na realidade, a Batalha de Petersburg, pouco tempo antes desta guerra, demonstrou o que soldados a lutarem nas trincheiras conseguiam alcançar, ao lutarem de forma defensiva. Foram precisos 9 meses para que as tropas da União, sob o comando de Ulysses S. Grant, conseguissem destruir as linhas defensivas da Confederação e só com um elevado custo humano. Os observadores europeus, em contrapartida, não levaram a sério estas lições e acreditavam que uma situação similar nunca poderia acontecer na Europa mais civilizada. Tal como se veio a comprovar, eles estavam muito errados e só o compreenderam à custa de milhões de vidas.

Adeus ao Antigo, Olá ao que é Novo

A Primeira Grande Guerra introduziu as metralhadoras, a artilharia moderna e os aviões de guerra ao campo de batalha. Os caminhos-de-ferro tornavam possível o transporte de um grande número de homens para os exércitos e até os táxis de Paris eram contratados para levar soldados para a frente de guerra, em 1914. Os cavalos foram retirados dos campos de batalha, excepto aqueles que eram usados para carregar munições, e os tanques passaram a ocupar o seu lugar, a partir de 1916. Porém, a arma mais destrutiva da Primeira Guerra Mundial foi inventada em Illinois, nos Estados Unidos da América, em 1874, e era usado pelos criadores de animais para controlarem o seu gado. O agricultor Joseph Glidden inventou uma forma utilitária de recorrer ao fio de arame para controlar os seus animais e os sítios por onde passeavam, que, durante a guerra, passou a ser usado como linha de defesa em frente das trincheiras inimigas. Desta forma, sempre que um exército tentava invadir as trincheiras do inimigo, este acabaria por ficar preso no arame e tornava-se num alvo fácil das balas provenientes das metralhadoras. A grande maioria dos ataques feitos às trincheiras que caracterizou os primeiros anos de guerra tinham como principal objectivo cortar a vedação de arame inimiga, uma tarefa que, normalmente, não era terminada com sucesso.

Antes da Primeira Guerra Mundial, não existiam metralhadoras. No lugar delas, existiam as Gatlings, que disparavam milhares de balas em segundos, mas que tinham um carregador muito grande e necessitavam de mais uma pessoa para executar a mudança de munições. Quando o ano de 1914 chegou, esta situação mudou de figura, as armas mais leves que disparam através da pressão de ar tinham sido aperfeiçoadas. A partir daí, uma equipa de dois homens conseguiam disparar milhares de balas em meros segundos. Se colocadas em posições estrategicamente pensadas, as metralhadoras podiam ser o único meio de defesa da linha da frente das trincheiras e, quando eram combinadas com os fios de arame para atrasar, ou parar as tropas inimigas, tornavam-se nas donas do terreno de batalha.

Foi também neste conflito que os aviões foram utilizados em cenários de guerra. A Primeira Guerra Mundial começou apenas 11 anos depois dos irmãos Wright terem feito a sua primeira travessia aérea num avião dirigido com um motor, mas a indústria da aviação desenvolveu-se muito, durante este período. Os aviões, inicialmente, eram utilizados como um meio de reconhecimento das actividades do inimigo, em vez de usarem os tradicionais balões de ar quente. Não demorou muito até que estes transportes fossem armados e usados por cada um dos lados da guerra para impedir que o inimigo tivesse alguma vantagem aérea, sendo inventadas as manobras aéreas conhecidas como “Flying Circus”. Durante este período, o piloto de guerra mais famoso foi o alemão Manfred von Richthofen, também conhecido como o “Barão Vermelho”. Parodiado nos desenhos animados de Charlie Brown, o piloto registou o recorde de número de aviões abatidos, tendo arrebatado 80 aviões dos Aliados, até à sua morte em 1918, às mãos dos seus inimigos. Após ter tido a honra de um funeral militar às mãos dos Aliados, eles espalharam folhetos com as imagens das cerimónias fúnebres pelas linhas defensivas alemãs, para os informar da sua perda. Esta atitude marcou o ponto final numa era em que existiu um certo cavalheirismo numa guerra que ceifou muitas vidas.

Gás! Gás! E Tanques!

A arma mais temida da guerra era o gás químico. Usado pela primeira vez pelos alemães na Segunda Batalha de Ypres, a 22 de Abril de 1915, a mistura química continha cloro e mostarda, entre outros gases, sendo usada para tentar destruir uma barreira defensiva dos Aliados, que era inquebrável. Os efeitos deste ataque foram devastadores, já que o cloro levava a que os pulmões deixassem de funcionar correctamente e a que a sua vítima morre-se asfixiada, enquanto a mostarda cegava os soldados e os restantes químicos queimavam a pele e destruíam o sistema nervoso. Contudo e apesar dos resultados, os ataques químicos nunca conseguiram causar a vantagem táctica esperada para nenhum dos lados, já que o recurso a máscaras de gás tornava os químicos obsoletos, e o seu uso começou a ser muito reduzido, após 1916.

Outra tecnologia que era usada com objectivo de destruir o brutal impasse que se vivia na Frente de Guerra envolvia outra invenção do século XX: o automóvel. Desesperados por conseguirem derrubar as linhas defensivas alemãs, os Aliados construíram os primeiros tanques da História, em 1915 e 1916, mas a sua utilização só se tornou mais comum em 1917. Existiram ataques bem-sucedidos, outros que não correram assim tão bem e o tanque acabou por não se revelar a arma decisiva que os seus criadores pensavam que iria ser. Porém, durante as ofensivas dos Aliados no Verão de 1918, que, eventualmente, acabariam por vencer a guerra, os tanques tiveram um papel muito importante e foram essenciais para derrubar as defesas alemãs.

Os Navios

O exército e a força aérea não eram as únicas áreas militares que estavam a ser alvo de uma revolução tecnológica antes e durante a Primeira Guerra Mundial. A marinha foi a principal razão que fez escalar a guerra na Europa, já que a corrida ao armamento que começou a ser feita no fim do século XIX pelo Reino Unido e pela Alemanha foi a responsável pelo aumentar da tensão entre os vários países europeus. Em 1906, a marinha britânica colocou nos mares o HMS Dreadnaught, o maior navio militar feito até à data e que revolucionou a construção naval na altura. Os submarinos também foram aperfeiçoados antes e durante a Grande Guerra e desempenharam um papel muito importante no desenvolvimento do confronto, ao fazerem com que os Estados Unidos da América terem um papel activo na guerra, quando a Alemanha declarou que não haveria limites aos ataques dos submarinos, em Fevereiro de 1917.

Existiram outras tecnologias que tiveram um grande impacto nas batalhas travadas, durante a Primeira Guerra Mundial. O telégrafo sem fios, inventada pelo italiano Guglielmo Marconi, em 1910, permitiu a comunicação com os navios, enquanto estes se encontravam no mar. O rádio e o telefone permitiram manter a comunicação entre grandes distâncias, em terra. O desenvolvimento dos métodos de tratamentos médicos nos campos de batalha levou à redução do número de mortes, comparativamente às guerras anteriores. A criação de poderosas armas de fogo, sendo a alemã Big Bertha a mais conhecida, eram transportadas pelos caminhos-de-ferro e conseguiam disparar balas do tamanho de um Volkswagen Beetle.

No entanto, nenhuma destas armas provou ser um elemento decisivo para a vitória da guerra e tudo o que todas elas conseguiram alcançar foi aumentar o número de mortos para níveis nunca antes vistos. Só com o eficaz desenvolvimento do Ataque Relâmpago alemão, na Segunda Guerra Mundial, é que os ataques ofensivos voltaram a tornar-se mais fortes do que as estratégias defensivas, o que permitiu uma maior manobra nos campos de batalha. Durante a Primeira Guerra Mundial, o mundo aprendeu o quanto custa ter demasiado poder de fogo e muito pouca capacidade de mobilidade.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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