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A Primeira Guerra Mundial, as mulheres e o álcool

A Primeira Guerra Mundial marcou uma significativa ruptura no mundo de então. Monarquias caíram, fronteiras redefiniram-se, as economias estagnaram. As alterações não se ficaram, todavia, por aqui. O esforço de guerra teve várias implicações, nomeadamente a nível social, já que, com grande parte da mão-de-obra masculina destinada à frente de batalha, as mulheres viram-se obrigadas a ocupar os postos de trabalho anteriormente ocupados por homens. Estima-se que, no final do conflito, 900.000 mulheres inglesas tinham servido em fábricas de munições, 117 mil no sector dos transportes e 113 mil na agricultura, já para não falar das cem mil que serviram como enfermeiras. As consequências deste facto não se resumiram ao comprimento das suas saias, que se encurtaram. De acordo com o site de História da Família Genes Reunited, o facto de terem maiores rendimentos próprios, na medida em que se tornaram trabalhadoras e por estarem mais libertas das restrições domésticas, permitiu que mais facilmente se reunissem em pubs, tradicionalmente frequentados por homens, e que aumentassem o consumo de bebidas alcoólicas.

Esta tendência foi de tal forma sintomática que o próprio Governo foi aconselhado a tomar medidas no sentido de desencorajar o consumo de álcool por parte das mulheres, incentivando os donos dos pubs a não servi-las e alterando inclusive a decoração dos espaços. Estas sugestões passaram pela utilização de janelas transparentes nos estabelecimentos e a remoção de paredes, ou divisórias que facilitassem a bebida de álcool em segredo.

Cartaz britânico utilizado na Primeira Guerra Mundial
Cartaz britânico utilizado na Primeira Guerra Mundial

A imprensa periódica, através da qual foi efectuado este estudo, também não ficou indiferente a esta mudança de comportamento e mentalidade, tendo sido debatido por parte de diversos magistrados em vários jornais, que exortaram o Parlamento a legislar sobre o assunto. Todavia, ainda que algumas medidas relativamente ao licenciamento da venda de bebidas alcoólicas tenha sido mais apertado, não foram tomadas quaisquer medidas especificamente dirigidas às mulheres.

A experiência feminina na “frente interna” será alvo de uma exposição no Imperial War Museum no próximo ano, no centenário do início da Guerra. James Taylor, curador do museu, reforça a ideia que a crítica ao comportamento feminino então verificado baseava-se no medo do declínio dos padrões morais das mulheres, que a par do consumo de álcool e da execução de trabalhos tradicionalmente masculinos, passavam também pelo hábito de fumar e vestir calças. Certo é que em Fevereiro de 1918, a legislação concedeu o direito de voto às mulheres com mais de 30 anos de idade.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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