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Política

A Política do Medo:

Porque não nos devemos esquecer de George W. Bush

Donald Trump está prestes a celebrar um ano e meio como Presidente dos Estados Unidos da América, um facto desagradável que só é suplantado pelos dois anos e meio que ainda lhe faltam. Esta distopia inesperada, anunciada em novembro de 2016 e consumada em janeiro do ano seguinte, incluiu um conjunto de decisões hostis e negligentes: a saída do Acordo de Paris, a guerra comercial com os parceiros tradicionais e um incentivo constante às clivagens e conflito social. Neste contexto atribulado, a tendência de comparar as decisões do novo Presidente dos EUA às dos seus predecessores tornou-se perversa, num exercício que tem criado uma espécie de nostalgia deturpada.

Esta tendência não é invulgar, nem sequer incorreta e não me parece má ou inútil. Contudo, torna-se severamente prejudicial quando a nossa referência é um presente embaraçoso que nos leva a recordar, com apreço injustificado, figuras infelizes do nosso passado. É por isso que hoje, George W. Bush – o mesmo homem que ordenou a retirada Americana do Protocolo de Quioto e que decidiu invadir o Iraque sem provas contundentes – é descrito como um paradigma da sensatez. Quando Donald Trump é o nosso termo comparativo, dificilmente alguém fica mal na fotografia. Se eu for atropelado não me vou queixar das minhas roupas sujas e é legítimo relativizar a situação. O problema é até que ponto esta lógica pode servir.

Spoiler alert: Não. Não pode servir para George W. Bush.

Vou evitar recuperar várias discussões ideológicas ou avaliar a política económica e social das administrações Bush Jr., porque me parece ser fundamental concentrar a análise numa característica dos seus mandatos: a utilização do medo na política, seja como legitimação ou mobilização. Por diversas razões, como veremos adiante, esta imagem não pode ser apagada das nossas memórias coletivas.

Sinto necessidade de começar com um ligeiro reparo, sob pena de ser parcial. A verdade é que a Presidência de George W. Bush foi ampla e profundamente afetada pelos ataques de 11 de setembro de 2001, o evento mais marcante da história recente dos Estados Unidos da América. O ataque terrorista que derrubou as torres gémeas causou perto de 3000 vítimas mortais e mais do dobro em feridos, deixando uma marca psicológica a todos os americanos. Este desespero, partilhado pelos seus 300 milhões de habitantes, traduziu-se numa necessidade e busca incessante de respostas: quem, porquê, como? A conjuntura política, mas sobretudo emocional, pressionou a administração Bush Jr. a mostrar resultados, uma consequência que se manifestaria independentemente de quem estivesse sentado na Sala Oval. O problema foram as estratégias empregues para o fazer e, pior, o recurso concomitante ao medo dos cidadãos para ratificar as decisões tomadas. Reconhecida mundialmente como Guerra ao Terrorismo, este ramo da política externa norte-americana viria a traduzir-se em várias violações de direitos humanos.

Baía de Guantánamo

Tal como referi anteriormente, a urgência em obter respostas precipitou George W. Bush para um conjunto de práticas não convencionais e, à luz do direito internacionais, ilegais. A prisão de Guantánamo, segundo o Secretário da Defesa, Donald (sim, há vários) Rumsfeld, teria o propósito de permitir a segregação de criminosos extremamente perigosos e indivíduos condenados por crimes de guerra num contexto de alta segurança. Na realidade, esta iniciativa transfigurou-se num campo de detenção onde: os prisioneiros não eram julgados, as suas identidades não eram reveladas[1] e, alegadamente, eram utilizadas práticas de tortura para obter informações valiosas para o governo americano.

A administração Bush Jr. defendeu-se sucessivamente das suas práticas através de minucias jurídicas, nomeadamente de que os EUA, ainda que ocupem e controlem o território, continuam a reconhecer a soberania de Cuba. Assim, este desfasamento permitiria que a prisão de Guantánamo não estivesse sujeita às mesmas provisões do direito internacional, tais como: a impossibilidade de detenção sem direito a julgamento, a garantia de condições minimamente dignas ou a rejeição absoluta da tortura. Estas instalações, que continuam a ser utilizadas atualmente[2], são um marco nos debates de Direito Internacional e Relações Internacionais, uma vez que revelam um desprezo pelo primeiro e uma dinâmica adversa às Organizações Internacionais e outros palcos de política multilateral à escala mundial.

Num dos documentários mais crus e reveladores que existem sobre esta administração, Taxi to the Dark Side, Lawrence Wilkerson, antigo Chefe de Gabinete do Secretário de Estado Colin Powell, revela que muita da intelligence obtida pelos EUA resultava de waterboarding. Desta técnica de interrogação, que consiste em simular a experiência de afogamento para o visado, os responsáveis americanos obtiveram a informação de que o regime de Saddam Hussain estava a colaborar com os terroristas da Al-Qaeda. Aliás, esta foi apresentada pelo próprio Powell na Assembleia Geral das Nações Unidas, numa tentativa de legitimar a intervenção no Iraque. Infelizmente para milhões de pessoas, a administração de Bush Jr. não teve em conta o coro de advertências (nas quais se incluía John McCain, senador americano pelo Partido Republicano e antigo prisioneiro de guerra) que alertava para a falta de fiabilidade de qualquer confissão obtida através da tortura. É evidente que quem se encontra nessa posição diz o que garante a suspensão do seu sofrimento, isto é, aquilo que o seu carrasco pretende ouvir e não necessariamente a verdade.

Invasão do Iraque

Parece-me prudente começar por recordar que haviam motivos para a fragilidade nas relações com o Iraque: o país havia utilizado armas químicas em várias ocasiões, admitia repetidas violações de direitos humanos no seu país e tinha avançado com a ocupação e anexação do Koweit que precedeu a Guerra do Golfo. É importante não desvalorizar a tipologia do regime de Saddam Hussain, que se mostrava repetidamente pouco cooperativo com as inspeções estabelecidas nas Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Ainda assim, todas as verificações levadas a cabo comprovavam que o Iraque estava a cumprir com a proibição de desenvolver armas de destruição maciça que lhe havia sido imposta. No entanto, esta informação não satisfazia a administração americana, que anunciou ter obtido provas em contrário – provas que justificavam uma intervenção militar no território iraniano. Durante vários anos, mas sobretudo entre 2001 e 2003, os Estados Unidos da América tentaram obter a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas para avançar com uma guerra preventiva, isto é, uma ação militar ofensiva antes que as forças contrárias desenvolvessem a capacidade de o fazer. Colin Powell, agastado pela falta de eficácia das suas intervenções em persuadir os restantes países a colaborar nesta intervenção, anunciou, em nome do governo dos Estados Unidos, que a diplomacia havia fracassado e era necessária uma ação urgente, movida por uma coligação dos dispostos a agir contra o regime de Saddam Hussein. Ainda que apoiados por Tony Blair e o Reino Unido, os americanos tomaram uma posição marcadamente unilateral, agindo contra a decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas e levando a cabo a invasão do Iraque, motivada pelas armas de destruição maciça. Estas características, ou seja, a noção de guerra preventiva e o unilateralismo, foram a imagem de marca desta administração e atualmente são uma vertente fundamental da Doutrina Bush.

Kofi Annan, então Secretário-Geral das Nações Unidas, viria a pronunciar-se sobre a invasão do Iraque, confirmando que esta não se encontrava em conformidade com a Carta das Nações Unidas, ou seja, era ilegal. Se permaneciam dúvidas – quer da validade jurídica da invasão ao Iraque, quer da (falta de) força do Direito Internacional – as declarações melancólicas de Annan devem dissipá-las. Convencidos de que a intelligence obtida era fidedigna, os Estados Unidos da América atropelaram os contornos morais e jurídicos acordados, levando a cabo uma guerra evitável e com consequências graves em vários sentidos: não foram encontradas quaisquer armas de destruição maciça, um total de mais de 650 mil vítimas mortais, milhares de milhões desperdiçados e um sistema internacional debilitado para a posteridade.

Trump, o melhor que podia ter acontecido a Bush Jr.

O objetivo deste artigo era simples: mostrar que a atual liderança americana não deve ser utilizada para relativizar decisões tomadas pelos seus antecessores. George W. Bush parece estar a gozar de um estado de graça nas nossas memórias coletivas, muito por culpa das decisões bizarras que Donald Trump nos oferece constantemente. Este exercício é preocupante porque desvaloriza as responsabilidades de uma das administrações americanas mais negligentes. Tal como referido anteriormente, Bush Jr. foi obrigado a lidar com um contexto diferente do que esperava, com uma população americana assustada e exigente no rescaldo do 11 de setembro. Ainda assim, a utilização do medo como forma de legitimidade política e o aproveitamento emocional da população americana para justificar o atropelamento de direitos humanos[3] e organizações internacionais não podem ser a resposta, sob pena das decisões políticas serem cada vez menos tomadas com consciência e respeito aos valores morais. Trump é horrível, mas isso não torna Bush Jr. mais do que muito mau.

[1] Mais tarde, por ordem de tribunal, os serviços militares americanos seriam obrigados a divulgar o número de pessoas detidas, bem como os seus dados pessoais.
[2] Razão pela qual nem Trump, autor duma ordem executiva que mantém Guantánamo aberta indefinidamente, nem Obama, que prometeu encerrá-la, mas não o fez, devem ser ilibados.
[3] Além das questões associadas a Guantánamo, também é importante recordar a expansão de poderes da National Security Agency e da vigilância levada a cabo ao povo americano, mas também a nível internacional. Uma política inaugurada por Bush Jr. com complacência de Barack Obama e Donald Trump.

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David Gil Gonçalves

A política é o vetor que une os meus principais interesses: economia, sustentabilidade, comunicação e filosofia. Gosto de análises imparciais, de ouvir e ler um pouco de tudo, porque não acredito em preto e branco. Nos meus tempos livres podem encontrar-me a fazer desporto, ler ou, como todos os outros humanos do século XXI, a viajar.

One Comment

  1. Artigo feito por alguém que não é minimamente informado, quando não se sabe nada de um assunto não se fala nele. Não se limite a fazer pesquisa cheia de sentimentos, faça pesquisas (e já agora, artigos) livres de opiniões, vai perceber, um dia, que a presidência de Trump será algo para nunca se esquecer, de tão boa para o mundo inteiro que será.

    Pergunto-lhe,
    Tem estado a par de quantos pedidos de demissão feitos por CEO’s e Administrações de grandes empresas mundiais têm sido feitos ao longo deste ano e meio de presidência?
    E de quantos lugares do Senado e do Congresso americano têm sido postos à disposição?
    De quantas pessoas no Departamento de Justiça e do FBI despedidas ou mandandas embora neste ano e meio?
    Alguma vez testemunhou tanto ataque e ódio destilado por todos os lados (dos “media”) para com um presidente dos E.U.A.?
    Alguma vez testemunhou um Antigo Presidente (Hussein) a viajar por todo o mundo antes/depois de uma visita do Atual Presidente?
    Talvez a tentar desfazer o que fez antes?
    A ameaçar?
    A abafar?
    Alguma vez testemunhou 40 a 50 MIL acusações seladas?
    Porquê que Trump conseguiu chegar a acordo em ano e meio com dois (três?) outrora grandes inimigos dos E.U.A, algo que desde a presidência de Clinton não era feito? (Arábia Saudita/Coreia do Norte/Russia?)
    Quantos pedófilos e exploradores de menores têm sido detidos?
    Alguma vez testemunhou um desastre nuclear salvo à ultima da hora por verdadeiros patriotas? (Hawai)
    Alguma vez testemunhou provas do míssil serem completamente desprezadas pelos “media”?
    Alguma vez testemunhou fundações políticas a receberem centenas de milhões de grupos com ligações terroristas e depois imediatamente falirem assim que o seu poder lhes é retirado?
    Tudo numa questão de ano e meio?
    Presidência horrível? Trump é horrível?
    Nada foi feito até agora?
    Isto não é um jogo.
    Reconheça,
    Este movimento é maior do que alguém consegue imaginar.
    WWG1WGA!

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