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A Persistência na Memória

Nasci poucos anos depois da Revolução e a poucos meses da primeira visita do FMI a Portugal. Não tive, por isso, nenhuma história de ir para as ruas ao colo nos dias que se seguiram, nem nada que se pareça, como as que por estes dias surgem nas redes sociais, nos sites e na comunicação social.

Sou da primeira geração pós-25 de Abril, aquela que cresceu a ouvir que graças à revolução e aos militares tem liberdade e portas abertas, aquela que em cada crispação política, ou social volta a ouvir as mesmas expressões, como “os valores de Abril”, as mesmas músicas, como o “Grândola Vila Morena”, que até gosto muito, ou outras coisas do género.

Sou da geração que já não soube o que era não poder falar livremente, estar na rua com os amigos, poder seguir o caminho que quisesse, ter acesso à escola e a melhores condições de vida (e ainda bem) sou muito grato por isso. Contudo, 40 anos depois, não sinto que seja necessário relembrarem-mo constantemente, da mesma forma, essa mesma situação. Devemos ser gratos a quem fez a revolução, sem dúvida, como devemos ser gratos por tudo na nossa vida, mas sinto, muitas vezes, que ainda somos um povo preso ao passado, à memória e ao estigma.

Como escrevi, em cada problema político, ou social, que se vive neste país, voltamos, 40 anos depois, a ouvir os mesmos argumentos e os mesmos insultos. Uns são comunistas e comem criancinhas ao pequeno-almoço e os outros são, automaticamente, fascistas (ainda que muitos que o digam nem sequer saibam o que é ser uma coisa, ou a outra). Em cada crise, já “estamos a voltar à ditadura” e a esquecer os tais valores e as tais “portas que Abril abriu”, reafirmam-se os ideais da “luta” e da “resistência” e a palavra “camarada” está constantemente nas bocas.

Vivemos, persistentemente, na memória e no medo que a liberdade alcançada seja perdida, que surja um novo Salazar, que se volte ao Estado Novo, e, para não o esquecer, repetimos, situação após situação, ano após ano, as mesmas coisas, como uma criança (do antigamente, claro), que a mãe mandou à padaria comprar 5 carcaças e um pacote de manteiga e que vai todo o caminho a repetir “5 carcaças e um pacote de manteiga, 5 carcaças e um pacote de manteiga, 5 carcaças e um pacote de manteiga”. Somos, ainda, um povo amargurado pela falta de perdão, que berra contra a figura maior do antigo regime, mas que depois, anonimamente, o elege como o maior português de sempre. Foi reacção social contra os tempos que vivemos, dizem uns, mas eu, honestamente, digo que é total e absoluta falta de perdão. Somos um povo que, por isso, ainda tem medo desse homem que, pesadamente, governou o país de forma implacável, dum homem que morreu, não pelas armas duma revolução, mas na sequência duma queda. Somos o mesmo povo que, saudosamente, continua à espera da volta de D. Sebastião.

Não digo com isto que sou contra as celebrações do 25 de Abril. Acho que é preciso celebrar, mas sem viver em função da memória. Celebrar é ser grato, é alegrarmo-nos por termos tido um momento na nossa história onde, ao fim de mais de 40 anos, teve-se a coragem de dizer “basta!” e permitir-se dar um novo rumo ao país e ao povo, não é, qual velho do Restelo, apontar o dedo, dizendo que estamos a fazer tudo mal e que “não foi para isto que se fez Abril” que, creio, será a tónica de muitos discursos do dia de hoje. É chegado o tempo de deixar de viver nas memórias, reflexos dos medos, e compreender que o Portugal que saiu do 25 de Abril de 1974 não é, nem de perto, nem de longe, o mesmo Portugal que hoje existe. Se é melhor ou pior, não importa, porque está sempre nas nossas mãos poder mudar o rumo. No entanto, para mudar esse rumo é preciso mudarmo-nos a nós mesmos e permitir que as pessoas e as novas gerações pensem por elas próprias. Acredito que uma das grandes razões da falta de ligação das novas gerações à política passa, exactamente, por ainda vivermos ligados a um passado, insistindo na permanência naquela vivência, recreando os mesmos mitos e as mesmas situações.

Alguns dizem que este país não é para velhos, nem para novos, mas eu acredito que é, não só para esses como para todos aqueles que tiverem a ousadia de quererem, tal como se quis no 25 de Abril de 1974 e em outros momentos da nossa história, ser diferentes e serem os donos do seu próprio caminho, libertando-se das amarras da submissão e do medo. Acredito que este país não será para velhos nem para novos, enquanto estiver preso ao passado, às mágoas e ao sofrimento, mas que está nas mãos de cada um de nós, se assim quisermos, criar um brilhante futuro à nossa frente. Acredito que é chegado o tempo de Portugal e dos Portugueses amarem o seu povo, o seu país e a si mesmos, pois é apenas dessa forma que podemos deixar os fantasmas para trás e viver, verdadeiramente, o Hoje!

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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