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A Operação Plástica da Violência nas Escolas

Uma semana é composta por 7 dias, 168 horas, 604 800 segundos, 6 jornais diários nos 4 canais generalistas e uma infinidade de notícias que aparecem tanto online, como na imprensa escrita, na rádio e na televisão. No meio de tanta informação, há que saber separar o trigo do joio, o importante do acessório e o interessante do que deveria nem ter sido notícia. É disso que irá viver este espaço semanal que pretende destacar algumas notícias, factos, curiosidades, pormenores, que marcaram a nossa semana noticiosa.

No meio de tanta movimentação, o que é que esteve In e o que esteve Out?

Destaque

O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) assinou a semana passada contratos com proprietários de dois mil hectares de terrenos, onde “brevemente” será reintroduzido o Lince Ibérico em Portugal, anunciou o Ministério do Ambiente.

A assinatura dos contratos, os primeiros entre o ICNF e proprietários de terrenos para a reintrodução desta espécie em vias de extinção em Portugal, decorreu em Mértola e foi presidida pelo secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza, Miguel Castro Neto.

Este é um passo decisivo no projecto, iniciando a definição geográfica, em estreita colaboração com os proprietários e gestores, do local de reintrodução deste animal. Através da assinatura dos contratos, os proprietários mostram-se disponíveis para promover a espécie nos seus próprios terrenos, que correspondem ao habitat natural do Lince, e poderão ver as suas propriedades adquirir maior valor económico por via do interesse que um dos felinos mais ameaçados do mundo vai suscitar no turismo de natureza, tal como aconteceu em Espanha.

O esforço com vista à preservação do lince ibérico ficou também estabelecido com a assinatura do Pacto Nacional para a Conservação do Lince Ibérico, que foi subscrito pelos municípios de Penamacor, Moura, Beja e Silves, por associações de caça e outras entidades públicas e provenientes da sociedade civil.

Nesta ocasião, foi ainda homologado o “Projeto SOS Coelho Bravo”, financiado pelo Fundo de Conservação da Natureza, no valor de 180 mil euros, e que visa encontrar estratégias para estabilizar as populações desta que é a principal presa do Lince Ibérico.

Depois de termos falado aqui sobre o perigo que o Lince Ibérico enfrenta de desaparecer da face da Terra, por sermos irresponsáveis para com a Natureza, é bom ver que se começam a alinhar projectos para começar a proteger esta espécie em vias de extinção.

Fava

Todos os meios de comunicação, esta semana, relataram a iniciativa levada a cabo por professores da Escola Básica e Secundária do Cerco, no Porto, onde na terça-feira uma docente foi alegadamente agredida pela mãe de uma aluna, apelando ao Governo para resolver os problemas de insegurança “em todas as escolas públicas”.

Nos Estados Unidos da América, a violência nas escolas é desde há muito pura rotina. É vulgar, em particular nas escolas públicas da periferia, um controlo na entrada dos alunos não menos rigoroso e vigoroso do que aquele que é efectuado nalguns aeroportos para voos de grande risco. Não se trata só de controlar a violência quotidiana que os alunos utilizam entre si, ou sobre funcionários e professores, o que se trata já, é de evitar a entrada de armas de modo a diminuir as tragédias. Durante demasiado tempo, a violência nas escolas foi encarada como normal em países onde existiam minorias fortemente oprimidas. Normal na África do Sul do Apartheid, na Palestina, no Brasil das favelas. Foi cómodo considerar que o fenómeno tinha apenas uma raiz. Cómodo pensar que não punha em causa o essencial do modelo económico e político que nos governa.

Hoje, daqui e dali vão chegando notícias de violência em escolas de países da Europa. Chegam notícias de manifestações racistas e xenófobas protagonizadas por jovens, com a democrática Inglaterra começou por dar o exemplo. Seguiram-se outros países. Nos últimos dias, alguns acontecimentos mais graves, como o ocorrido na Escola Básica 2/3 do Cerco do Porto, mostram que também em Portugal se começa a sentir agora o que outros sentem desde há alguns anos.

Para quem nasceu nos anos 30 do século passado, habituado a ver na autoridade do professor, na escola, a extensão da autoridade do próprio pai e, por vezes, com “ponteiradas” na cabeça, reguadas aonde calhava, tudo por não saber bem a Tabuada, para esses, dizia-se, é de facto um espanto, como a situação mudou. De facto, só há uma explicação e uma solução: os pais demitiram-se da educação dos filhos. Existe uma desestruturação da família, e do seu próprio conceito, como célula base da sociedade. A família existe, desde sempre, até entre os irracionais, mas a sua estruturação cabe à sociedade, que através da tradição, do desenvolvimento e progresso, tende a institucionalizar o “casamento” como o contrato mais sério na vida de um cidadão.

É necessário reavaliar o lugar que a escola ocupa na vida dos seus educandos. Talvez os professores e restantes agentes educativos queiram pensar sobre que “ideologia” rege o nosso ensino. A banalização do mal, a boçalidade, o fanatismo tecnocrático e a concomitante ignorância vão sendo cada vez mais comuns no dia-a-dia e esse é um caminho perigosíssimo que temos de evitar. A tirania do ensino técnico e a supremacia duma ideologia pragmática, que secundarizou as humanidades, eis um dado que pode explicar, na origem, entre outras causas, a degradação imparável.

Há que, primeiramente, articular a envolvente familiar e o que, na escola, vai acontecendo. Regra geral, a instituição escolar é hoje vista como sendo o depósito onde os pais deixam os filhos, para irem trabalhar. A escola é um lugar, supostamente, seguro, onde as crianças e os jovens ficam, durante o dia. Subliminarmente, esta atitude denota a superficialidade das ideias quanto à instituição escolar, não só quanto à forma, mas também quanto à sua função. Tal como os seus filhos, que vêem o ensino, não como lugar das aprendizagens profundas e do pensamento, mas um simples lugar onde têm de passar o tempo, igualmente os pais sabem que, na generalidade dos casos, os seus educandos não gostam do que nesse “lugar seguro” aprendem. Portugal, dos bancos do secundário às universidades, é hoje um país à mercê de toda a indisciplina. Sabe-se que é já frequente a expulsão de aulas nas mais diversas licenciaturas. A nossa democracia está, portanto, profundamente doente. Não se trata de descrença nos partidos. Trata-se de uma descrença quanto ao sentido que fazemos.

A escola é hoje um corpo organicamente frágil: professores desmotivados, salários de miséria, absoluta imprevisibilidade quanto a horários e colocação. Acresce a este facto uma nota relevante: muitos docentes de hoje, licenciados nos anos 70, 80 e 90, não gostam, sejamos honestos, de dar aulas. O país não lhes deu as ferramentas conceptuais com que pudessem dar sentido à vida. Essa falta de vocação é sentida e pressentida pelos alunos. Numa sala de aula, onde à ordem e disciplina se devem aliar cultura, erudição e originalidade (q.b), que aluno pode ficar interessado quando o ensino é repetitivo? Que motivação pode haver quando a curiosidade científica de alunos embate nos critérios estritos por que se guiam os docentes? Quando os nossos jovens ouvem o já dito e redito, como evitar o enfado e a dispersão? Mais: como se pode pedir que os nossos adolescentes não sejam violentos se dos agregados familiares à televisão, das relações interpessoais em moda às práticas culturais, tudo convida à violência nas suas mais diversas formas?

Um país que se queira civilizado, justo e livre, não pode esquecer que a escola é o pilar. É na escola que a cultura desse país se vive e se deve estudar, alargando a compreensão do humano. O ensino exige a leitura silenciosa e ponderada do mundo, algo que o mundo “proactivo” detesta. Que tem o Presidente da República a dizer de tudo isto? E a classe política e os ditos “filhos de Abril”? Que país é este onde se fala da liberdade de Abril, mas onde persistem desigualdades sociais gritantes? Não basta mudar de políticas. É urgente mudar mentalidades, comportamentos. No Porto. No país.

Momento

Antigamente, não existiam diálogos no filmes, usando-se apenas as faces para contar a história que se pretendia. Actualmente existem falas, não é possível contornar o facto de que a principal ferramenta de um actor é a sua face. É impossível transmitir emoções complexas com outras partes do corpo, não é verdade?

Quando estamos a ver um filme, o que pretendemos ver é uma cara bonita e sim, é possível ser um actor de sucesso sem se ser extremamente bonito, mas também é possível atingir o sucesso na representação sem grandes dotes interpretativos e sendo apenas bonito. Se formos bonitos e sejamos bons a representar, então, temos o caminho todo feito. No momento em que atingimos o sucesso, a nossa cara torna-se aquilo que nos identifica, tal como um logótipo é o símbolo que identifica as empresas, sendo reproduzido em inúmeros formatos, disseminado pelo mundo, usada para vender não só os filmes, como os posters, revistas, jornais, perfumes, relógios, máquinas de café, bebidas alcoólicas e todo uma parafernália de produtos.

Portanto, no momento em que um actor decide mudar a sua cara, tal como a Renée Zellweger fez, não podemos culpar o público por reparar nisso. É o equivalente a um rebranding no mundo empresarial, ou ao anúncio de um novo iPhone da Apple. O que a actriz fez à sua cara, ou pagou para que lhe fizessem à cara, só a ela diz respeito, como é óbvio, mas, ao fim de tantos anos a vermos a cara de famosos em todos os meios de comunicação, é impossível não reparar nas grandes mudanças que são apresentadas. Também é complicado aceitar que O Diário de Bridget Jones 3 foi adiado por causa de problemas entre o enredo e o actor Hugh Grant, quando vemos que a actriz principal não se parece nada com a personagem pela qual o mundo inteiro se apaixonou e que dificilmente conseguirá atrair tantos espectadores como era pretendido. A não ser que decidam fazer um remake do original, com os mesmos actores, mas com uma cara nova para a protagonista.

É normal que os actores gostei que os espectadores notem as suas mudanças físicas. Quando alteram a sua cara e o seu corpo, por causa da sua entrega a um papel, é expectável que o seu empenho seja reconhecido, principalmente se esse empenho for tido em excesso. Alterar o aspecto físico para dar mais significado a uma interpretação tornou-se num ponto de honra, especialmente para actores cuja aparência tem tendência a ser um bloqueio ao seu trabalho, como foi o caso de Matthew McConaughey e Jared Leto, em Dallas Buyers Club. Christian Bale, Natalie Portman, Michael Fassbender, Charlize Theron, Nicole Kidman, Tom Hanks, de Niro e Brando também o fizeram em alguns momentos das suas carreiras, tornando o processo quase num cliché. A própria Renée Zellweger teve o mesmo tipo de empenho em alguns filmes, ganhando peso e um sotaque britânico perfeito para interpretar Bridget Jones no filme de estreia, perdendo-os para poder participar noutros projectos e voltando a ganhá-los para entrar em Bridget Jones 2. Curiosamente, o único Óscar que ganhou na sua carreira foi-lhe atribuído, quando a sua normal aparência, em Cold Mountain.

Uma melhor comparação em termos de mudança de visual com Zellweger é aquela que Mickey Rourke apresentou, quando voltou ao mundo da representação, depois de uma longa ausência e apresentando uma imagem completamente diferente. A cara de Rourke estava em muito pior estado do que a da actriz, destruída por anos de pugilismo, abuso de substâncias ilegais e de operações plásticas de muito má qualidade. Contudo, a reacção de espanto que todos tivemos foi exactamente igual à que a eterna Bridget Jones teve esta semana. Porém, o que fez Mickey Rourke para combater esta reacção? Entrou em Sin City, um filme no qual teve a sua cara coberta de próteses, para parecer ainda pior do que ele já aparentava.

Poderá Renée Zellweger fazer o mesmo? Claro que sim. As mudanças faciais que a actriz efectuou não são tão radiciais como as de Mickey Rourke, mas mais importante, tal como este actor, ela sempre foi mais do que uma cara bonita e sempre foi reconhecida pelas suas capacidades interpretativas. Isso é muito improvável que tenha desaparecido com a cirurgia plástica. Tudo o que ela necessita é de uma rampa de lançamento para esta nova fase da sua carreira. Só duvido que essa rampa seja um terceiro filme centrado em Bridget Jones.

Curiosidade

Richard Dawkins gostaria de criar uma “lápide cósmica” com as maiores conquistas da humanidade e que pode ser enviada para o espaço, no dia em que a raça humana se extinga. Esta ideia surgiu em debate da revista The Skeptic, em que o biólogo evolucionista e o professor Laurence Krauss participaram. Segundo Dawkins, “actualmente, deveríamos estar a enviar aquilo a que podíamos chamar de ‘lápide cósmica’, porque, eventualmente, a raça humana irá deixar de existir e seria interessante pensar que as conquistas de Shakespeare, Bach, Darwin e Einstein não irão morrer connosco. Ao enviarmos para o espaço um agregado do que de melhor da humanidade tem, na esperança de que no infinito do espaço possa ser descoberto por alguma espécie, pode ser uma boa ideia.”

Porém, impõe-se a questão: o que incluir neste importante documento, nesta derradeira Elogia à humanidade? O cientista não entrou em grande detalhe sobre o que poderia ser incluído nesta lista, apesar de ter colocado no Twitter que Shakespeare, Schubert, Darwin e Einstein deveriam estar na lista.

As grandes descobertas científicas da humanidade teriam de ser preservadas, como é óbvio. A Selecção Natural de Darwin ajudaria aos aliens a compreenderem o funcionamento da vida na Terra e até poderia ser uma lei natural que eles poderiam reconhecer no seu meio ambiente. A estrutura do ADN deveria ser incluída na lápide e talvez o modelo actual da física, apesar de não estar completo. A Matemática é uma linguagem universal que qualquer ser no universo iria reconhecer, mas qual das suas partes poderíamos incluir?

Depois temos ainda a música. Pessoalmente, prefiro Mahler a Schubert e, provavelmente, votaria em Beethoven, em vez de Bach, se fosse obrigado a escolher. Quem sabe se um didgeridoo seria mais sedutor para o ouvido dos ET (isto, se tiverem um). Existem ainda outras artes, como as de Picasso, Da Vinci, Dali… Já para não falar dos vários desportos praticados pela humanidade. As regras do Cricket, do Basquetebol, do Póquer, do Xadrez e do Futebol (incluindo a regra do Fora de Jogo, que de certeza irão compreender a sua complexidade) deveriam estar na mistura.

Existe ainda as conquistas políticas, sociais e tecnológicas da humanidade. Que tal incluir uma cópia da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o modelo lunar Apollo e os planos de Tim Berners-Lee para a Internet? Para representar a democracia, incluiria os planos esquemáticos de todas as legislaturas eleitas democraticamente pelo mundo todo.

Por fim, fotografias. Para ajudar os nossos amigos espalhados pelo universo a compreender melhor o impacto que tivemos no nosso planeta, eu colocaria imagens de satélite de todas as áreas da Terra. Talvez assim eles consigam compreender a razão que nos levou a não estar presentes para lhes contar todas as maravilhas que alcançámos.

Boas leituras, Leitores Sombra.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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