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A ONU é isto

Quando António Guterres venceu a eleição para Secretário-geral das Nações Unidas (ONU) achei por bem não fazer eco de tal façanha. Isto, apesar da eleição de Guterres ter sido justa e um sinal claro de que na política internacional a chico espertice da direita europeia não consegue (felizmente) meter o nariz. E tudo isto, porque – bem vistas as coisas – a ONU não é mais do que uma instituição altamente complexa, inquinada, desigual, descontextualizada e completamente obsoleta que ao longo dos tempos tem servido mais para alimentar egos, manter/criar interesses e conflitos locais do que em promover a paz no Mundo.

A última grande demonstração em como António Guterres vai conduzir os destinos de uma instituição completamente obsoleta e parada no tempo é a resolução da ONU sobre os colonatos de Israel.

Eu não discordo da necessidade de se recriminar Israel pelos actos criminosos que este Estado vem cometendo ao longo dos anos na Palestina (muitos deles com a passividade da ONU), mas a forma como a dita Resolução foi aprovada é – mais um – sinal de que a ONU, tal como está, não serve os interesses da paz no Mundo. E não vejo um qualquer milagre made in Guterres que consiga dar a volta a isto.

Não se tenha a mais pequena dúvida de que esta última reprimenda internacional a Israel não é mais do que uma simples jogada política que tem como objectivo dificultar o trabalho de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos da América. Ou melhor, já não basta à América ter como próximo Presidente um maníaco e temos agora a administração Obama em final de funções a fazer o impossível para que a loucura xenofóbica de Trump seja ainda maior.

Fica mal a Obama utilizar a ONU para a sua guerrilha privada. Assim como fica muito mal aos Estados Unidos da América utilizar a ONU e uma zona tão problemática como o Médio Oriente para um vergonhoso trocadilho político. Já chega e basta a Síria e a tremenda barafunda que a administração Obama patrocinou e armou em todo o mundo árabe.

Já se a ideia de Obama foi a de se prejudicar a já de si muito parca imagem da ONU então o sucesso foi total. Hoje em dia a ONU é isto. Um local onde – ainda – se contam espingardas, se cerram fileiras, se montam e desmontam esquemas quando o que realmente deveria ser feito era o impossível para se promover a paz e o diálogo entre os Povos.

Uma nota final para aqui dizer o que me vai na Alma sobre a morte de Mário Soares.

Obviamente que Mário Soares merece o respeito de todo e qualquer português republicano e defensor da Democracia (tal não se aplica aos famosos “retornados” que queriam que a guerra colonial perdurasse ab eternum. Assim como suspiram pelo regime bolorento de Salazar), mas há que ser justo na vida e na morte.

Mário Soares foi o pai da nossa Democracia. Soares foi um lutador que permitiu que Portugal seja hoje um país respeitado e reconhecido internacionalmente. Foi Soares quem permitiu que hoje tenhamos uma Democracia pluralista ao contrário daquilo que Álvaro Cunhal pretendia.

Mas na década a seguir a Abril Mário Soares deixou de ser um revolucionário pluralista para passar a ser – mais – um político contraditório. Soares perdeu imensas qualidades ao longo dos tempos, acabando por ter um final de carreira política embaraçoso.

Que Mário Soares descanse em paz, mas que acima de tudo seja feita a devida justiça para que Soares o Revolucionário não prevaleça a todo o custo sobre Soares o Político.

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Pedro Silva

"É preciso provocar sistematicamente confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida." (Salvador Dalí) Crítico, opinativo e com mente aberta. É isto que caracteriza um Cronista.

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