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A Música como Propaganda em Tempo de Guerra

Durante a Primeira Guerra Mundial, a música era uma constante presença tanto nos lares, como nas frentes de combate. A maioria das casas tinha um piano e pelo menos um dos membros de cada família saberia tocá-lo, providenciando, assim, um modo comum de entretenimento e socialização. A música popular, desta forma, preenchia todos os campos da cidadania, formando um excelente meio para transmitir mensagens. Reconhecimento esta qualidade na música, os governos muitas vezes usavam-na como um meio para inspirar o orgulho, o patriotismo e a acção nos cidadãos, de forma a conseguirem soldados, apoio populacional e fundos para as suas campanhas. Os compositores e as editoras rapidamente adoptaram estes novos temas para criarem novas músicas, para alimentarem uma população sedenta pelos sentimentos que as músicas pró-guerra lhes causava e promoverem os seus próprios sentimentos sobre a guerra. Imagens dramáticas nas capas dos álbuns e mensagens adicionais impressas nas folhas com as letras das músicas permitiam ampliar a inspiração que estas mensagens expressavam e aumentavam a sua capacidade como um meio de propaganda. A música, durante a Primeira Guerra Mundial, era frequentemente usada para gerar compaixão e aceitação por parte dos ouvintes e, ocasionalmente, vergonha naqueles que não apoiavam a guerra. Era uma excelente ferramenta para influenciar comportamentos sociais e políticos à disponibilidade de qualquer cidadão, ou governo.

A propaganda é definida por Daniel Webster como “uma doutrina, ideia, argumento, ou alegação disseminada de forma deliberada, através de qualquer meio de comunicação, para conseguir ampliar uma causa, ou danificar uma causa contrária” e como “uma acção pública com o propósito de apoiar uma causa.” Efectivamente, a propaganda necessita de ser transmitida a um grande número de pessoas, de modo a alcançar o seu objectivo de manipulação comportamental. A ideia contida tem de ser recepcionada de um modo tal, que a pessoa que for atingida com ela tem de sentir a reacção à mesma é algo que partiu da sua mente e que não está a ser controlada.

Baseando-nos nesta definição, é possível considerar um meio de propaganda muito eficaz. O seu uso pela generalidade da população permite-lhe ser um veículo para a transmissão de mensagens, transformando o contexto e as condições da população, especialmente em tempo de guerra, em mecanismos que aumentam ainda mais o seu efeito. A música é adaptável. A melodia, a batida e o dinamismo podem ser ajustados para reflectir a mensagem que se pretende passar e aumentar o impacto com que o ouvinte será atingido. De certo modo, a música é um veículo de mudança social, que pode ser usada para atingir objectivos específicos, porque tanto as letras, como a melodia e o ritmo conseguem ter mais significados do que aqueles que aparentam ter de início. A música consegue alojar-se na nossa alma de uma forma que a palavra escrita não consegue. É facilmente retida na memória. Canções criadas com o claro objectivo de melhorar a moral da sociedade, angariar suporte, arrecadar dinheiro, ou encorajar o recrutamento são, consequentemente, propaganda.

Em 1914, com o começo das hostilidades na Europa, a guerra começou a ser um tema recorrente para compositores profissionais e amadores e as possibilidades de promover acções de propaganda e angariar dinheiro para esta nova causa eram fortemente perseguidas. As canções tornaram-se demasiado patrióticas, heroicas e egocêntricas. Marchas instrumentais, músicas de recrutamento, canções sobre a história das bandeiras nacionais e canções a louvar o esforço das mulheres como mão-de-obra eram abundantes no repertório musical de qualquer compositor. No auge da Grande Guerra, as músicas eram escritas a incitar aos homens para que se alistassem no exército e vocalistas populares eram contratados para cantarem estas músicas em comícios de recrutamento. Um excelente exemplo de uma música usada nos comícios de recrutamento é a “Your King and Country Want You”, que era usada para convencer os homens a alistarem-se no exército e, caso algum não o fizesse, seriam publicamente humilhados, já que, à medida que iam abandonando os recintos, iam recebendo penas brancas de galinha, por crianças contratadas para o fazer. A letra desta música de propaganda foi criada como se exprimisse os sentimentos das mulheres britânicas, que pedem estoicamente aos amores da sua vida se juntem ao exército, para protegerem os seus lares e o seu país. Contudo, esta canção em particular contém em si várias mensagens propagandistas, para além do tradicional recrutamento, como é o caso da criação de um sentimento de vergonha nos homens que não respondiam positivamente à envolvência patriótica e convencer as mulheres que têm de sacrificar os seus homens para que o país possa ser protegido.

Durante este período, são praticamente inexistentes músicas contra a participação na Primeira Guerra Mundial. As canções produzidas no Quebec, por exemplo, expressavam as mesmas mensagens e as mesmas preocupações daquelas que eram feitas em Inglaterra, com a excepção na força dada à ênfase na defesa do Império Britânico. O preço baixo que as folhas de música tinham baixavam os custos da angariação de dinheiro para as tropas, uma forma eficiente de suportar a guerra, enquanto disseminavam as mensagens pró-guerra. Alimentados pelos tempos de guerra, as populações sentiam a necessidade de cada vez mais músicas com temas patrióticos e os compositores sabiam responder a este pedido, escrevendo várias composições e vendendo-as para várias causas patrióticas.

À medida que a Primeira Guerra Mundial se aproximava do seu fim, a indústria da música continuou a produzir um número elevado de músicas a expressarem o amor pelo seu país, a instigar o entusiasmo pela participação na guerra, proclamando a vitória e que se devia continuar a apoiar as tropas nos vários conflitos. “We’re Going Through to Berlin”, “We are Going to Whip the Kaiser” e “We Shall Never Surrender Old Glory” são alguns exemplos das músicas que incentivaram os últimos meses de guerra. A música continuou, assim, a proliferar como parte da propaganda a favor da guerra e era utilizada pelos governos, pelos compositores e pelas editoras para gerar determinados sentimentos nos cidadãos que as ouviam. Ou seja, para além de aumentar o apoio necessário em tempo de guerra, também permitiu o desenvolvimento de um tema com que os vários intervenientes poderiam exprimir as suas crenças pessoais e atingir os seus objectivos económicos.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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