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A multiplicação da Grande Muralha da China

Se as pontes unem margens, as muralhas separam territórios. A Grande muralha da China, património mundial da Unesco desde 1987, é o maior exemplo desse facto da história da Humanidade.

Construída desde o ano 221 a.C., terminada na a Dinastia Ming (1368-1644), durante o século XV, e abandonada no século XVII, é uma estrutura de arquitectura militar, cuja função principal era a defensiva, a protecção de invasões de outros povos, não se tratando de nenhuma inovação para a época, visto existirem muitas outras muralhas em diversos outros territórios anteriores a ela. Dispendidas toneladas de diferentes matérias-primas e mão-de-obra que terão rondado um milhão de operários, a muralha atingiu quase nove mil quilómetros, segundo as estatísticas de um estudo realizado em 2009, sendo essa a principal característica que a diferencia de outras estruturas semelhantes. Efectivamente, o facto da construção desta estrutura defensiva ter-se desenrolado ao longo de séculos, abarca diferentes materiais e técnicas de construção. O único denominador em comum trata-se da enorme quantidade de mão-de-obra humana nela dispendido. Durante o último período de construção, não só foi ampliada em comprimento, mas também no reforço de trechos construídos anteriormente, nomeadamente a nível da sua largura, atingindo nalguns pontos quase os sete metros de largo.

Todavia, segundo um relatório de Junho de 2012, a Administração Estatal de Património Cultural da China estima que a Grande Muralha se estende ao longo de pouco mais de 21 mil kilómetros de comprimento – mais de metade da circunferência do globo – e ao longo de 15 províncias e diferentes tipos de morfologia de solo e paisagem: planícies, montanhas, prados. O contraste das duas estimativas prende-se com o facto de a anterior apenas contemplar, essencialmente, as construções realizadas durante a Dinastia Ming e de se terem localizado novas secções da muralha, como a descoberta na Mongólia, no deserto de Gobi, pelo explorador inglês William Lindesay. (TIME)

Esta descoberta, contudo, não é consensual. A Coreia do Norte contesta que as secções da muralha que Pequim reivindica foram originalmente construídas pelo antigo Reino Coreano de Koruyo. Esta situação poderá levar a um antagonismo de posições entre os dois países. Como se sabe, a muralha da China não foi somente uma fronteira física entre as China e os territórios limítrofes. Acabou por ser igualmente uma fronteira psicológica ao longo de séculos para os seus habitantes e, actualmente, um grande gerador de turismo mundial – e, indirectamente, de estímulo económico –, por se ter tornado num ex-libris da própria cultura chinesa. É um dos monumentos mundiais mais visitados, atingindo largos milhões de visitantes anuais, o que também poderá colocar em perigo a própria sobrevivência do monumento, pela degradação a que está sujeita, devido não só às condições naturais e meteorológicas, mas também pela constante presença humana, que a sua exibição pública exige. Nesse sentido, foram tomadas algumas medidas proteccionistas pelo governo de Pequim, no sentido da preservação do monumento, não só a nível de legislação, como também da criação de um fundo especial destinado à sua preservação.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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