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CinemaCultura

A Mulher

A Mulher, título original The Wife, dirigido por Bjorn Runge e escrito por Jane Anderson, baseado no romance com o mesmo nome de Meg Wolitzer, é um drama de 2017 que se passa em 1992, com flaskbacks entre os anos 50 e 60 sobre a vida dos personagens principais. Joseph Castleman (Jonathan Pryce) ganha o Prémio Nobel da Literatura e é acompanhado pela sua mulher Joan Castleman (Glenn Close) na viagem a Estocolmo onde o mesmo será entregue.

É durante esta viagem que tudo muda na vida deste casal.

[CUIDADO COM SPOILERS]

Juntos há mais de 30 anos, Joseph e Joan têm dois filhos: David Castleman (Max Irons) e Susannah Castleman (Alix Wilton Regan). Desde cedo que o espetador percebe a relação conflituosa entre pai e filho, que vem sendo acentuada à medida que a acção decorre. David é também escritor, em início de carreira, que necessita de constante aprovação por parte do pai, o que raramente acontece. Vê nele um exemplo a seguir e tenta, a todo o custo, superá-lo, ou pelo menos, igualá-lo. Susannah é uma personagem mais secundária que o irmão, está grávida e somente aparece nas primeiras cenas.

Logo no início do filme, o papel de Glenn Close começa a brilhar e a destacar-se. A sua Mulher é-nos apresentada como uma personagem tranquila, serena e, para os mais atentos, um tanto ou quanto retraída. É ela o pilar da família, é ela a calma para todo o desassossego do marido e é ela quem antecipa todas as necessidades deste como se da sua profissão se tratasse.

Na primeira parte do filme, percebemos, por um lado, a cumplicidade entre o casal, consequência de uma vida em comum, por outro, a frustração e saturação por parte da mulher, ainda que não se saiba exatamente o porquê. Esta dúvida começa a dissipar-se, quando Joan aceita tomar uma bebida com o jornalista Nathaniel Bone (Christian Slater), que os acompanhou (por decisão própria) na viagem até Estocolmo.

Nathaniel está empenhado em escrever a biografia de Joseph (completamente contra a vontade deste), mas para isso necessita de informação que ainda não tem, ou em última análise, precisa de alguém que a confirme, e é essa abordagem que ele tenta junto de Joan.

O jornalista dispara sobre as traições de Joe e tenta atormentar Joan para que esta fale, ao encaminhar a conversa para um qualquer plano de vingança. Joan, tranquila e astuta como até aqui nos tinha mostrado ser, não lhe dá grande importância, mas vai alimentando a conversa.

Nathaniel relembra Joan que também ela escrevia e que tinha tido acesso a artigos de sua autoria publicados no jornal da escola da altura. Pergunta-lhe se o marido a tinha incentivado a continuar a escrever, ao que ela responde que sim e é nesta altura que este questiona se poderia ser Joan por trás das obras de Joe, uma vez que a sua escrita só melhorou e foi notada, após a relação deles ter começado.

Joan dá por terminada a conversa com Nathaniel e assegura-lhe que nada do que ele diz faz sentido.

No decorrer desta cena, são-nos mostrados alguns flashbacks sobre o passado do casal e a forma como se conheceram. Rapidamente percebemos que o jovem Joseph (Harry Lloyd) sempre fora um galã e que a relação deles começara, inclusivamente, quando este ainda era casado. É também através dos flashbacks que nos é apresentada uma jovem Joan (Annie Maude Starke – filha de Glenn Close no mundo real) cheia de sonhos, com um amor muito especial pela escrita e perdidamente apaixonada pelo jovem professor Joe.

À medida que a acção avança recebemos mais memórias sobre o passado dos dois, até chegarmos ao dia em que é tomada a decisão que acaba por ter consequências irreversíveis para as vidas de ambos. Movida pelas aspirações de se tornar uma escritora, a jovem Joan rapidamente muda de opinião após ser apresentada a uma escritora da altura. Esta rasga-lhe as esperanças de sucesso, alegando que toda a indústria é gerida por homens e que nunca irá conseguir que os seus livros sejam lidos.

Embora não seja evidente a repercussão que esta conversa tivera, com o avançar do filme vamos percebendo que Joan desiste de escrever, dedicando-se ao marido e ao trabalho que arranjara numa editora. É através desta mesma editora que Joan consegue uma oportunidade de Joseph escrever o seu livro.

Assistimos, ainda através dos flashbacks, a uma discussão feia entre os dois. Joan não se mostra muito entusiasmada com a obra de Joseph, ao dar a sua opinião sobre o mesmo e, por sua vez, Joseph acusa Joan de não o amar, pois para ele é inconcebível ser amado por Joan se esta não ama o que ele escreve.

Vimos uma Joan submissa à vontade do namorado, completamente apaixonada e capaz de tudo para evitar que ele a deixe. É deste modo que ambos decidem que as obras de Joseph passariam a ser escritas por Joan e revistas por ele.

Quando o primeiro livro é publicado, os espetadores assistem a uma cena onde os dois pulam em cima da cama enquanto gritam: “Vamos ser publicados, vamos ser publicados!” Imediatamente recordamos a cena inicial do filme, um tanto ou quanto infantil, quando Joseph e Joan recebem o telefonema a informar que Joseph ganhara o Nobel e pulam em cima da cama, enquanto Joseph grita: “Ganhei o nobel, ganhei o nobel!”

Existe uma diferença comportamental significativa por parte de Joan entre a primeira cena e a cena do flashback. Ainda que a decisão de escrever pelo marido tenha sido dos dois e impulsionada por ela, é notável a sua insatisfação, frustração e descontentamento actual.

No discurso de atribuição do prémio, Joseph agradece, exclusivamente à mulher por todo o sucesso e carreira, apesar desta ter-lhe pedido para não o fazer. A expressão de Joan nesta cena é qualquer coisa de arrebatador. Sem dizer uma palavra, consegue transparecer para o público tudo aquilo que está a sentir: a mágoa relativa a todos os anos de mentira ou, se preferirmos, omissão da verdade. A angústia por não puder (ou não querer) revelá-la. A revolta ao ouvir os rasgados elogios da sua obra serem atribuídos a outra pessoa. A desconsideração por parte do marido, que ainda que agradeça incessantemente à mulher, saboreia, sem qualquer ressentimento, as massagens ao ego. Os anos perdidos num casamento falhado (talvez?) e ainda uma ponta de raiva e dor.

Esta é a cena que faz a ligação para a enorme discussão entre eles, onde Joan diz finalmente tudo aquilo que retraiu durante muitos anos. Todos os sacrifícios que teve que fazer, todas as horas sentadas à secretária, todos os minutos que não passou com os filhos em prol de uma obra que não iria ser sua. Questionamos, enquanto espetadores se Joseph efectivamente amava Joan, ou se o casamento seria a fachada necessária para continuar o seu (falso) sucesso.

Por outro lado, torna-se claro que o mesmo não se passa com Joan, pois ainda que completamente desiludida e humilhada, esta não deixa de amar Joseph e não permite de forma alguma que a imagem que os seus fãs têm dele seja manchada, destruída ou alterada.

Não se reconhece como uma vítima, pelo contrário, numa das cenas enquanto questionada sobre a sua ocupação, esta diz: “I’m a king maker (sou uma fazedora de reis).” E é isso mesmo que ela nos transmite através da sua personagem.

A história não representa um grande enredo, pelo contrário, o público consegue adivinhar com relativa facilidade o desfecho do drama, no entanto, o desempenho dos actores principais é soberbo e, talvez, o motivo pelo qual o filme foi tão bem conseguido.

Aqui, definitivamente, a máxima aplica-se: Por trás de um grande homem, existe sempre uma grande mulher.

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Susana Correia

Auto-didacta que sempre teve na escrita a sua melhor forma de comunicação. Acredita que tudo acontece por um motivo, na força e no poder do pensamento e em energias positivas e negativas. Sabe que o amor é a resposta, independentemente da pergunta, e quando lhe perguntam qual é o seu, responde, sem hesitar, que é a filha.

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