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A mulher que se mentiu

Daqui, vejo o fumo a sair de mim em forma de tornado. Engraçado; reflecte exactamente como está a minha mente confusa. Dou mais uma passa. Aguento o fumo. Deixo sair outra vez, apenas um fio quando me passa os lábios, espalha-se rapidamente pelo quarto. Nicotina no sangue, químicos no ar, na pele, nas unhas pintadas de vermelho a lascar, descuidadas. Não penso em nada. Estou deitada na minha cama, de barriga para cima, a fumar o primeiro cigarro em três anos. Penso em nada. Ou penso que penso em nada, não sei bem, estou entre o vazio e o caos. O Nada, com maiúscula. Se eu pensar que penso em nada, conta como pensar em alguma coisa? Começo a sentir frio nos dedos dos pés e um arrepio nas pernas. Estava calor e vesti calções, mas agora desceu um frio de morte. Ou o frio da morte, que ainda paira pelas paredes daquela casa húmida. Olho para o tecto.

Não sou a primeira mulher traída, nem serei certamente a última.

Mais uma passa no meu cigarro.

Penso nele. No meu marido. Depois de três dias a chorar por um milagre, a insultá-lo e a rogar-lhe pragas, a culpar-me e a ter pena de mim, não sei bem o que quero.

Marido? Ou ex-marido? Será que me vai pedir o divórcio? Sim, provavelmente vai. Não me ia deixar uma nota daquelas se não se quisesse afastar de forma tão completa de mim. Desejo que não o peça. Desejo com toda a minha força que ele volte para mim. Não sei bem se o quero de volta. Há momentos que sim, há horas que não. Mas isso não me impede de desejar que ele me queira de volta. De ter o prazer de ser a eleita; de poder escolher entre a vontade de tê-lo nos meus braços ou a vitória de lhe dar um pontapé no rabo.

Estúpida!! Como é que não desconfiei? Que instinto de mulher mais estragado e mentiroso. Ou desconfiei? Ou terei um instinto perfeito e imaculado, mas que se completa com uma habilidade incrível de ignorar os clichés e de acreditar na cegueira? De querer acreditar?

Penso nos meus filhos, naqueles que nunca tivemos. Pergunto-me se foi essa a razão. Pergunto-me, se tivesse filhos, seria diferente? Claro que seria diferente, mas teria ele ficado? Nunca ficam. Não teria ficado. Seria agora mais fácil seguir em frente, com umas mãozinhas pequeninas que teriam em mim toda a sua certeza? Ou seria mais difícil, arrastar-me com a lembrança constante daquilo que nunca voltaria a ser?

Engulo em seco e esforço-me por pensar: pára. A culpa não foi tua. A traição foi dele, só dele. E estás melhor sem dúvidas na tua vida, sem pessoas que te fazem sentir pequenina. Assume: vais ser melhor sem ele. Vais ser mais forte sem ele.

Sim, mas e se…?

Sou uma dicotomia humana, confusa e rota e perdida.

No chão, sem pensar em mais nada, apago o meu primeiro cigarro em três anos. Depois, volto a deixar-me deitada. Não sei se já estou preparada para me levantar numa nova realidade. Prometo-me não chorar mais, mas algo (esse tal instinto maldito?) me diz que a dor ainda tem muito caminho. Mas mantenho-me deitada, o cheiro do cigarro apagado a entranhar-se nos meus poros. Não sei se consigo encontrar-me na pessoa nova que passarei a ser. Por enquanto, desde que esteja deitada e não olhe para longe deste tecto, posso continuar ser a mulher feliz que sempre se mentiu.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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