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A mulher da minha vida

Olho para ela e não me canso. Se me nota disfarço, não sei porquê, mas disfarço. Quando dorme não tenho que disfarçar nada, então deleito-me. É menina, é mulher, é a minha mãe.

É quase absurdo tentar descrever o que sinto por ela, porque as palavras não alcançam. Pulsam, ameaçam, mas dissolvem-se antes de chegar à superfície. Por isso vou devagarinho tentando inventá-las e tentando não perder as que vou encontrando.

Quem entende do ciclo da existência sabe que a infância é irreparável. Tudo o que nela sucede, de bom ou de mau, molda-nos para a vida inteira. Tive de tudo na minha, mas foi sobre a almofada do seu amor que tombei sempre e assim saí inteira daqueles anos. Inteira e forte, mesmo na minha imensa fragilidade.

Às vezes ainda uma vontade de gritar ‘mamã!’, como quando era assolada por um sonho mau na meninice. E claro que o ‘mamã!’ não sai, envergonhado, quase a ralhar comigo por querer roubá-lo à sua timidez. Foi sempre ‘mamã!’ nas aflições, sempre! Há uma altura em que o ‘mamã!’ passa a ouvir-se apenas por dentro. Julgo que à medida que vamos amadurecendo tudo o que realmente importa se passa no avesso da pele.

Fiz-me no seu colo, literalmente. Mas foi apenas quando deixei de caber nele que percebi que o teria para sempre. Perdi o seu colo carnal, seguro e feliz e ganhei asas. Cresci. Crescemos. Não me posso esquecer que a minha mãe era ela própria uma menina quando no seu ventre principiou uma outra vida, outras vidas. Então via-a passar pelas alegrias e dissabores de uma existência em construção, tudo isso enquanto também eu me construía debaixo dos seus olhos. Enquanto nos construíamos debaixo dos seus olhos.

Dividi-a com dois irmãos e ela bastou sempre. Multiplicou-se, subtraiu-se às vezes, somou muito e dividiu tanto quanto foi preciso. Não há matemática mais precisa que a do amor de mãe. Tivemos, os três irmãos, a mesma fonte de amor. É nela que nos reabastecemos e com ela nos temos mantido em posição vertical no tabuleiro da vida. Seguramente por isso, no meio das nossas inevitáveis diferenças, sejamos simultaneamente tão iguais. Partilhamos o mesmo amor fundador.

A minha mãe tem o sorriso mais bonito do mundo e às vezes mesmo a dormir sorri. Só os anjos sorriem enquanto dormem. Contemplo-a. Tem uma dose de timidez e outra de espontaneidade que se complementam. É feminina e doce, mesmo quando agreste. Tem os ombros estreitos a confirmar uma fragilidade que me comove.

Na verdade, tudo nela me comove. As mãos onde as minhas apertaram e ganharam coragem, o brilho no olhar sempre que me olha. Ninguém me olha como ela, num misto de ternura, orgulho e dor. Há sempre uma dor pequenina num olhar de mãe.  E depois o amor porque tudo e porque nada. Incondicional.

Ela tem poderes que desconhece. Se o mundo me fere, toco-lhe e deixa de doer. Se a vida me diz que não consigo, nas suas palavras renascem todas as possibilidades. Se uma mágoa me desarruma por dentro, olho-a e tudo reencontra ordem e serenidade.

Os valores que me passou não vieram em cartilha, mas em forma de exemplo. Foi com ela que aprendi a ver por dentro antes de ver por fora. Foi com ela que aprendi a generosidade, a gentileza e a ternura. Foi com ela que aprendi a fazer magia com as mãos. Cozinhar é fazer magia, não é mamã?

Às vezes escapa-lhe infância pela boca, pelas mãos, pelos gestos. Às vezes invento-me mãezinha e sou eu a dar-lhe a mão. Cuidar dela, com a subtileza a que o meu pudor obriga, é a minha forma de mostrar amor.

Ela sabe que é amada. Muito. Duvido que saiba o quanto.

Então sinto, só sinto.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação. Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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