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A morte vestida de cor

Quando ele entrou já sabia que ela preparara a morte para si. Sentou-se e manteve-se imóvel no seu lugar, estático no seu tempo, ansioso com uma mente divagante a tenta manter-se ali. Consegui-lo era determinante para a sua sobrevivência desejada. Mas sentia-se estranhamente liberto do terror mesmo sabendo estar ele presente. Nunca chegou a perceber se aquele terror que sentiu quando soube ser inevitável que ela lhe ia ferir a pele, era seu ou apenas um reflexo imaginado do que seria suposto sentir. Não tinha como a combater. Simplesmente deixou-se descontrair enquanto a observava com a máquina a clamar o seu sangue.

Ela, fria e sorridente, solitária e alegre. O rosto vincado com suaves rugas de pura concentração. Gestos que eram a imagem da sua paixão. Pistola em punho, toda ela imersa naquele mundo muito seu, de tamanha força de tão fácil era a forma como projectou aquela morte. Ninguém a iria parar. Ninguém jamais ousaria cometer sacrilégio tão demente. Para-la seria impossível e significaria parar a única coisa que se pode adjectivar de inevitável: o próprio tempo. Aquele acto bruto que ela se preparava para cometer era a evidência da vida que eles ali juntos alicerçavam. Colocar a morte em alguém não é tarefa corriqueira. A destreza dela ao iniciar o ataque, de mão imóvel na sua vontade e mente focada, descontraíram-no ao invés de o atemorizar.

Ele com as mãos presas no vazio, viu-a aproximar-se. Ela a ditar as regras içou o punho na sua direcção e encostou a máquina à sua pele, perfurando-a repetidamente. Gotículas de sangue resvalaram para o exterior. A pele ferida ganhou os tons rubros da dor. Como se anestesiado por um excesso de vida estivesse, ele sorriu e olhou os caminhos que ela traçava na sua pele. Caminhos que eram os traços do destino que desenhou para ele. Para todo o sempre marcado por ela, fado alegre, linhas negras de arte. Incrivelmente bela a forma com ela desenha a morte no seu corpo.

Traço após traço, o terror que ele não chegou a sentir desapareceu de vez. E sorriu. Sorriu ao ver as formas que ela gravava, as cores que ela injectava, a arte que ela criava. A morte vestida de cor, estampada de azul. A grandeza com que o homem encara a morte. Uma caveira do dia dos mortos para sempre imortalizada no seu corpo. Para sempre assinada por ela na sua pele.

Sorrisos partilhados, orgulho vibrante. A felicidade nascida no momento em que ela terminou o último traço e desligou a máquina de tatuar.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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