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A minha viagem de finalistas

Naquele tempo não havia muitas alternativas e por isso tínhamos que nos sujeitar ao que estava estabelecido. Não era por isso que não ansiávamos por esse tempo de liberdade, mas não éramos mais comedidas. Nos dias que antecediam a saída estávamos muito excitadas com a ideia. Era a primeira vez fora de casa.

O dinheiro era junto com amor e carinho e os progenitores, os pais, sabiam que íamos ficar bem entregues. Tempos em que as escolas não eram mistas e tudo corria às mil maravilhas. O local escolhido para pernoitar era do mais selecto que se poderia desejar.

Sabíamos que seriam dias de descontracção onde outras raparigas, como nós teriam oportunidade de trocar impressões sobre os planos de futuro. Finalista é mesmo isso, final da escola e caminho a seguir.

Umas ficariam por ali, porque as mães as queriam preparar para o futuro, outras estavam na esperança de conseguir um bom emprego e outras, muito poucas, teriam a oportunidade de seguir os estudos. Seja como for aqueles eram dias em que não se pensavam em nada disso.

No dia da partida as mães choravam, porque as meninas ficariam vulneráveis ás garras dos predadores e a honra era algo por que se lutava e até morria. Gente muito bem formada e lúcida. Do outro lado as freiras seriam fiéis depositárias de tantas vidas virgens que se iram juntar.

A viagem poderá ter sido cansativa, mas os planos não deixavam sentir o corpo fustigado pelas horas de camioneta que, naquelas estradas esburacadas e poeirentas, saltavam a todo o momento. Sinais dos tempos.

Após o faustoso repasto, constituído por várias iguarias regionais, o tempo livre seria de convívio. A curiosidade era grande e queríamos conhecer as outras moças que estavam junto a nós. De digestivo na mão, um xerez, trocávamos pontos de vista sobre maridos e criadagem.

A verdade é que ser estudante era irrelevante e o objectivo final era o casamento. Isso é que era importante e de valor. Como era dia de festa bebeu-se mais outro cálice e em pouco tempo a sala parecia dançar sozinha. Não a valsa, mas o foxtrote.

Os quartos eram amplos e arejados e as camas eram de excelente qualidade. Permitimo-nos uma pequena loucura e um charuto foi acesso. Talvez devido à falta de perícia, o mesmo rolou para a colcha e incendiou-se. Que fazer? Um dilema que nem as cartas poderiam resolver.

À volta do hotel havia um pequeno fosso e ocorreu-nos que fosse boa ideia lançar a colcha para o mesmo e evitar a propagação do pequeno incêndio. Infelizmente junto a ele, e não tínhamos dado por isso, estava uma pequena televisão que rolou e se quebrou.

Um erro enorme da nossa parte, mas o mal estava feito. Entretanto a minha parceira de quarto, que tinha bebido mais do que devia, descuidou-se e urinou na cama. Tive que colocar o colchão a arejar, porque o cheiro era nauseabundo.

No quarto ao lado uma das raparigas escorregou e, sem querer, bateu com a cabeça nos azulejos que acabaram por cair. Parecia um castelo de cartas. Tudo se desmoronava. Nervosa toquei a sineta e solicitei um chá.

Nada melhor que uma bebida quente para acalmar as almas que se estavam a descontrolar. O bule estava um pouco quente e a minha parceira, inadvertidamente, acabou por vomitar. Em cima do meu colchão. Uma tragédia.

Onde dormir? Só se fosse possível no quarto ao lado. Elas acederam. Ficaríamos um pouco apertadas, mas seria por uma noite. De manhã tudo se resolvia e voltava o programa ao normal. Como estava muito frio e a refrigeração era péssima, veio novo chá. Aqueceu em demasia.

Não posso precisar o que verdadeiramente aconteceu, mas foi uma noite agitada. Era a minha primeira vez e não queria, de modo algum, falhar. Elas foram tão prestáveis que tinha que retribuir do mesmo modo. Quando acordámos as colchas estavam todas juntas e, como que por milagre, estávamos abraçadas e de mãos entrelaçadas. Certamente que foi da oração nocturna.

Na manhã seguinte, a cabeça estava um pouco pesada, mas o corpo estava com um comportamento diferente. Um pouco descontrolado. Seria dos ares? O pequeno almoço estava fabuloso e foi servido na cama, com toda a calma.

Fumámos outro charuto e bebemos um Porto. Na verdade foram vários e, sem o perceber, os reposteiros começar a arder. Pânico! Nem o chá quente nos safou. Bem chamei pelas freiras, mas elas estavam a auxiliar os bombeiros, com as suas mangueiras. Foi triste.

Aquilo que seria agradável, tornou-se num autêntico pesadelo. O hotel ficou num estado miserável e eu nunca tive coragem de contar ao pai que aquelas noites mudaram a minha vida. Realmente é verdade. As viagens de finalistas são mesmo para traçar os limites.

Ainda hoje o pai não entende, porque não quero casar. Estou bem assim. Continuo a dar-me com aquelas meninas que conheci naqueles dias e somos felizes deste modo. Há coisas que os pais nunca conseguem compreender.

Como recordação, guardei uma foto do que restou do bonito hotel onde acabei por descobrir quem verdadeiramente sou. Foi mesmo a minha revelação total. Eram tempos de pureza e de decoro, o que já não se vê hoje em dia.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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