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A minha mente fugiu

A minha mente fugiu-me. Fugiu-me de novo. Tenho de a puxar de volta, com cuidado e muito devagarinho, os meus esforços são fios de uma camisola a desfazer-se.

Pronto, aqui está ela em mim.

É um vício que tem, esta minha mente. Procura pensamentos inconsequentes nos cantos mais escuros de mim. Gosta de viver com eles na miséria, de se demorar neles. Gosta de dar voltas com eles como numa atracção de feira – uma feira abandonada de filme de terror. E eu ali, completamente submissa a essas memórias que quero esconder até dela, principalmente dela.

Suspiro, entre a rendição e a ansiedade. Peço-lhe que sossegue. Obrigo-a com músicas, livros, passeios. Ela acaba por fingir acalmar e deixa-se abraçar até voltarmos a uma sintonia falsa, um silêncio desconfortável, em que desconfiamos uma da outra. Ela não deixa de murmurar baixinho. Eu ignoro.

A mente foge-me tantas vezes para esses retalhos perdidos de alma! Mas eu acredito nas suas boas intenções. Acredito que queira abrir gavetas para as limpar, que queira tocar nas feridas para as curar, que queira puxar o escuro para me mostrar que, à luz, não é nada de especial. Mas é. Mas é e por isso só me tortura, só empurra os vidros partidos para ainda mais dentro da carne. Talvez eu não esteja preparada para ela me arrastar para esses cantos esquecidos. Há pazes que fazemos com alguns monstros, por vezes com os piores, mas há depois pequenos pedaços de sombras que não conseguimos enfrentar. Ou que não temos forças para voltar a fazê-lo. Talvez depois. Talvez daqui a pouco.

A minha mente quer já. Quer resolver já e deixar-me leve para sempre. Tem de ter calma, tem de aprender a ser paciente por mim. Não a controlo, ela faz o que quer. Não sei porque é que ela continua a fugir para a dor, quando eu a tento convencer tantas vezes a ficar na alegria. A procurar os pequenos contentamentos, a vivê-los, a demorar-se neles. Puxo-a, prendo-a à felicidade, ponho-a de castigo nas cores e no bonito, mas é quando mais depressa ela me foge.

Gosto tanto ou tão pouco de mim, para estar nesta dicotomia constante?

Não, espera, não voltes a fugir! Olha que bonito – o sabor do café com leite ao ler um livro, aquela memória dos amigos numa noite de conversa quente, o entrelaçar das mãos com ele em qualquer lado, em todo o lado. Os abraços e os saltos e os pequenos prazeres, descobertas, vitórias. Espera, mente! Olha como podemos ser felizes, olha como podes passear entre as memórias arejadas, sentir o conforto do sol e as gargalhadas à chuva. Deixa as recordações escondidas saírem quando se sentirem prontas. Deixa-me ter tempo de encontrar palavras para o que em mim não tem nome. Deixa-me ser eu a procurá-las, quando tiver braços suficientes para as abraçar.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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