Crónicas

A minha mãe

A minha mãe nunca foi filha de ninguém. Não conheceu o pai, porque morreu antes dela nascer e a sua mãe era tão jovem que seria impensável que a tivesse concebido. Tinha já uma irmã, pequenina e tão órfã quanto ela. Ficou perdida na vida.

Não foi a menina que devia ter sido. Foi a menina que lhe foi possível ser. Andava de casa em casa, de tios em tios, mas nunca era a sua, sempre a dos outros. Não teve tempo para sonhar com príncipes encantados nem fadas, porque na sua vida havia necessidades e realidades concretas. Não teve possibilidade de ser menina. Foi mulherzinha.

Uns tempos vivia numa casa, povoada de tios e primos que lhe colmatavam a falta da sua família chegada, aquela onde o ninho era doce, suave e fofo. Era a prima, a sobrinha e não a filha. Foi crescendo e tomava conta dos primos pequenos que cresciam ao seu redor.

Noutras épocas, vivia com outros tios que tudo faziam para que não se sentisse uma estranha e não desejada. Porém, o sentimento de enjeitada nunca desaparecia. As outras meninas tinham mães e pais que as cuidavam e ela só via. Não sentia.

A mãe voltou a casar e levou a filha com ela. Nasceu uma irmã e aquela sensação, a lacuna que a acometia começou a ficar mais preenchida. Era um novo sentimento que ainda não conhecia, mas que lhe agradava. Ligou-se a esta irmã com uma força que nunca mais foi quebrada. Persistiu.

Ficou espigadota e deu nas vistas. Era vistosa. Alta e elegante fazia virar o pescoço aos rapazes casadoiros e malandrecos. Um deles conquistou-a, mas as histórias perfeitas estão no papel e não na vida real. Para tudo dar certo tem que ser com linhas, letras, vírgulas e pontos finais.

Quis a vida que afinal os sonhos fossem tão poderosos e fortes que conseguissem passar para o plano superior. O que se escreve não acontece, mas o que acontece pode ser escrito. A peça do seu puzzle chegou num dia como outro qualquer. A cada história corresponde uma personagem e a cada conto um ponto ou umas reticências.

Os frutos surgiram e seguiram o seu caminho. A minha mãe ficou, não onde estava, mas num tempo que gostava que sempre tivesse existido. Um mentiroso que leva a conclusões que não são reais. Não conseguiu parar a tempo, porque o tempo tem o seu destino e não faz paragens por encomenda.

É velhinha, mas independente. Já vai baralhando alguns princípios gerais com outros meios de aplicação, mas continua no seu caminho que certamente ainda será longo. Ontem não me conheceu, mas eu entendo. Nunca teve tempo para ser menina e agora, com tanto tempo para gastar, junta as peças da sua vida e algumas ficam fora de sítio. É como uma carta que fica fora do baralho.

A minha mãe não foi filha de ninguém e acabou por ser filha de todos. Que se faz a uma vida que se escoou e nunca aconteceu? Inventam-se enredos e finais mais felizes que acabam com o público a aplaudir de pé. E o amor, aquele chatinho que anda sempre aos pulos, salpica todos os capítulos, aqui e ali, fazendo com que os leitores voltem a sonhar.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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