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A minha casa é a minha escola

Há quem não encare a via do ensino tradicional como sendo a melhor opção. A pensar nestes casos, a lei portuguesa permite o ensino doméstico. Os saberes são facultados à criança, ou adolescente, em casa por um familiar, ou outra pessoa com que ele habite. A única restrição é que o educador possua, pelo menos, um ciclo acima daquele que está a assumir, bem como algum conhecimento dos programas e das metas curriculares. No fundo, o aluno continua matriculado numa escola pública, somente não a frequenta, exepto para prestar avaliações no final de cada ciclo.

Quem já praticou, ou pratica o ensino doméstico diz que as vantagens são inegáveis. Em casa, o educador não tem 25 alunos para ensinar. É livre, para se concentrar em melhorar exclusivamente os saberes do aluno, sem estar constantemente preocupado com outras tarefas. Uma independência importante para promover um ambiente de ensino vivo, alegre e criativo. Sem pressões, respeitando os ritmos próprios de aprendizagem e de desenvolvimento de cada um. Na companhia dos seus familiares, as crianças aprendem mais sobre o mundo real do que nas escolas – “agora o meu filho aprende e não apenas decora”, defendem. Existem ainda motivações relacionadas com a segurança, como é caso das drogas e do bullyng.

Verdade, ou não, a realidade é que o ensino doméstico tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos, um pouco por todo o mundo. O país que mais se destaca é os Estados Unidos da América, com mais de dois milhões de crianças a aprenderem a escrever e a contar em casa. Se pensa que só é praticado por agricultores que moram em áreas remotas, ou por religiosos desconfiados, tire já essa ideia da cabeça, pois é uma alternativa cada vez mais popular entre a classe média urbana americana. A taxa de crescimento anual situa-se entre os 7 e os 15%. Em Portugal, o crescimento é mais discreto. Os últimos dados disponibilizados pelo Ministério da Educação e da Ciência apontam para que em 2009/2010 existissem 82 alunos inscritos no ensino doméstico.

Nem tudo é perfeito nesta história, também há desvantagens. Existem pais sem capacidades para ensinar os filhos academicamente. Espanha, por exemplo, proibiu recentemente esta prática, depois de terem surgido adolescentes que não sabiam ler e escrever. Todavia, a principal crítica ao ensino doméstico é a socialização. Para Teresa Marques, psicóloga especialista em comportamento infantil e doutorada na área educacional, a escola é “extremamente importante” para que “a criança possa estar com pessoas fora do seu círculo familiar restrito”. É essa convivência que permite à criança “aprender e conviver com as diferenças culturais e sociais”. Na escola, “se não respeitar certas regras, poderá perder a amizade de um colega, enquanto em casa nada disso acontece. Por muito que os irmãos briguem, o grau de parentesco impede a ruptura”, conclui. Opinião compartilhada pelo reconhecido psicólogo Quintino Aires: “ir à escola serve também para desenvolver uma série de competências relacionais e de cidadania, que naturalmente podem ouvir-se em casa, mas não se experimentam como num grupo tão alargado como o escolar”. Ainda segundo alguns estudiosos na matéria, os pais também são ingénuos ao crerem que a educação domiciliar protege os filhos, por estarem num ambiente pacífico, sem bullying e sem competição. Só estão a adiar uma circunstância da vida, pois mais cedo, ou mais tarde, vão sentir a competição e o bullying no mercado de trabalho. Não há como fugir.

Opiniões à parte, historicamente sempre houve crianças educadas em casa: os ricos aprendiam com tutores, outros preferiam aprender com uma professora contratada por um grupo de vizinhos e a maioria sob a orientação dos progenitores. Existem zonas no mundo como o Alasca, onde o ensino doméstico é desde sempre a única opção possível. Gandhi, por exemplo, foi a escola dos seus quatro filhos juntamente com a sua esposa Kasturba. Nas suas palavras: “uma aprendizagem académica não baseada na prática é como um cadáver embalsamado, talvez para ser visto, mas que não inspira, nem nobilita nada”.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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1 thought on “A minha casa é a minha escola”

  1. o aspecto que tambem merece atenção – e muita, é o da socialização; aconselho todos os pais que optem por esta forma de educar a garantirem antes uma excelente rede de socialização

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