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CiênciasCiências e Tecnologia

A mente (quase) surpreendente

Imagine-se numa conversa com um amigo chegado. Foi falar com ele sobre um assunto que o tem preocupado e absorvido nos últimos tempos. O assunto não é o importante, mas o que lhe diz o seu amigo? “Não estás a ser nada racional, não estás a usar a cabeça.” Essa é a frase que o chocou, que o atinge e surpreende e que nunca imaginou que alguém, um amigo, o seu melhor amigo, ou amiga lhe poderia algum dia dizer. “Não uso a cabeça?”, pensa para si, depois de regressar a casa e de, pelo caminho, se ter posto a pensar se fazia sentido o que lhe tinham dito. E, no entanto, agora que pensava “melhor”, que pensava ”de novo”, provavelmente o amigo, ou amiga tinha razão. Não é também a razão que o preocupa, tê-la ou não. O que o preocupa é, uma vez admitida a possibilidade de o seu amigo ter percebido algo que você, de si mesmo, não havia conseguido ainda vislumbrar, o facto de não ter chegado a pôr essa hipótese, ou chegado à mesma conclusão.

Quantas vezes nos damos conta de, efectivamente, não termos, numa dada situação pensado “bem”? Contudo e apesar de tudo, em situações de forte envolvimento emocional, sejam derivadas de um problema no trabalho, um diferendo com um familiar chegado, ou com a mulher ou marido, somos levados a aceitar que muito provavelmente não estávamos nas melhores condições emocionais para uma reflexão mais aturada, ou um pensamento mais ponderado.

Agora, imagine esta situação: é uma professora do secundário. Está a corrigir uma quantidade razoável de testes de Filosofia, ou Matemática – esse conhecimento que é tido como o mais abstrato, ou racional. Corrige aluno a aluno, na sequência normal das perguntas. Chegada ao fim das correcções e classificações de todos os alunos, fica com uma ligeira sensação de ter realizado exemplarmente uma das suas tarefas habituais como professora. Nunca lhe passou sequer pela cabeça ter preferido um, ou outro aluno e preterido outros.

Esse é um dos muitos exemplos que Daniel Kahneman apresenta no seu livro Pensar Depressa e Devagar. Um exemplo da sua própria experiência.

Kahneman, psicólogo americano Prémio Nobel da Economia em 2000, pelo seu trabalho no campo das tomadas de decisão, apresenta-nos, nesta obra estimulante os conhecidos dois sistemas da mente, duas formas de pensar, Sistema 1 e Sistema 2. “O Sistema 1 opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e sem sensação de controlo voluntário. O Sistema 2 distribui a atenção pelas actividades mentais esforçadas que a exigem, incluindo os cálculos complexos. As operações do Sistema 2 estão muitas vezes associadas à experiência subjectiva de actuação, escolha e concentração. (…) Quando pensamos em nós mesmos, identificando-nos com o Eu do Sistema 2, consciente e racional, que tem crenças, faz escolhas e que decide o que pensar sobre as coisas e o que fazer. Apesar de o próprio Sistema 2 acreditar estar no centro da acção, o automático Sistema 1 é o herói do livro (…)”, refere Kahneman, que conclui assim que o Sistema 2 é tido por nós como o herói da nossa mente, mas é o Sistema 1 que leva a melhor.

Kahneman, da sua experiência pessoal como professor universitário, apresenta o exemplo acima, indicando que, quando corrigia os ensaios dos seus alunos, um a um, na sequência normal dos ensaios, concluía que se deixara influenciar pelo primeiro ensaio corrigido de cada aluno e os ensaios seguintes eram corrigidos sob essa visão que adquirira do primeiro. Assim, se o primeiro ensaio de um aluno estivesse muito bom, os seguintes eram classificados mais benevolentemente, ainda que pudessem não ser efectivamente superiores aos segundos e aos restantes ensaios dos demais alunos. Decidiu, então, alterar o seu método de correcções e passou a ler e a classificar ensaio a ensaio e, quando terminava, o resultado em cada um era talvez menos coerente, talvez menos favorável a dados alunos, mas mais rigoroso. Era, no primeiro método, o Sistema 1 a influenciar os resultados e, no segundo, dera a possibilidade de que o seu Sistema 2 de pensamento lhe fornecesse uma reflexão mais ponderada, mais atida.

Durante muitos anos, tivemos todos a ideia de que o nosso cérebro é racional e que não estamos a reflectir, quando agimos com emoção, ou que somos impulsivos algumas vezes apenas. Contudo, temos a noção errada de que, na maioria das situações, pensamos com mais rigor, ponderando várias possibilidades.

A Psicologia e as Ciências da Mente, ou Neuro-ciências, têm evoluído imenso nos últimos dez, quinze anos. E têm-nos surpreendido quanto à nossa efectiva racionalidade, ou emocionalidade e quanto às nossas avaliações, análises um pouco mais profundas e tomada de decisões. Por isto, dito assim, já pode suspeitar de que as coisas com o nosso cérebro podem não ser bem como se julgava. No entanto, a ciência, que usa de metodologias próprias, para despistar os erros e para demonstrar com os meios disponíveis, sem dúvidas ou evidências contrárias à demonstração de uma Tese, tem as limitações que o seu desenvolvimento, o seu Estado da Arte permite, num dado momento.

Proponho que façam os seguintes testes, rápidos, elaborados pelo psicólogo Shane Frederick, que concebeu um Teste de Reflexão Cognitiva, consistindo de vários problemas, entre os quais, os dois que se seguem. Dois problemas, para usarem apenas a intuição. Não para resolver, pensando muito:

  1. Um taco e uma bola custam 1,10 Euros. O taco custa mais 1 Euro do que a bola. Quanto custa a bola?
  2. Num lago há uma mancha de nenúfares. Todos os dias, a mancha duplica o tamanho. Se a mancha levar 48 dias a cobrir o lago inteiro, quanto tempo demoraria a mancha a cobrir metade do lago? 24 dias, ou 47 dias?

No primeiro problema, provavelmente respondeu que a bola custa 10 cêntimos, mas se o taco custa mais 1 euro do que a bola, a soma daria 1,20 Euros. Se assim concluiu, não se surpreenda. Foi o seu Sistema 1 que o conduziu nessa conclusão. Porém, a resposta certa é que a bola custa 5 cêntimos, o que perceberá se “pensar de novo”, ou mais “devagar”. Quanto ao segundo problema, se pensar “melhor”, chegará logo à resposta correcta. Pode sempre voltar atrás e resolver de novo. É mais ou menos isso que o Sistema 2 da nossa mente, faz.

Se ligarmos esta teoria dos dois Sistemas da Mente ao que hoje se sabe da dimensão de registo e da capacidade do Inconsciente, por comparação com o Consciente e da já tão convencionada Inteligência Emocional, percebemos melhor que a ideia de outrora sobre a racionalidade do que vemos (e vemos tão mais do que a nossa consciência nos “diz” termos visto, como adiante se entenderá), do que analisamos e do que decidimos.

O Sistema 1 é sintético e o Sistema 2 é analítico e detalhado. Os dois funcionam com todas, ou quase todas as situações, mas com preponderância de um sobre o outro, dependendo do caso. O Sistema 1 leva-nos a decisões do momento, quase-impulsos, o Sistema 2, mais lento, pode levar-nos a corrigir “erros” de uma análise apressada do Sistema 1. Estes Sistemas não existem em estruturas separadas, ou em “lugares” identificados no nosso cérebro, mas funcionam realmente assim. E complementam-se, ou, em muitas situações, apenas o Sistema 1 funciona e nada de prejudicial daí surge

Não existe nada de que tenhamos de ter receio, ou pavor. Não há propriamente um descontrolo, mas há, seguramente, muito menos controlo do que pensamos, do que podíamos imaginar. A nossa subjectiva avaliação ganha em pontos a qualquer veleidade de uma avaliação objectiva. Como humanos, só temos a ganhar com isso. Foi o nosso Sistema 1, que actua rápida e decisivamente nas nossas decisões, perante um alerta, ou uma situação de perigo, que permitiu grande parte da nossa sobrevivência como humanos.

O nosso cérebro é um produto acumulado de milhões de anos, como se não fosse apenas uma herança dos nossos directos progenitores, e do nosso desenvolvimento no nosso meio social, acumulando aprendizagem a essa herança genética, mas também o melhor exemplo da herança cultural da civilização, desde os tempos mais remotos, fruto de genes e memes (termo criado por Richard Dawkins, em O Gene Egoísta, para o equivalente para a herança cultural e civilizacional, aos genes para a herança biológica). Para além disso, a nossa mente não actua isoladamente na sociedade. Tudo o que fazemos e o que os outros fazem interactua com todos os demais. E mais ou menos todos actuamos da mesma forma, com uns prováveis 90% de influência do Sistema 1, contra o restante do Sistema 2. Assim sendo, o efeito desta “preguiça” mental do Sistema 2, em usar de mais recursos e melhor ponderação, dilui-se num meio onde todos, mas não em simultâneo (o que pode explicar a aparente diferente e superior capacidade de alguém à nossa volta para uma resposta e decisão mais recomendável, sobre uma dada situação), funcionam da mesma forma, na maioria das situações. O que podemos designar como uma questão de “mais atenção”, ou melhor observação.

Se associarmos estas descobertas, não tão recentes assim, mas comprovadas agora, às que se têm feito sobre o nosso “subliminar”, o poder do Inconsciente, podemos entender melhor a nossa própria forma de pensar e desconfiar de uma decisão, ou confirmar. Ou, de outra forma, preparar-nos-emos melhor, para as coisas verdadeiramente significativas e marcantes nas nossas vidas. As que a podem mudar. Desconhecedores de tudo isto, nem chegaremos a entender o significado do que pensámos, ou estamos em vias de o fazer.

O Sistema 2 e o nosso Consciente (ambos os sistemas) são o nosso controlo mental, sobre algum desconhecido, algum risco, alguma incerteza. Por outro lado, o domínio do nosso mundo mental inconsciente e a rapidez de resposta mental do Sistema 1 fazem a grande parte do nosso poder decisório no dia-a-dia. Respondem à maioria dos acontecimentos, observados, observáveis, ou mesmo nem conscientemente observados. Há muito acontecimento gravado pela nossa visão de que nem temos consciência. Na verdade, a maioria do que a nossa visão capta, o nosso cérebro grava, mas nem temos a mais ténue consciência. Tudo tem a ver com alguma preparação que o Sistema 1 nos pode ter dado. Por se tratarem de acontecimentos que, de alguma forma, constituem repetições, ou são similares a algo já observado, ou vivido. A repetição é um dos mecanismos que o cérebro usa para nos levar a uma consciência das coisas que sucedem à nossa volta. Exemplo disso é a semelhança, ou familiaridade de nomes, ou partes de nomes. Posteriormente, essa familiaridade leva a que tenhamos tendência para o que já foi inconscientemente gravado na Mente, em detrimento de coisas, situações, ou pessoas menos, ou nada “familiares”.

Um dos melhores exemplos do que nos podem proporcionar, ou das capacidades dos dois Sistemas da Mente, ou das duas “formas de pensar” é a nossa percepção sobre os políticos, principalmente nas épocas eleitorais, em que as nossas escolhas são determinantes. Seria de esperar que reflectíssemos…

As escolhas, tal como demonstrou Alex Todorov, têm muito mais a ver com uma “percepção” de competência e de capacidade, que se prende bem mais, ou inteiramente com o aspecto do político. Um rosto de queixo quadrado é associado a poder, carácter dominante. O rosto de traços redondos, ao oposto. E as escolhas têm, então, que ver com o que nesse momento for mais determinante, considerado necessário a um político e à colectividade que o elege. Pouco, ou nada tem a ver com a análise detalhada, crítica das suas propostas e das características e aptidões pessoais. Nem todos escolhemos assim. Nem todos escolhemos com base em algo um pouco mais profundo, como o tipo de discurso, e não do seu conteúdo, ou do estilo mais ou menos agressivo, retaliador, de “guerrilha”, etc. Contudo, acontece que a maioria sim. Estas são decisões associadas ao Sistema 1 e nada ao Sistema 2.

Em muitas decisões, como em assuntos mais básicos, os dois Sistemas estão presentes e activos, o 1 fornecendo ao 2 as “primeiras impressões”. O Sistema 2 acrescentando em detalhe e a repensar. O Sistema 1 está sempre presente. O Sistema 2 é mais preguiçoso, como o próprio Kahneman refere, e, em muitas outras situações, o Sistema 2 em nada acrescenta ao 1, em tomada de decisões. É o caso da escolha entre linhas de diferente comprimento, que se confundem e nos pedem para indicar qual o comprimento médio de todas elas.

O conhecimento da mente humana faz-se com a própria mente. E se tem levado tantos anos a atingir o estádio em que hoje nos encontramos, podemos estar certos de que nos próximos anos seremos surpreendidos com o que não sabíamos, como o que ainda nos falta saber. Um desconhecimento fascinante…

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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