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A Meia Dúzia de Safanões do Estado Novo

Abril. Mês dos cravos, da revolução, da liberdade.

Abril. Mês que nos encaminha a um passado vizinho, pouco distante. Remete-nos à nossa Revolução do 25 de Abril, Dia da Liberdade. Transporta-nos ao nosso passado do qual, orgulhosamente, quebramos e vergamos, porém, nunca esquecido. Limpámos a mancha da nossa história, lavamos a nódoa da toalha com cravos vermelhos.

A PIDE e a DGS, responsáveis pela repressão, perseguição e interrogação de todos os opositores do regime Salazarista, levaram estes, os antagonistas da nossa história, a experiências e situações totalmente extremas e selváticas a cabo de satisfazer e confirmar, a todo o custo, qualquer desconfiança que a polícia política possuísse.

Segue a lista das torturas e dos métodos justificados por Salazar quando este interroga o seu interlocutor, António Ferro, com o seguinte:

se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras …?

Tortura da “Estátua”

Esta consistia em manter o preso em pé, virado para a parede sem lhe tocar, em posição de Cristo, com a duração de longas horas.

Os pés e as pernas formavam edemas. A fadiga e a exaustão acrescentavam ao catálogo das consequências deste método de tortura. A polícia, de quando em vez, pegava na cabeça do preso e batia contra a parede para a qual estava virado.

No entanto, esta técnica fora deixada de forma progressiva pois os presos poderiam, simplesmente, recusar-se e atirarem-se ao chão como forma de recusa e protesto mesmo ameaçados, agredidos e espancados de forma brutal. Além disso, era uma tortura que esgotava e fadigava demasiado rápido o detido e esse não era o objectivo.

O recorde registado e mencionado por um agente da PIDE fora de 17 dias contínuos.

Tortura do Sono – Tormentum Insomniae

A tortura mais usada pela PIDE/ DGS e a mais temida pelos presos políticos era inspirada por experiências efectuadas pela CIA, no início dos anos sessenta. Esta técnica de tortura consistia na privação do sono onde o registo mais longo e alguma vez conseguido fora de um mês. As alucinações, a fadiga e o desespero eram as consequências evidentes.

Para impedirem o preso de dormir, os agentes da PIDE batiam com uma moeda na janela da cela do preso, usavam altifalantes, choques eléctricos, gritos, usavam drogas estimulantes e calmantes, beliscavam os presos, copos de água eram atirados à cara e estrondos eram feitos de surpresa.

As refeições, aquando da tortura do sono, eram oferecidas de forma irregular para ajudar e estimular a desorientação do detido.

A privação do sono e a privação sensorial eram altamente recomendadas no auge do Estado Novo provocando, assim, o Síndrome DDD: debilidade, dependência e medo (DDD Syndrom – debility, dependency and dread).

Isolamento

Esta técnica era usada, de forma revezada, com a Tortura do Sono e a Tortura da “Estátua”. Após os períodos a que os presos eram sujeitos às torturas referidas em cima, os carrascos levavam-nos para a cela em regime de isolamento. Esta via provocava, deste modo, despersonalização do indivíduo e tortura psicológica sob forma permanente de ameaça.

Segundo testemunhos, era considerado mais difícil de suportar o isolamento que as ditas torturas. Neste regime, o prisioneiro ficava numa profunda sensação de vazio e solidão em companhia de seus pensamentos e fantasmas, apenas. Este período, em prisão preventiva, poderia ter a duração de 3 a 6 meses com a proibição de utilização de livros, cadernos, canetas e recepção de correspondência. Quando eram levados para novos períodos de tortura, os presos experimentavam a sensação de liberdade onde ficaria mais fácil ceder aos interrogatórios dos agentes da polícia política.

Interrogatórios

Os agentes representavam o papel de policia bom e policia mau. Manipulavam os presos com supostas acusações feitas por outros. Após o interrogatórios, e sob forma de persuasão para os presos desistirem das próprias convicções e princípios, existem relatos que a polícia política colocava uma espécie de capacete em metal com duas lâmpadas direccionadas para os olhos dos reclusos.

Às mulheres, ameaçavam-nas, inclusive, com a retirada total da roupa, expondo-as nuas. Para elas, o ponto de viragem das torturas chegou ao expoente máximo em 1962 apesar de existirem registos anteriores a esta data.

Espancamentos

Os presos políticos sofriam de espancamento sob variadíssimas formas e talhas. A PIDE/ DGS, em relatos registados, usavam matracas em aço, madeira ou borracha; chicoteavam com cavalos-marinhos; batiam selvaticamente com “cassetetes” e tábuas grossas de madeira focando-se, também, nas plantas dos pés no qual obrigavam os presos a caminhar ou a correr pela cela; davam murros e pontapés; espetavam canivetes por todo o corpo; queimavam os presos com cigarros; simulavam o fuzilamento, encostando a pistola à cabeça dos presos; deitavam água pela cabeça para não desmaiarem; queimavam os olhos com fósforos; arrancavam as unhas.

As vítimas de tais actos sofriam de edemas monstruosos nos membros inferiores, o corpo negro do espancamento era visível, tinham cabeças partidas, contusões cerebrais e musculares, os olhos e os ouvidos ensanguentados, cabelos arrancados.

Nas Celas

(Prisão-Forte de Peniche, Prisão-Forte de Caxias, Cadeia de Aljube, Colónia Penal do Tarrafal)

As celas eram completamente fechadas, sem qualquer janela. A lâmpada continuamente acesa, camuflada e fraca, sugeria total desorientação de tempo ao preso. As paredes brancas estavam decoradas com arranhões sofridos de alguns prisioneiros. O mobiliário estava devidamente protegido nas pontas para evitar eventuais suicídios e estes estavam estrategicamente posicionados.

Havia altifalantes escondidos que reproduziam choros e gritos ou reproduziam a voz de familiares próximos do prisioneiro para terror psicológico.

As refeições eram oferecidas de forma irregular e quando os torturados se recusavam a comer, por amor próprio e dignidade ou rebeldia, os carrascos introduziam uma sonda pela garganta, para os alimentar, pois o objectivo primordial não era a morte mas sim a confissão.

Quanto à temperatura, as celas possuíam um ar condicionado onde estas variavam de um frio glaciar para um calor desértico.  Quando calor, os “pides” forneciam aos presos comida salgada e brindavam com copos de vinagre para saciarem a sede.

A PIDE/ DGS usavam um jogo psicológico especial para com os presos. A polícia política tentava não infligir dores extremas aos detidos, ao contrário do que se pensa e imagina. As dores, as torturas e as técnicas eram infligidas sob forma a transparecer que eram os próprios prisioneiros a cometê-la e, assim, culpabilizarem-se de tal. Desta forma, a resistência deles e a vontade de aguentar a dor, acreditava-se nesta altura, desentificava-se . Os manuais de instrução dos carrascos ensinava que as dores imputadas deveriam ser progressivas e lentas. Havia forte preferência na Tortura da “Estátua” pelo facto de a fonte da dor ser realizada pela própria vitima e não pelos agentes, polícia política.

Quando os presos saiam, alguns suicidavam-se e outros ficavam dependentes do álcool e drogas. Alguns, ainda, mudavam de nome e não regressavam para junto das famílias.

Após o 25 de Abril de 1974, o psiquiatra Afonso de Albuquerque registou as seguintes consequências imediatas da tortura: alucinações e delírio; perdas do conhecimento; edemas dos membros inferiores; tentativas de suicídio.

Observaram-se, ainda, sequelas a médio e longo prazo, tais como: falhas de memória; depressão; insónias; psicoses esquizofrénicas e ansiedade, cefaleias, gaguez e dificuldades sexuais, entre outras.

O psiquiatra, após este estudo e registo de cinquenta pessoas, presas entre 1966 a 1973,  afirmou que, para a polícia política, o mais importante não era a confissão mas sim a destruição da personalidade do preso e a criação de um clima de terror em todo o país .

De 1933 a 1974 não havia respeito pelo ser humano. Havia Aljube, Peniche, Caxias e Tarrafal onde destruíam, matavam e apodreciam as almas das pessoas por pensarem de forma diferente do Regime Político Salazarista.

Viva o 25 de Abril! Viva!

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Rita Morais de Oliveira

Sem apresentações hollywodianas, nasci em 1988 no Nordeste Transmontano, Portugal.

Encontrei o meu habitat na escrita desde que comecei a ler e a escrever. Nos meus tempos livres, além de Freelancer de Conteúdos, também sou uma aspirante escritora em (eterna) construção e contra o Novo Acordo Ortográfico. Com um conto policial publicado – Doce Sentença -, outro em execução para uma Antologia Policial e um livro em criação, todos dentro do mesmo género literário.

Como o nosso velho amigo Albert Einstein disse: “Criatividade é inteligência divertindo-se.”

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