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A massa de que somos feitos

Neste rectângulo à beira mar plantado, segundo parece, existe uma senhora que até é boa atriz e que fez um papel, até parece também que muito bem representado, numa telenovela duma estação de televisão para as bandas de Queluz de Baixo, onde interpretava uma cantora popular (também chamada de pimba) com um duvidoso gosto para roupas. Pelo que consta, o sucesso foi tão grande que a população começou a cantar as suas músicas de profunda poesia e isso fez com que se pensasse num mega evento em Lisboa, no pavilhão MEO Arena, antigo Pavilhão Atlântico, em que essa personagem iria cantar os seus êxitos já fora da dita telenovela, acompanhada por alguns artistas conhecidos. Lendo de novo isto, gostava de estar a contar uma história e não a realidade de um país cuja maior crise, continuo a dizê-lo, é a dos valores e a da cultura.

Num país cheio de bons cantores, de bons actores, de bons escritores e de tantos outros bons artistas, vive-se um verdadeiro pântano cultural. Os mais clássicos poderão dizer que a culpa, como sempre, é do Estado e do Governo, mas eu prefiro ir mais longe. Ter ex-futebolistas a fazer dobragens, enquanto actores profissionais passam fome, ou miúdos que mal sabem falar português e que são caras larocas de uma série que repete o mesmo formato vazio de conteúdo durante anos e que se acham actores ou modelos, entre muitos outros exemplos, mostra como na verdade o que existe não é só uma falta de apoio e de visão por parte do Estado português ao desenvolvimento da cultura (também o é), mas também um enorme desligamento da população à cultura do país. Ainda voltando ao caso atrás, nada contra a senhora, mas é melhor actriz do que cantora e, já dizia o meu bisavô, cada macaco no seu galho.

A história mostra-nos que uma nação sustenta-se quando tem uma cola cultural que a une internamente, quando partilha de valores que vão, obviamente, evoluindo com a própria nação, mas que fazem com que, em momentos chave, as crises possam ser mais levemente ultrapassadas. Em Portugal, deveríamos parar um pouco para pensar nisso, há muitos anos que perdemos um rumo cultural, em que andamos meio descolados dos nossos fundamentos. O país de poetas, de artistas, de cantores, transformou-se num país do fast food, onde tudo já vem mastigado e processado e onde pensar, cada vez, custa mais. Poderia ir remexer em tudo isto e até tentar perceber as origens, mas já muitos o fazem e é chegado o momento também de cada um de nós pensar pela sua cabeça.

Prefiro terminar esta crónica com uma visão mais positiva. A dita actriz que permitiu-se levar (pelo contrato com a produtora, com certeza) até ao MEO Arena, apesar de toda a promoção e a toda a máquina de marketing, conseguiu apenas colocar 7500 pessoas num espaço com capacidade para cerca de 20000. De qualquer maneira, afinal, parece-me, ainda continua a haver esperança para o nosso país.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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