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ContosCultura

A mais comum rua do mundo – Parte I

O que eles procuravam encontraram na mais comum de todas as ruas que percorreram. As casas de madeira pareciam terem sido pintadas na véspera e os relvados cortados e regados há minutos. Todas aquelas casas em nada se distinguiam de todas as outras. As árvores protegiam a rua com as suas altas copas a formarem uma abóbada de sombras coloridas. Os carros de nada de diferente tinham além das matrículas e das cores inanimadas. As crianças que brincavam, os adultos que conversavam, os idosos que viam o tempo passar, todos espelhavam a paz e uma total ausência de factos que pudessem alterar o quotidiano.

Aquela era a mais comum de todas as ruas que encontraram, por isso ali se fixaram. A nona casa do lado dos números ímpares pintava-se de um muito claro azul pastel que se confundia com o céu. Tinha um largo alpendre suportado por quatro finas colunas e tinha duas velhas árvores junto à rua a emoldurarem todo o lar. Numa placa no relvado lia-se “vendida”.

Os sorrisos temerosos de Luís, Íris e do pequeno e Tomás gritavam esperanças de uma vida melhor. Fugiram para a rua mais aborrecida do mundo e não sabiam o que esperar, apenas o que desejar. Descarregaram as malas do carro e arrumaram tudo na sua nova casa. Apenas quando Luís veio respirar um pouco a rua, reparou que o seu vizinho estava a regar a relva.

– Boa tarde. – Disse Luís.

– Boa tarde. – Respondeu lentamente o vizinho num tom monocórdico sem qualquer sentimento.

Luís apenas acenou levemente e refugiou-se no interior. Olhou por uma fresta das persianas que ainda não subira e viu uma mulher a sair apressada ao encontro do homem que regava sem sair do mesmo sítio. Viu-a a segurá-lo pelo ombros e a sacudi-lo com força até ele reagir. Pareceu acordar naquele momento e era a cara do medo quando procurava saber onde estava.

Ao jantar Íris estranhou a história mas Luís desvalorizou ao ponto de silenciar o assunto com um murro na mesa que fez Tomás chorar. Ela segurou-o enquanto Luís se desculpava. Íris sabia que ele procurou a todo o custo aquela casa impessoal, aquela rua comum, aquela vida ordinária, banal e ausente de qualquer acontecimento que roçasse sequer o estranho. E ela também. No fundo sabia que era o que precisavam. Um recomeço. Uma fuga. Apenas desconfiava na capacidade deles se fundirem na vulgaridade daquele local.

A noite foi mais uma noite mal dormida. Suores frios molharam a cama de Luís fazendo-o acordar com desconforto. Inevitavelmente também Íris não conseguiu chegar ao sono profundo. Raramente o conseguia, fosse por preocupação com Tomás e Luís, fosse por causa dos seus próprios medos. Apenas Tomás parecia dormir em paz, profundamente absorto na sua juventude.

As manhãs viviam-as lentas há muito e aquela não se mostrou diferente. A noites mal dormida fez com que acordassem cansados, tornando vagarosa a manhã. Com a sonolência mal se falavam. Nessa manhã Íris teve que se apressar. Relembrou Luís que tinha de ir ao centro tratar das burocracias normais quando se faz uma mudança de morada. Luís acenou que sim, que se lembrava, que sabia que tinha de ficar a cuidar de Tomás.

A meio da manhã pai e filho saíram para o relvado. Quiseram aproveitar o conforto do sol matinal e a frescura que ainda se sentia. Luís deixou-se ficar de pé no alpendre enquanto Tomás corria pelo relvado soltando a inocente alegria dos seus dois anos de idade. O sol batia no rosto de Luís e por momentos sentiu-se em paz. Os medos e imagens que não conseguia esquecer apagaram-se por momentos. Deu-se ao luxo de fechar os olhos e relaxar. Por pouco tempo…

Gritos de aflição de Tomás arrancaram-no violentamente da sua paz. Correu em pânico chegando mesmo a tempo de impedir o seu vizinho. Luís saltou para cima dele no preciso momento em que o estranho homem se preparava para atingir a criança com uma garrafa de vinho.

Luís esmurrou o homem e apenas não o espancou logo ali porque o susto do pequeno Tomás se sobrepôs ao instinto violento. Levantou o filho do relvado e abraçou-o com força para o proteger e confortar. O vizinho levantou-se também e sem reagir ao sangue que lhe escorria do sobrolho, seguiu calmamente para casa como se nada se tivesse passado.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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