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A mágica arte de Escher

O que contém uma obra de arte? O que tem do artista, o que contém do mundo? O artista interpreta o mundo na sua criação? Ou é apenas o seu mundo interior que lá está? Provavelmente, na generalidade dos casos, obras e criadores, está na criação artística um pouco, uma mistura de dois mundos. Não é surpreendente para alguém, que assim seja. O que o pode ser, é a obra em si.

Comigo acontece surpreender-me, da cada vez e terão já sido uma boas centenas, que oiço uma Sétima Sinfonia de Beethoven, ou, para retirar a esta reflexão o efeito de estarrecimento, quando me recordo de que o compositor estava totalmente surdo ao compô-la. Quando oiço uma Quinta, ou sexta de Mahler. A Sinfonia Fantástica de Berlioz. Quando contemplo obras de Miguel Ângelo, Picasso e tantos, tantos mais.

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No entanto, há criadores com um outro lado. E, no caso, pergunto-me: “foi artista, ou matemático?”. Escher foi analisado, na sua obra, por Douglas R. Hofstadter (Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid) e coloca-o ao nível de um matemático, ou um artista-matemático.

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Maurits Cornelis Escher, nasceu em 1898 na Holanda. Por essa altura, as artes gráficas viam criações revolucionárias, como as de Picasso, Munch, Matisse, Kandinsky. Tão distintos de Escher, como se pode observar. Talvez por isso, Escher tenha passado bem mais despercebido, pelo conteúdo da sua obra.

Realmente, Escher cria um impacto bem diferente, pictoricamente, de tantos outros artistas. Escher criou representações “impossíveis” da realidade observada. Da Holanda a Itália, as gravuras e pinturas que criou foram fruto de uma observação única, que se misturou com um pensamento nos meandros da geometria e da matemática, abstracto e muito elaborado. “Tranças, entrançados e loops” que se repetiram um pouco em toda a sua obra.

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A primeira impressão é a de identificação com algo familiar, bem conhecido. Desde uma ave, um edifício, ou um movimento, mas impossíveis, ou irreais. Torna-se quase impossível, ou muito difícil, num primeiro olhar, entender uma obra de Escher. Difícil de entender, como as conseguiu criar. Transcendental, meter-se a elaborar algo semelhante.

Inspirou-se em padrões antigos, de outras artes, como os azulejos do Alhambra, em Granada, Espanha. Os entrelaçados estão presentes em quase todas as gravuras de Escher. A tridimensionalidade ganha vida na bidimensionalidade do papel. Efeitos de ilusão óptica e complexas construções matemáticas enriquecem toda uma obra que ultrapassa o plano artístico e entra pela construção matemática. Explicar a obra de um artista é um pouco meter-se a adivinhar, não chegando nunca a saber o que efectivamente o levou a criar da forma como o fez. É um exercício essencialmente… fútil. Porém, com Escher, é fascinante, porque nos desafia intelectualmente, bem para além da simpatia comum, ou da antipatia, ou mesmo da indiferença. Dar-se ao exercício de a interpretar é uma exigência à nossa racionalidade, mesmo que incipiente, e uma diversão, em si mesma. Um bom exemplo dos entrelaçados (os loops, de Douglas Hofstadter, inspiração da sua obra I am a Strange Loop) de Escher é a sua gravura Os Répteis.

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Um excelente exemplo do raciocínio matemático é o da representação de Möbius (inspirado na complexidade criada por August Ferdinand Möbius, na verdade uma simples profundidade, ou, filosoficamente, uma profundidade simples) I e II. Gravuras que representam figuras geométricas de uma só face que nos parecem ser duas.

A arte é o Conhecimento “perfeito”. Não porque nos explique e faça entender tudo, todo um mundo, mas porque, questionar as razões que atenderam ao artista na sua criação, é um exercício praticamente inútil. Desprovido de significado. Uns, dedicam-se a procurar o entendimento. Outros, à sua explicação, à tradução desse entendimento, que julgam ter conseguido. Outros ainda, a manifestarem a si e aos demais a sua simpatia, ou antipatia, adopção ou rejeição, para com uma obra de arte. Neste contexto, não me refiro apenas às artes gráficas, mas isto também se passa, igualmente, com outras áreas da arte e da criação. Quando contemplamos Picasso, Rembrandt, ou ouvimos Beethoven, Mahler, ou lemos Pessoa, ou Saul Bellow, passa-se o mesmo, embora não aceitemos a mesma acepção com a literatura, como com a pintura, ou a música.

Certo é que nos aproximamos, procuramo-nos, ou distanciamo-nos totalmente de uma obra, fruto de uma capacidade, ou incapacidade nossa e não do artista criador. Mantemos uma espécie de “carteira” de artistas dilectos, mas tudo está bem mais na nossa predisposição, apetência, ou abertura intelectual do que na obra produzida.

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A obra, vale por si mesma e não se a deve pôr em causa, como a uma teoria científica, hoje demonstrada e universalmente aceite, amanhã posta em causa, por novas descobertas. Esta é a diferença entre descobrir e criar.

Com Escher passa-se, no entanto, um outro fenómeno. Ainda que só o contemplemos uma única vez, o impacto causado é decisivo. Fica-nos essa sensação de incapacidade de entendimento, da nossa menoridade, como a que teremos perante um teorema de matemática superior, um cálculo de astrofísica. Existe, serve para imensas aplicações, mas nós, simples mortais, não estamos certos “para quê”. Quero dizer, por mais que a visualizemos, dificilmente entenderemos…

…uma pintura, surge do nada? Surge de uma tela, ou papel totalmente em branco, de um vazio, como uma pauta, ou uma folha de papel, ou de processador de texto. Virgens.

Surge de uma observação, de uma capacidade fora do comum de observação, de um entendimento único do observado e de um interior que só o artista conhece e, provavelmente, domina. E da sua outra capacidade, de expressão de todo essa visão das pessoas, das coisas e do mundo, dessa ideia que teve, talvez uma ideia que uma só vez aconteceu, e dessa capacidade de tradução em obra, que se afigura impraticável para a maioria de nós. É a essência do processo criativo. A mais rica e compensadora actividade humana e a que mais dos distancia dos animais.

O processo criativo, o processo mental de Escher morreu com ele. No entanto, é mais ou menos como ouvirmos os Estudos de Execução Transcendental de Estudos de Execução Transcendental de Lizst. Ou se odeia, ou se adora, nunca se deixa de admirar, pela inteligência que conseguiu tais obras.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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