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ContosCultura

A mãe

Era um aperto tão grande que parecia saltar-lhe o coração. Caminhava, sem olhar, em frente, como se alguém a puxasse. O peso nos braços era cada vez maior, mas nem se apercebia. Havia uma força que a puxava e impelia a continuar. Uma dor. Sacudiu-se. Abrandou o passo. Já passou. Continuou a marcha.

Sede. Sede e outra coisa que não sabia explicar. Contudo, as pernas ganhavam-lhe e obrigavam a andar. Outra dor. Mais forte. O peso que carregava aumentava. Custava-lhe a respirar. Teve de parar. Não havia sombras, somente um sol abrasador que a picava e penetrava na sua alma. Olhou em redor. Nada. Tinha de ser ali.

Outra dor mais forte e um subitamente um choro. Tinha nascido. Ela olhava, atónita, aquele ser que saía das suas entranhas. Mexeu-se e chorou. Estava vivo. Abanou o peso que tinha nas mãos. Imóvel. Não entendia. Caída no chão chorava de sofrimento e de alegria. Como se podem misturar dois sentimentos tão opostos?

Um novo ser que clamava pela sua atenção, pelo sustento e continuação da vida e outro, parado, sem cor nem luz nos olhos que a fitavam. Estava desorientada. Tudo aconteceu tão rápido. Como?

Um choro levou-a a sorrir. Pousou o peso que não acordava, pegou no recém nascido, segurou o seio e deu-lhe de mamar. A sede e o calor desapareceram. Uma mãe que amamenta o seu filho é um quadro que pode ser pintado em tons de ternura, uma aguarela que se quer perfeita.

Levantou-se a custo. O filho dormia nos seus braços, satisfeito com aquela primeira refeição partilhada. Olhou para o chão. O outro continuava lá, sem pedir nada, tal como o tinha colocado. Hesitou.

Pegou nele, com delicadeza, junto ao irmão e continuou o caminho. Que interessava tudo aquilo? O filho tinha morrido, mas a vida presenteou-o com outro que nunca iria conhecer o irmão. O caminho era longo e ela, lentamente, soltou aquele peso que incomodava.

Está melhor assim. Vamos, filho, que temos que encontrar uma sombra. Tenho tanta sede, mas a ti não te irá faltar nada. Palavra de mãe. Olhou para trás. Despediu-se do outro, com o olhar. Chorou lágrimas de sangue. Nos seus braços estava a alegria. A vida é tão estranha…

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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