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A Luta

Esta semana foi, sem dúvida, marcada pelo gigantesco e destruidor sismo no Nepal, onde já se contabilizam milhares de mortos entre os escombros de uma cidade destruída, que nos faz pensar sobre a fragilidade humana e como tão rapidamente vivemos um pesadelo. Contudo, na crónica que esta semana chega um pouco mais cedo, decidi trazer um outro tema que, embora pareça bem diferente, está, de certa forma, relacionado.

Por cá, vivemos a semana entre dois feriados importantes. Primeiro, o 25 de Abril, a celebração da luta pela liberdade e pela democracia. Amanhã, o 1º de Maio, a celebração da luta pelos direitos dos trabalhadores. Curiosamente, durante esta semana, houve mais uma ou duas (ou incontáveis) greves e, de forma a poder organizar o meu dia, fui ao site de uma central sindical ver, afinal, o que se ia passar. Numa listagem de greves e manifestações e em frente de cada uma, encontrei a palavra “Luta”, com uma ligação para lado nenhum, mas isso fez-me pensar na constância da palavra “luta” nas nossas vidas e na nossa sociedade.

Hoje, qualquer coisa que não agrada a um grupo puxa automaticamente por um movimento de luta contra essa mesma coisa, mostrando a avidez das pessoas que aderem a esses movimentos pelo confronto e pela vitória. Na realidade, no meu entender, quando alguém proclama muito a necessidade de luta é porque não vive, dentro de si mesmo, uma paz que lhe permita ver e actuar de uma outra forma sobre a situação. Então, transpondo a sua luta (poderia até chamar-lhe guerra) interior para algo mais concreto e social, escondendo-se das suas próprias questões, liberta um guerreiro, ainda que muito pacífico, cujo propósito é o de construir uma sociedade melhor.

As sociedades, todas elas, estão assentes em territórios construídos por via da conquista e de guerras e lutas. O resultado está à vista, com o estado em que o mundo está neste momento, vivendo mais guerras, mais lutas, mais conflitos. Então, insistimos em celebrar, em cada situação, movimentos de luta, pensando que é dessa forma que iremos atingir algum equilíbrio em termos sociais.

Não que as causas não sejam válidas, claro que são! Contudo, não é por via duma proclamada luta que iremos conseguir mudar o nosso país, a nossa sociedade e, muito menos, o mundo ao nosso redor. A verdadeira luta, aquela que devemos travar, está dentro de nós e, essa, poucos querem enfrentar, nem tão pouco olhar e perceber que é o seu conflito interior, fruto de frustrações, medos, raivas e mágoas que pouco têm a ver com a sociedade, mas sim com escolhas próprias e das estruturas de onde vêm.

Transformar as questões que consideramos injustas não passa por um movimento de luta que, por ter essa conotação, já carrega em si uma energia pesada, densa e negativa. Basta vermos as entrevistas às pessoas que seguem nestas manifestações e, nomeadamente, aos dirigentes dessas manifestações, para vermos um destilar de ódio, de raiva e mágoa que, a meu ver, pouco ou nada têm de busca pela igualdade social. Poderão dizer-me que essas pessoas têm razão, por serem injustiçadas constantemente, por viverem em situações difíceis e duras. Eu concordo, têm razão em procurar justiça, mas dado que cada um de nós procura, idealmente, a paz nos seus corações, não é plantando o conflito, a raiva e a mágoa que o irá obter.

Poderei parecer um pouco utópico na forma de pensar, até o sou, confesso, mas constantemente contacto com pessoas que vivem estas questões e o que vejo é, precisamente, questões pessoais e individuais que, por ser mais fácil, são transpostas para uma defesa de alguém exterior a nós mesmos.

Não é pela luta, acredito, que conseguiremos mudar o mundo, mas sim pela tomada de consciência, pelo esclarecimento, pelo debate e pela humanização da sociedade. Se existe discriminação social, seja ela de que natureza for, é porque uns se acham mais e melhores que outros, impondo a sua vontade, impondo a sua forma de agir, e isso, a meu ver, é puramente falta de humanidade. A tomada de consciência, feita através de debate e esclarecimento, sem ódio por aqueles que, a nosso ver, agem de forma menos boa, mas sim compreendendo a sua dor, o seu caminho, transmitindo-lhes, com as nossas palavras, amor e compaixão, não só vai transformar aquela questão como todas as outras. Foi dessa mesma forma que tantos neste mundo operaram as verdadeiras mudanças e é apenas dessa forma que o mundo poderá mudar.

Alguém que discrimina mulheres, homossexuais, idosos ou outra qualquer franja da sociedade, assim como aqueles que maltratam animais, abandonando-os, ou promovendo “desporto” através da luta e do sofrimento dos bichos, é alguém que tem dentro de si uma ferida tão profunda e dolorosa que a única forma que tem de a exteriorizar é através de algo muito pouco humano como a discriminação. Não é certamente com movimentos de luta e confrontos cheios de ódio pelas pessoas que discriminam (mas muito amor pelos animais e pelos discriminados) que irão solucionar seja o que for, amplificando apenas o problema, inflamando a discussão e transformando um mal noutro ainda maior.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d'Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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