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A luta de Knausgård

Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas necessários foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes que nos apercebamos do que está a acontecer, temos quarenta, cinquenta, sessentas anos…O sentido requer conteúdo, o conteúdo requer tempo, o tempo requer resistência.”

Algo mais impressionantemente próximo da ideia do tempo e da distância que uma análise requer, dos nossos passados, seria difícil conseguir. E algo mais belo, quase impossível.

Um dia, um impulso despoletado por um qualquer estímulo, um filme, uma música, um aroma, um local, uma pessoa, uma palavra, um objecto, um prato favorito ou partilhado, uma roupa que se escolheu nesse dia, um acontecimento ao nosso lado, a conversa na mesa ao lado no café, um pensamento que apenas nos assalta e captura… a memória de um momento que nunca mais regressou, regressa, em força e nos deixa reféns, melhor, órfãos da melhor das memórias, a dos dias que nunca vieram, porque apenas chegaram os que se demoraram muito pouco, foram demasiado escassos, mas seguramente os que, tristemente, levaremos silenciosamente até ao último dos dias.

Sobre isto, sobre a coragem em si mesma, do que se recusara a pensar, do que sempre tivera medo de assumir, a morte do pai que, a um tempo, não o choca, que o alivia, porque o liberta dessa vergonha agrilhoada aos tornozelos, quando pelos espaços se move, sobre a vergonha de assumir a vergonha do pai, pelo pai ter sido um alcoólico e pela morte dele, subitamente esperada, sobre uma não assumida frustração de não ter tido essa referência que a maioria de nós tem num pai, escreve Knausgård. Escreve o que muitos de nós quereríamos dizer, se não de alguém, de alguma coisa, ou de muita gente, ou de muitas coisas.

A escrita translúcida, mas com uma espessura sofrida de Karl Ove Knausgård, agarra-nos, pelo que ele fez de si e pela mesma razão de não termos feito nós por nós.

Este primeiro livro é uma denúncia. Da sua capacidade narrativa e da sua temporária dificuldade que um dia se inverteu e jorrou e produziu milhares de páginas em seis volumes. Se um dia lhe faltou tema, não lhe escasseou a veia e a coragem. Os pensamentos vertem-se sucessivamente, sobre o que sentiu e viu e é todo um mundo visto de dentro da sua janela pessoal. Derrama pensamentos muito sentidos, profundos, ou magoados por entre descrições luminosas e vivas do que o rodeia. É um terrível observador de tudo o que o circunda, pessoas e coisas.

A Morte do Pai, o primeiro dos seis volumes de A Minha Luta, é uma escrita apaixonante de onde menos se podia esperar que viessem sentimentos assim. O seu pai foi a marca, pelo melhor, ou pelo pior. Sente-se e quase o vemos, em cada momento, em cada rua, e ao ritmo das suas reflexões sobre a vida, sobre as pessoas, sobre a descoberta do mundo dos adultos, as primeiras cervejas, os encontros destrambelhados com amigos e as quase, quase namoradas, o desejo da primeira bebedeira, o desapaixonamento pela vocação, fosse pelo que fosse.

Lança-nos pelas suas memória dentro, da adolescência inquieta como todas o são, pelas suas descobertas do que pensa de si, do que vê no seu mundo, do que espera de alguém, ou do que já nem espera de nada, nesse tempo, ainda de vidas vividas a grande velocidade.

Experimentou as primeiras festas de turma, combinando tudo atabalhoadamente, passou-nos a imagem de um jovem sem qualquer habilidade para namorar. Yngve o irmão distante que mais tarde nos reaparece como um dos mais próximos familiares, talvez mesmo o único. A mãe que nem tem quase presença na sua demanda jovem. O pai, uma sempre desencantada e desiludida vida, uma sombra indesejada de que se sentia distante a um tempo. E mais tarde se revela uma memória dolorosa, sofrida por tal distanciamento. Fica-nos a ideia de que Karl Ove não reteve bem a ideia do que o seu próprio pai lhe era efectivamente. No livro, estranhamente, não damos pelos nomes do pai e da mãe.

Começamos assim com a crua e autêntica relação dos vivos com a morte dos outros: “Para o coração a vida é simples: bate enquanto pode. Depois pára”. Logo nas primeiras linhas. Um sinal. A vida terá para Knausgård dois sentidos, ou duas expressões. Esse, da fria verdade biológica. E outro, que mais tarde nos é revelado, em súbitos e inesperados ataques de choro, quando ia a caminho do funeral do pai.

Esse realismo cru, por vezes cruel consigo, por vezes duro com outros, mas sempre de uma inteligente elegância. Como se meteu esse homem das terras do frio e do silêncio a escrever sobre si? Contando pensamentos e acontecimentos com a coragem que lhe podia trazer tantos dissabores. E pode ter começado assim, numa viagem urbana. Ou num dia desses, do silêncio nórdico, da frieza das palavras que não dos sentimentos, num súbito impulso.

Um escritor denuncia-se e não ganha fragilidade, mas ganha admiração pela nudez da sua vida, exposta em tão elegante forma. Pode um dia um de nós pegar num teclado e começar? Será este escritor apenas “um de nós”? Para já, quando penso na sua escrita ocorre-me… temerário. Que impulso pode mudar uma vida, uma linha de actuação? Que nos pode fazer regressar a um passado, completo, incompleto, a que não queremos regressar, ou a que adoraríamos voltar?

Ao lermos esta saga de um homem das terras do sol preguiçoso, quase acreditamos na facilidade da escrita e na capacidade que qualquer um de nós pode um dia descobrir, para se meter ao trabalho que a ele e muitos exige disciplina e muita perseverança. Desvenda-nos, talvez, uma possibilidade. A de pegarmos num tema qualquer, pois o segredo está em pormos nas linhas o que nos vem de dentro, ou, precisamente no contrário, na dissimulação, que alguém um dia disse ser da natureza de quem escreve, ser mentiroso. Porém, este homem escreve verdade, de si e dos seus. Assim, a cru. Encarregou-se de decorar os seus factos com a beleza própria e a elegância que serão a sua marca.

Uma escrita com uma eloquência sincera e transparente. Desta vez o escritor entra em nós, pela entrada que fazemos nele. Leva-nos às nossas próprias memórias, pela nudez que nos dá das dele. Com a sua filosofia muito própria, as revelações dos seus gostos e das suas antipatias.

Knausgård, o autor que diz que “escrever é ver-se livre da vergonha”, que afirma que “só quem escreve rompendo com os limites do gosto pode forjar uma identidade comum” e que “defende quem escreve o que não deve, não tem de ser ou não pode ser escrito”, conseguiu deixar-nos numa elevada probabilidade de uma espera curiosa sobre os seus próximos volumes a publicar por cá. Pois, ele próprio se meteu a caminho a escrever sobre o que talvez não devesse, ou não tinha de escrever.

Veremos como, no segundo volume, ele nos revela um homem que se apaixonou e foi pai. Como reúne e nos desvenda a sua colecção de momentos de sentimentos fortes e antagónicos que foram compondo uma vida.

 

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

One Comment

  1. Excelente comentário, descrição e relato de um livro” diferente”. Uma autobiografia muito real, espontânea e sincera. Recomendo a leitura.

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