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A Lista de Negra de The Blacklist

The Blacklist chegou à televisão norte-americana em 2013 com uma premissa pouco original: um espião regressa do local onde esteve escondido nos últimos anos e vem acompanhado por uma lista de vilões que pretende ver terminados. Porém, esta série trouxe ainda o talento de James Spader, um actor que consegue ser tudo, menos ser desinteressante. Com uma primeira temporada a ser um êxito em todo o mundo e com o segundo ano a ter estreado recentemente, nada melhor do que fazer uma pequena retrospectiva sobre como foi até agora.

Comecemos pelos pontos negativos. Para além de James Spader, grande parte dos episódios foi trémula. Quando Red não agraciava o episódio com uma maior presença na história principal, só sobravam mistérios pouco misteriosos (era óbvio que o marido de Lizzie era um vilão, mas a série demorou uma eternidade até desenvolverem mais esse arco narrativo), conspirações sem grande conteúdo e uma equipa de intervenção do FBI que deixava um pouco a desejar. Já se esperava que a capacidade representativa do actor principal fosse magnética, mas, quando se está rodeado de actores sem grande expressão interpretativa, é fácil para qualquer personalidade se destacar. Aliás, sempre se soube que Red seria a personagem central de toda a trama, independentemente das histórias criadas para as outras personagens, mas, quando se é a única personagem com mais do que uma dimensão e com profundidade, para além dos vilões, não é complicado de ser o centro da atenção numa história.

O que a segunda temporada necessita de fazer, desesperadamente, é desenvolver uma personalidade orgânica à segunda personagem central. A agente Elizabeth Keene demonstrou ter muitas personalidades, ao longo do primeiro ano: uma agente do FBI com pouca experiência no terreno, esposa dedicada, parceira contestatária, agente rebelde e parceira contestatária, outra vez. Megan Boone fez um excelente trabalho com o esquizofrénico material que tinha para trabalhar e para desenvolver uma personagem que é constantemente referida como especial, mas que, no fim da temporada, não tinha demonstrado a razão de ser considerada de tal.

Apesar disso, os argumentistas continuaram a tentar criar diferentes versões dela, sendo que nenhuma era genuinamente interessante e, em alguns casos, como os episódios em que era a parceira contestatária, era fácil de não gostar dela. É quase impossível de torcer por uma personagem tão desinteressante, por maior que sejam os argumentos usados pela narrativa. Portanto, em vez de parar com esse caminho para a personagem logo nos primeiros episódios, a série decidiu continuar essa trajectória, fazendo, em alguns episódios, com que Lizzie não confiasse em Red e, noutros, com que se quisesse afastar dele. No entanto, os momentos finais do último episódio da primeira temporada parecem indicarem uma nova direcção para esta personagem, que irá ditar um novo ritmo à parceria central desta série, criando drama através da criação de novas formas de conflito.

No que toca à fraca equipa de intervenção do FBI, os seus elementos conseguiram ser ainda menos desenvolvidos do que a Lizzie, sendo usados apenas como meios para atingir um objectivo, ou como momentos de exposição que serviam de contraponto a toda a acção que envolve as histórias de Red. Exemplo disso foi o momento em que Malik foi brutalmente morta no último episódio do primeiro ano da série, não teve qualquer impacto emocional, sem ser, claro, ficar triste por Parminder Nagra ter ficado desempregada. Como o resto da equipa sobreviveu ao ataque de Berlin, resta ainda a esperança de que na nova temporada lhes dê mais personalidade e vontade de arriscar tanto como Red tem arriscado, depois de tudo por que passaram juntos.

Para além de James Spader, o único elemento que sempre soube elevar a qualidade de The Blacklist, foram os convidados que apareceram para interpretar, na maioria das vezes, os vilões que também o souberam fazer. Jane Alexander, Robert Sean Leonard, Campbell Scott, Diane West… a lista de convidados é quase interminável e foi sempre um prazer ver quem é que iria aparecer a seguir para interpretar o antagonista da personagem central. Até ao momento, o convidado mais proeminente foi Alan Alda, que esteve exemplar num papel que exige que seja arrogante, recto e tenso, sendo simultaneamente vago em todas as conversas que tem. É um exemplo da qualidade interpretativa do actor, que sempre foi um prazer de assistir, mesmo que a história em que se encontrava não avançasse para lugar algum.

Felizmente, o que atrai na série não é a sua mitologia pouco desenvolvida, mas o prazer de ver James Spader a trabalhar. O seu Reddington, tal como praticamente todos os personagens, tem um passado misterioso e que vai sendo alvo de várias pistas que necessitam de ser decifradas. Tudo o que nos é permitido saber sobre isso é que foram tempos negros e muito trágicos. Porém, o actor não interpreta a personagem como se fosse um robô sem humor, mas sim como um homem que escolhe tirar prazer em todas as situações que consegue, com anedotas, comida, cigarros e arte. Quando o assunto é sério, ele muda o seu comportamento e a sua postura rapidamente, apesar de ver o lado positivo em tudo, por muito horror que tenha visto em toda a sua vida. Reddington, no fundo, é um pragmático sobre o mundo em que vive, mas, no fim do dia, é sempre um optimista.

Portanto, com um protagonista tão aprazível de se acompanhar no centro de toda a acção, é fácil de sentir satisfação por acompanhar a série. À medida que a trama se foi revelando, foi também tornando-se cada vez mais aparente que o prazer de acompanhá-la seria o percurso de Red e todos os personagens interessantes que gravitavam à sua volta e não todos os mistérios que foram sendo criados. Claro que muitas personagens não conseguiram atingir a qualidade desejada, enquanto alguns mistérios contidos num único episódio conseguiram ser envolventes, mas, a não ser que algumas respostas aos mistérios existentes sejam dadas, depressa o interesse se irá perder e tudo irá rodar em torno da relação entre Red e Lizzie, ao mesmo tempo que vão saltando de um nome da lista para outro.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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